Polêmicas, universo de games e descrença na política: Como a direita se aproveitou das redes para disseminar ideologia

Ana Paula Ramos
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Bolsonaro games
Bolsonaro publicou vídeo na internet em que brincava com jogo de realidade virtual (Foto: Reprodução)

Em 2019, o presidente Jair Bolsonaro publicou um vídeo em sua rede social, em que aparecia brincando com um jogo de simulação de tiro em realidade virtual. Em seguida, escreveu em seu perfil no Twitter: “Um forte abraço, gamers!”. A postagem teve quase 3 milhões de visualizações e ganhou interação de gamers famosos, que somam juntos mais de 1 milhão de seguidores.

No mesmo mês da publicação, Bolsonaro assinou um decreto que reduziu alíquotas de IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) para videogames e acessórios de consoles. As taxas, que variavam de 20% a 50%, baixaram para a faixa de 16% a 40%.

No fim do ano passado, ele reduziu novamente o IPI que incide sobre os videogames e consoles. As novas alíquotas variam agora de 6% a 30%.

Segundo cálculos da equipe econômica, em dois meses, o governo deixou de arrecadar R$ 5,4 milhões. Para 2021, o impacto anual previsto é de R$ 36 milhões e, para o ano que vem, de R$ 39 milhões.

No entanto, essa aproximação de Bolsonaro ao universo de games não é por acaso.

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Em entrevista ao Yahoo, o doutor em Antropologia Orlando Calheiros, que estuda o que ele chama de “ecossistema das direitas na internet”, aponta que essas medidas demonstram o interesse da máquina de propaganda bolsonarista nesse nicho.

Paralelamente às ações do governo, Jair Renan, filho do presidente com a segunda esposa, é “gamer”, tem um canal no YouTube e recentemente abriu uma empresa que atua no ramo de “YouTube/esportes e marketing”, entre outras atividades. Ele chegou a ter o canal banido do Twitch, uma plataforma de vídeos focada em games, após ironizar a gravidade da pandemia da covid-19.

Analistas já observam, por exemplo, que Jair Renan vem atraindo um público jovem para o bolsonarismo, principalmente os 'gamers’.

Na avaliação do antropólogo, “o filho 04 do presidente é uma peça importante nessa máquina de propaganda” digital.

“A presença do filho do presidente nessas redes, apoiando conteúdos de games, é uma forma de disseminar nomes da direita e ideologias, nesse universo”.

Segundo Calheiros, há uma importância da conquista do “perfil” desse segmento para o jogo político, principalmente porque é um público que gera engajamento, que “ocupa as redes”.

Ele destaca que as estatísticas mostram que esse segmento é plural, composto por metade de homens e metade de mulheres, com negros e uma forte presença do público LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transexuais).

E, basicamente, são os jovens que mais consomem esse material de games.

“Então, você tem uma máquina barata de propaganda e é um público que não apenas consome, mas se engaja na mensagem. No meio de games, você influencia influenciadores. São microinfluenciadores, que às vezes têm mil seguidores, mas mil seguidores que consomem tudo que ele produz”.

De olho no poder de engajamento desse público, a direita passou a atrelar conteúdos de cunho conservador e ideológico a conteúdos considerados neutros, inclusive apoiando o “crescimento de microinfluenciadores”.

“A direita conseguiu criar uma máquina de propaganda que associa sua ideologia política a assuntos neutros, como vídeos de games, de futebol, de maquiagem. Não de uma maneira direta, mas se aproveitando do ecossistema das redes - basicamente por meio de propagandas e patrocínio de influenciadores”.

“Então, o algoritmo das redes acaba vinculando os assuntos e sugerindo conteúdos de ‘direita’ para aquela pessoa. Isso que eles conseguiram fazer: vender mensagem política como a-política”, explica.

“Nesse processo, a pessoa vai sendo continuamente sujeita à propaganda de direita, seja de forma direta ou indireta”.

Para Calheiros, incubar ideologia nesse público jovem é fundamental do ponto de vista eleitoral, pelo poder de influência que, muitas vezes, eles exercem na família. “Quantas famílias não votam baseado no filho?”.

“Por isso, a ocupação dos espaços de games deve ser agora a grande prioridade das esquerdas, dos democratas”, diz.

ECOSSISTEMA DAS DIREITAS NA INTERNET

Orlando Calheiros explica como o “ecossistema das direitas na internet” se utiliza também dos conteúdos polêmicos como “estratégia de marketing”.

“As redes sociais, que hoje em dia são sinônimo de internet para muitas pessoas, são locais em que cada usuário escreve uma rede própria dentro do ecossistema. Cada usuário representaria um nicho do ecossistema. Quando estamos falando de ecossistema, estamos falando do convívio com diversos seres naquele ambiente. As direitas entenderam muito rapidamente o impacto desses ambientes na politica”.

Esses movimentos de extrema direita começaram a se utilizar das redes sociais para propagar conteúdos principalmente nos Estados Unidos.

“Esses grupos, que já tinham táticas de ocupação da rede, começaram a utilizar isso em ampla escala. E você percebe que determinados conteúdos passam a ser usados pelos próprios políticos para atrair atenção e engajamento. Como, por exemplo, as frases polêmicas”.

Foi nesse contexto que surgiu o então deputado federal Jair Bolsonaro, que acumulava declarações polêmicas e chegou a exaltar, durante seu voto no impeachment da ex-presidente Dilma Roussef, o general Brilhante Ulstra, responsável pela tortura da petista na época da ditadura.

