PF x Ciro: ação liga alerta anti-Lava Jato e teorias da conspiração

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Former presidential candidate Ciro Gomes speaks as people attend a protest to demand the impeachment of Brazil's President Jair Bolsonaro and against his handling of the coronavirus disease (COVID-19) pandemic, at Paulista Avenue in Sao Paulo, Brazil, September 12, 2021. REUTERS/Amanda Perobelli
O pré-candidato a presidente pelo PDT Ciro Gomes, alvo de ação da PF, durante manifestação em setembro na avenida Paulista. Amanda Perobelli/Reuters

A investida da Polícia Federal sobre os irmãos Ciro e Cid Gomes, em uma ação deflagrada na quarta-feira 15 para investigar supostos desvios nas obras do estádio Castelão, em Fortaleza (CE), deixou parte do mundo político em alerta sobre o possível protagonismo da corporação nos rumos eleitorais, como aconteceu em 2014 e 2018.

Esse protagonismo não precisa ser necessariamente o que move as operações em si, mas as leituras que se fazem delas. Nas últimas disputas, os fatos policiais foram expostos e usados como fatos políticos por adversários interessados em tirar os rivais da pista. Tudo potencializado por ações espetaculosas que geravam imagens de impacto e divulgação das suspeitas com as tintas das condenações prévias.

O mecanismo de defesa foi acionado por conta do déjà-vu inevitável de quem acompanhou a operação de quarta-feira, considerada lava-jatista até mesmo pela cúpula da PF, segundo apuração da Folha de S.Paulo. Isso porque os agentes optaram por uma diligência ostensiva, e por isso mesmo midiática, antes de tomar medidas básicas. O entendimento é que os agentes foram às ruas com poucos indícios e muito barulho para bancar a suspeita.

Tudo isso deu caldo para que o presidenciável do PDT fosse a público acusar Jair Bolsonaro de transformar o Brasil num “Estado policial que se oculta sob falsa capa de legalidade”. Ciro tem uma coleção de declarações do presidente para usar, agora, em seu favor.

Só na reunião de 22 de abril de 2020 existe uma penca. “Vou interferir e ponto final” é a mais literal delas.

Um levantamento do Jornal Nacional mostrou em dezembro que desde que Paulo Maiurino assumiu o cargo de diretor-geral da PF, 20 delegados foram afastados de postos-chave da corporação, entre eles uma delegada que atuava na Interpol e que cuidou dos trâmites da extradição do blogueiro Allan dos Santos, principal expoente do bolsonarismo nas redes sociais.

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Maiurino foi escolhido a dedo por Bolsonaro em maio, quando já estava em andamento no STF um inquérito para apurar a suposta interferência política do presidente na PF.

A cobiça bolsonarista sobre o comando da corporação ajuda a compreender o descrédito localizado no limite entre a desconfiança e a paranoia de quem observa ações do tipo.

Delegados ouvidos pela coluna Painel, da Folha, dizem que é praticamente zero a chance de ter havido interferência ou mesmo um pedido direto de Bolsonaro na operação. O delegado que determinou a ação tem autonomia para isso.

A fala de Ciro, para eles, é pura teoria da conspiração.

Afinal de contas, lembram os agentes, Bolsonaro também tem sido alvo da corporação. Nesta semana mesmo ele foi intimado a depor no inquérito das fake news e viu um colega de partido, o deputado Josimar Maranhãozinho (PL-MA), ser alvo de uma operação de busca.

A memória recente dos excessos da Lava Jato, que resultaram em uma série de condenações anuladas pelas instâncias superiores após vir a público a tabelinha entre juízes e procuradores, será usada como escudo por Ciro para evitar que o tranco represente a pá de cal em sua campanha à Presidência. “Esta ação tão tardia e despropositada tem o objetivo claro de tentar criar danos à minha pré-candidatura”, afirmou.

O argumento esbarra numa pequena mureta chamada realidade. Pelos números das pesquisas mais recentes, Ciro está longe de representar uma ameaça aos planos de Bolsonaro para a reeleição. Pelo contrário: se os 5% apontados pela última pesquisa Ipec migrarem para o ex-presidente Lula, o candidato mais próximo do pedetista no campo progressista, a eleição acaba no primeiro turno.

Ainda assim, a leitura dos principais adversários do presidente é que a ação pode ser a antessala de novas operações policiais que podem ou não mudar os rumos da campanha. Por essa leitura, o pré-candidato do PT teria também razões para se preocupar. Ele pode ser o próximo alvo, apesar da série de anulações obtidas na Justiça nos dois últimos anos pelo petista.

Na dúvida, Lula correu para as redes para demonstrar solidariedade ao seu ex-ministro da Integração Nacional, com quem vive entre (muitos) tapas e (poucos) beijos.

"Quero prestar minha solidariedade ao senador Cid Gomes e ao pré-candidato a presidente Ciro Gomes, que tiveram suas casas invadidas sem necessidade, sem serem intimados para depor e sem levar em conta a trajetória de vida idônea dos dois. Eles merecem ser respeitados", escreveu o petista, no Twitter.

Dilma Rousseff, atacada por Ciro recentemente, também saiu em defesa do pedetista, que agradeceu.

A PF apura suspeitas de pagamento de propinas a servidores públicos e agentes políticos do governo cearense durante a gestão Cid Gomes. A acusação de delatores é que a construtora Galvão Engenharia tenha sido beneficiada no processo licitatório para reformar o estádio, uma das sedes da Copa de 2014. As reformas, ocorridas há quase dez anos, custaram R$ 518 milhões e tiveram aporte do BNDES.

A PF acusa a família Gomes de receber propinas disfarçadas de doações eleitorais.

Ao autorizar a ação, o juiz Danilo Dias Vasconcelos de Almeida, da 32ª Vara Federal do Ceará, quebrou o sigilo telefônico, bancário, fiscal e telemático dos irmãos Gomes e outros investigados.

Em entrevista realizada na Assembleia Legislativa do Ceará, o senador Cid Gomes seguiu o irmão e também atribuiu a ação, chamada por ele de “molecagem”, a Bolsonaro, o “moleque maior”. Ele prometeu recorrer para ter de volta seu aparelho de telefone e seu iPad.

2022 nem começou.

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