Com 2 ações em 2 dias, PF vira pivô da guerra entre Bolsonaro e opositores

Matheus Pichonelli
·7 minuto de leitura
O presidente Jair Bolsonaro. Foto: Andre Borges/NurPhoto (via Getty Images)
O presidente Jair Bolsonaro. Foto: Andre Borges/NurPhoto (via Getty Images)

Jair Bolsonaro acordou na última terça-feira 26 sem razões para reclamar da vida.

Nem parecia o presidente revoltado que xingava, socava a mesa e avisava que quem não aceitasse suas bandeiras fincadas em família, Deus, Brasil, armamento, liberdade de expressão e livre mercado deveria procurar abrigo em outro governo -- um recado que transformou a porta de saída do governo em serventia da casa e levou Sergio Moro a pediu o boné. Não sem antes reclamar das pressões de Bolsonaro por mudanças no comando da Polícia Federal.

Bolsonaro justificou, exato um mês depois da reunião, que se preocupava com os rumos da PF porque em seu reduto, o Rio de Janeiro, o governador Wilson Witzel (PSC) queria sua cabeça a todo custo.

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“O objetivo dele é ser presidente da República, né? E, para isso, tinha que destruir a mim e à minha família. O tempo todo (estou) vivendo sob tensão. Possibilidade de busca e apreensão na casa de filhos meus, onde provas seriam plantadas. Levantei – graças a Deus tenho amigos policiais civis e policiais militares no Rio de Janeiro – o que estava sendo armado para cima de mim. ‘Moro, eu não quero que me blinde. Mas você tem a missão de não me deixar ser chantageado’. Nunca tive sucesso para nada”, disse o presidente após a divulgação do vídeo.

Sem Moro, a PF, que não dava informações e estava mais preocupado com Marielle Franco do que em esclarecer quem tentou matar seu chefe supremo, foi parabenizada pelo presidente ao saber da ação contra seu adversário.

Quem ele acusava de querer destruir a sua família estava no centro de uma investigação por supostos desvios em compras emergenciais no combate à pandemia do coronavírus.

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Aparentemente sem medo de alguém querer ferrar (o verbo era outro) sua família, Bolsonaro ficou à vontade para acusar, julgar e sentenciar o ex-aliado que ajudou a eleger governador -- e que na reunião foi chamado de “estrume”.

O jogo parecia ter virado, mas a alegria de Bolsonaro pode durar pouco.

No dia seguinte, a PF foi à rua novamente para cumprir 29 mandados de busca e apreensão em diversos estados no inquérito do Supremo Tribunal Federal sobre as fake news -- incluindo ataques a ministros da Corte. Entre os alvos estão o ex-deputado neobolsonarista Roberto Jefferson e apoiadores do presidente como o deputado estadual Douglas Garcia (PSL-SP), o blogueiro Allan dos Santos, a ativista Sara Winter e o empresário Luciano Hang. O dia promete.

No rescaldo da ação da PF do Rio, na véspera, Witzel usou o termo fascismo para acusar o presidente de ignorar “o perigo que estamos passando” com a pandemia e iniciar “perseguições políticas àqueles que considera inimigos”.

Quando se trata da família de Bolsonaro, argumentou o governador, a PF engaveta inquéritos e vaza informações. Era uma referência às suspeitas levantadas pelo empresário Paulo Marinho de que gente da corporação informou o ex-deputado estadual e hoje senador pelo Rio Flávio Bolsonaro de que as investigações sobre rachadinhas na Assembleia Legislativa do Rio haviam chegado ao seu então assessor e braço direito, Fabrício Queiroz.

“O senador Flávio Bolsonaro, com todas as provas que nós temos contra ele, que já estão aí sendo apresentadas, dinheiro em espécie depositado em conta corrente, lavagem de dinheiro, bens injustificáveis. O senador já deveria estar preso. A PF deveria fazer o seu trabalho com a mesma celeridade que passou a fazer aqui no Rio de Janeiro porque o presidente acredita que eu estou perseguindo a família dele”, esperneou Witzel.