“Eles entenderam que essa tática gera frutos na internet porque o algoritmo não computa se estão falando bem ou mal de determinado assunto, mas que estão falando daquele assunto. Então a polêmica é uma estratégia para atrair atenção e engajamento”, explica o antropólogo.

“Essa citação ao Ulstra tinha o intuito de atrair atenção para si. Se até 2017, ele era um sujeito pouco conhecido, ganha uma força imensa, muito motivada pela base aguerrida, mas também pelas pessoas que estavam dedicadas a atacá-lo na internet - a esquerda. Então eles contam com a mobilização da sua base e também da oposição”, analisa.

Além disso, atualmente, essas polêmicas servem ainda como uma ‘cortina de fumaça’, alerta o pesquisador, que desviam da atenção de problemas mais sérios do governo.

Orlando Calheiros cita também como exemplo da influência das redes sociais na política - e de como a direita soube usar melhor essa ferramenta - as eleições norte-americanas em 2016, quando o republicano Donald Trump venceu a democrata Hillary Clinton.

“A campanha da direita estimulou muito mais uma supressão de voto, do que uma estratégia de ‘vote em mim’. Eles divulgaram determinadas propagandas para pessoas que já estavam inclinadas a não votar”.

DESCRENÇA NA POLÍTICA

Além da questão das notícias falsas, o antropólogo afirma que esse movimento trabalha também para promover uma “descrença na política”, o que pôde ser visto no Brasil nas eleições presidenciais de 2018 e municipais deste ano, com disparo de postagens, por exemplo, sobre ‘o que acontece caso uma porcentagem dos eleitores não compareça às urnas’.

“Quando você faz com que parcela da população não vote, o número de votos necessários para se eleger ou para ir para o segundo turno é menor. E isso favorece candidaturas mais extremas porque os apoiadores são mais engajados. Aquele sujeito médio, que não se interessa muito por política, que vê o cenário político com uma certa descrença, esse sujeito vai ser convencido a não votar”.

“Como no caso da extrema esquerda, ela não consegue se articular e ainda tem pouco voto entre os eleitores, o cenário beneficia a extrema direita”, diz.

Calheiros destaca essa relação entre o aumento na abstenção e o crescimento das extremas direitas e cita as eleições presidenciais norte-americanas deste ano, que teve uma votação recorde.

“Por isso, o que você teve nos Estados Unidos agora neste ano uma votação recorde, porque as pessoas se organizaram para votar contra o Trump, porque dentro de um cenário de abstenção, ele conseguiu florescer”, completa.

FINANCIAMENTO

Além de apontar como essa ‘máquina de propaganda’ é barata, o doutor em Antropologia Orlando Calheiros aponta que o governo Bolsonaro consegue fidelizar esses microinfluenciadores basicamente com prestígio. Ao aumentar a audiência desses canais e páginas de apoiadores, o presidente garante uma “militância patrocinada” sem que ele gaste dinheiro com isso.

“Quantas vezes Bolsonaro fala com apoiadores, grava vídeos, cita o nome de influenciadores? Ele faz propaganda para os pequenos influenciadores. O canal bomba e ele cria uma militância contínua e patrocinada, sem ser pelo seu dinheiro, mas das plataformas”.

“Ele garante que os apoiadores terão fluxo de caixa, que vai permitir que eles se dediquem integralmente, dependendo do caso, àquela atividade”, diz.

ESQUERDAS

A avaliação do antropólogo é que, nesse sentido, de aproveitar a estrutura da rede para divulgar propaganda política, as esquerdas ficaram paradas no tempo.

“Existe dois movimentos no lado da esquerda: pessoas que não entenderam o poder das redes e outro movimento que acredita demais e tem uma percepção equivocada”. “E ambas acabam sendo cooptadas de certa maneira para divulgar as ideias da direita, existe uma certa inércia”.

Segundo ele, ao criticar as declarações do presidente ou dos seus apoiadores, a oposição acaba reverberando o conteúdo e dando mais divulgação, fazendo chegar até a pessoas que não teriam conhecimento daquelas falas.

“Infelizmente, não é a denúncia moral na internet que vai funcionar e isso não gera atração [nas pessoas]. O eleitor médio do bolsonarismo não é o minion. A mensagem que chega nas pessoas é de ‘ele é incompreendido, é o tiozão”.

“E isso é percebido pelo resto da população de que essas ideias não as afetam. E o que a direita fez é o discurso de que a pessoa tem o direito de ser racista, de ser homofóbico. Então denunciar ‘Bolsonaro racista ou misógino’ não vai funcionar. É preciso se formular uma tática de reação tendo como base esses princípios da luta antirracista, antimachista, antimisoginia, antissexista”.

Mas Calheiros vê o surgimento de um movimento de esquerda nas redes sociais. Exemplo disso foi o candidato a prefeito de São Paulo Guilherme Boulos (PSOL), que durante a campanha, participou de uma live em que jogava Among Us.

“Foi um esforço interessante. E estamos vendo, ainda timidamente, organizações da esquerda na internet para divulgar seu conteúdo, discutir marxismo, igualdade de gênero, racismo”.

“As esquerdas precisam construir um ecossistema para si para que outras vozes floresçam nas redes”, finaliza.