Polícia de Salvador é acusada de matar duas mulheres na porta de casa

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As vítimas foram surpreendidas por uma ação policial enquanto conversavam no bairro do Curuzu, na capital baiana, na última sexta-feira (4)
As vítimas foram surpreendidas por uma ação policial enquanto conversavam no bairro do Curuzu, na capital baiana, na última sexta-feira (4)

Texto: Victor Lacerda / Edição: Lenne Ferreira / Imagem: Reprodução da internet

A manicure Viviane Cristina Leite Soares, 40 anos, e Maria Célia de Santana, 73, vizinhas, conversavam na calçada da Rua da Contenda, no bairro do Curuzu, em Salvador, quando foram acertadas por disparos que as levaram à óbito na última sexta-feira (4). De acordo com testemunhas locais, os tiros partiram de um confronto entre um criminoso e policiais militares, que atendiam uma ocorrência sobre um carro roubado. No mesmo bairro, em novembro do ano passado, Viviane perdeu um sobrinho de criação em circunstâncias semelhantes.

Railan Santos da Silva, de 7 anos, foi atingido no peito em um tiroteio envolvendo a Polícia Militar enquanto assistia uma partida de futebol no bairro e, assim como a tia, também não resistiu. Em um estado que tem predominantemente a raça negra presente nos mais variados espaços, a truculência das ações policiais têm sido denunciada pelos movimentos sociais e culturais da capital. Em carta aberta, o Instituto da Mulher Negra manifestou indignação sobre o caso e denunciou silenciamento por parte da gestão pública sobre genocídios por parte da polícia.

“Todos os dias, crianças, adolescentes, jovens, mães, pais e avós de família, como Maria Célia e Viviane, perdem suas vidas de maneira explicitamente criminosa pela ação da polícia. Nestes casos, o governador sempre silencia (...). Não cabe silêncios, meias palavras ou posicionamentos tão incoerentes diante do genocídio explícito corrente na Bahia”, declara a entidade.

Situado no mesmo bairro do ocorrido, o Bloco Ilê Aiyê se solidarizou com os parentes e amigos das vítimas em nota publicada no último sábado (5). “É com bastante pesar que recebemos a notícia do falecimento de Maria Célia de Santana, carinhosamente conhecida por todos como Morena, uma parceira da nossa comunidade e que acompanhou nossa trajetória desde a sua infância. Morena faleceu aos 69 anos, juntamente com a nossa ex-aluna da Band Erê, Viviane Soares. Para os familiares das vítimas e amigos, apresentamos nossa solidariedade e conforto possível nessa trágica situação e afirmamos que elas estão vivas dentro de cada gesto ancestral que compartilharam conosco. O momento é de extrema reflexão”, declarou, em nota aberta.

O bloco também manifestou postura contrária à prática policial recorrente na região. “Esse comportamento policial nos nossos bairros precisa acabar. Queremos poder conversar com os nossos vizinhos em nossas portas sem ter que morrer por isso”, finaliza a nota.

De acordo com informações repassadas à Alma Preta Jornalismo pela 3ª Delegacia de Homicídios da Bahia, a Polícia Civil segue nas investigações para saber quem foi autor dos disparos. O veículo roubado foi periciado, cápsulas foram coletadas no local e outras perícias foram solicitadas. Guias de remoção também foram expedidas.

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As vítimas se somam ao quadro apresentado em um levantamento realizado pela Rede de Observatórios da Segurança, em 2019, que apontou que 96,9% das pessoas com cor e raça assassinadas pela polícia eram negras. Na Bahia, das 489 vítimas, 474 eram pretas ou pardas.

Para o Instituto da Mulher Negra, a resposta da corporação não demonstra mudanças efetivas. “Quem acerta a versão da Polícia Civil em nota!? Mais do mesmo!”, afirma a entidade. Uma campanha pedindo celeridade nas investigações e readequação dos agentes em campo segue nas redes sociais. Hashtags como ‘#JustiçaPorMariaCeliaViviane’, ‘#VidasNegrasImportam’, ‘#MulheresNegras’ e ‘#TristeBahia’ estão sendo compartilhadas.

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