Flávio respondeu. Disse que na campanha o hoje governador ligava o tempo todo para Fabrício Queiroz, “um cara correto, trabalhador, dando o sangue por aquilo que acredita”, para se aproximar dele.

Ambos têm interesse em expor a queimada do vizinho. Só não explicam de onde vem tanta fumaça em seu próprio quintal.

As suspeitas sobre Witzel são graves.

Preso por supostas compras irregulares de respiradores, o ex-subsecretário de Saúde do Rio Gabriell Neves foi quem mencionou o governador nas apurações sobre desvios no hospital de campanha montado pelo governo do estado.

Com a citação, o caso subiu para a Procuradoria Geral da República e, de lá, para o Superior Tribunal de Justiça, de onde veio a ordem para a operação. O ministro que assinou o despacho, Benedito Gonçalves, é cotado para a vaga de Celso de Mello que será aberta no fim do ano no Supremo Tribunal Federal, mas esta é outra história.

Nas apurações, as autoridades descobriram que o escritório de advocacia da mulher do governador, a recém-formada em direito Helena Witzel, recebia R$ 15 mil por mês por serviços prestados à DPAD Serviços Diagnósticos, ligada, segundo o MPF, ao empresário Mário Peixoto, preso há duas semanas na Operação Favorito. Parte da Lava Jato, a ação quem mirou o empresário apura desvios em contratos na área da Saúde envolvendo organizações sociais.

Peixoto é investigado desde os tempos da gestão MDB do estado, que tinha Sergio Cabral e Luiz Fernando Pezão como estrelas principais.

O empresário é suspeito de pagar propina a conselheiros do Tribunal de Contas do Estado e, segundo noticiou a Folha de S.Paulo, se aproximou de Witzel durante a campanha. A ele é atribuída a nomeação de aliados no Detran, na Loterj, no Inea e no Cedae -- empresa que em meados de fevereiro entregava às casas fluminenses água com odor de terra por excesso de geosmina.

Ah, sim: no meio de tudo isso, o governador eleito prometendo atirar na cabecinha de marginais e jurava ser implacável contra a corrupção se viu obrigado a exonerar, no último dia 17, seu secretário da Saúde, Edmar Santos, por conta dos atrasos e problemas de entregas dos hospitais de campanha. O pano de fundo eram as denúncias de fraude nas licitações.

Era brecha demais para um adversário que admite ter informantes na polícia não aproveitar. Principalmente se o informado já tomava medidas para se blindar e blindar seus familiares, como indica seu ex-ministro da Justiça em entrevistas e depoimento à polícia.

A operação deflagrada na esteira do inquérito das fake news mostra que Bolsonaro não virou o jogo tanto assim.

Mas se tem um campo em que as fake news não competem é com a capacidade de agentes públicos, em aliança com empresários próximos, criarem fatos, contratos e suspeitas contra si. O dedo que aponta para Witzel pode estar sujo também, mas aparentemente não tem medo de errar ao acusar a sujeira.

Um mês e cinco dias após a reunião com seus ministros, Bolsonaro já não tem ministro desalinhado para chamar de seu. Vê a máscara de um adversário cair e ser moída em público. As estratégias de combate à pandemia dos opositores ser desmoralizada pela suspeita de compras irregulares. E, de presente, ganhou a notícia de que os veículos críticos à sua gestão não farão mais perguntas incômodas em frente do Planalto.

É quase tudo o que sempre sonhou.

Resta saber se a PF que agora apura possíveis crimes cometidos por seus apoiadores também merece parabéns.

Detalhe: enquanto Witzel e os Bolsonaro trocavam sopapos, o Rio de Janeiro chegava a 4.105 mortos na pandemia só nas contas oficiais.

No Brasil, são 24,6 mil e um cansaço cada vez mais latente de uma quarentena mal feita e sistematicamente boicotada pelo presidente. E que, por essas e outras, não tem hora para acabar. Como diz o líder supremo, e daí?