Ação da PF puxa novelo do casamento cheio de suspeitas entre Bolsonaro com centrão

Dinheiro apreendido pela PF na casa de suspeito de participar de fraudes em contratos da empreiteira Codevasf (Construservice com a Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco). (Foto: Divulgação/PF)
Dinheiro apreendido pela PF na casa de suspeito de participar de fraudes em contratos da empreiteira Codevasf (Construservice com a Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco). (Foto: Divulgação/PF)

A Construservice é um caso de sucesso dos anos Bolsonaro.

A empresa com sede em Imperatriz, no Maranhão, jamais havia firmado contrato com o governo federal até 2019, ano em que o atual presidente assumiu.

Desde então, a empreiteira pegou carona na rabeira de um foguete e se tornou a segunda empresa com mais ordens de serviço bancadas pela Codevasf, a companhia de desenvolvimento dos vales do São Francisco e do Parnaíba.

Entregue ao comando do centrão, a estatal ampliou seu escopo no atual governo. Deixou de ser responsável por projetos de revitalização nas regiões banhadas pelos rios que leva em seu nome para se tornar uma empresa de pavimentação e entrega de máquinas em áreas diversas, inclusive nas cidades. Um case também de polivalência.

Dias atrás, a Controladoria-Geral da União havia apontado falta de estudo, planejamento e razão para aquisição e distribuição de tratores e caminhões de lixo pela companhia –alguns adquiridos com suspeita de sobrepreço.

Na contramão dos cortes de orçamento em setores-chave promovidos pelo governo desde 2019, como as bolsas de pesquisa e de apoio aos estudantes das universidades federais, a Codevasf só ganhou musculatura nos últimos anos.

De acordo com a Folha de S.Paulo, o valor reservado para pagamentos pela estatal saltou de R$ 1,3 bilhão para R$ 3,4 bilhões entre 2018 e 2021. Mais da metade do valor (R$ 2,1 bilhões) era mobilizada via orçamento secreto.

Uma curiosidade é que, dos valores repassados pelos parlamentares, a Codevasf costuma morder 4,5% para uma chamada “taxa de administração”

Só a Construservice era responsável pela realização de obras de pavimentação em seis estados em contratos que movimentam milhões de reais.

Nesta quarta-feira (20/7), a Polícia Federal cumpriu 16 mandados de busca e apreensão no Maranhão para uma investigação sobre supostas fraudes na estatal. Um dos alvos era a Construservice, suspeita de usar laranjas para vencer licitações.

Eduardo José Barros Costa, suposto sócio da empreiteira conhecido como Eduardo Imperador, foi preso na ação. Em dezembro de 2020, ele participou de uma reunião com o presidente da Codevasf, Marcelo Moreira, como representante da Construservice.

A PF informou ter apreendido, durante a operação, R$ 1,3 milhão em espécie em uma mesma residência, além de objetos de luxo, como relógios importados.

A ação tem o potencial de colocar em xeque (ou mesmo lançar uma lupa sobre) o casamento sincero, desinteressado e temperado pelo orçamento secreto entre o governo Bolsonaro e o centrão.

No relatório da CGU, por exemplo, obras de calçamento com paralelepípedos sob suspeita foram realizadas em cidades como Barra de São Miguel, interior de Alagoas. Deve ser só coincidência o fato de a cidade ser administrada por Benedito Lira, pai do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL).

A imagem do dinheiro apreendido na ação da PF é mais um golpe no discurso do atual presidente de que acabou com a corrupção em seu governo.

Pelo contrário: dá munição a opositores dizerem que nunca houve tanta farra com dinheiro público como agora.

Quem leu com um pouco de atenção a reportagem deste mês da revista "piauí" sobre a farra com recursos do SUS enviados por parlamentares a municípios maranhenses —que claramente estão fraudando números relativos aos atendimentos no sistema público para obter mais dinheiro— tem razão em desconfiar que tem muito mais fio a ser puxado nesse novelo. Espera-se que algum delegado da PF tenha ao menos passado os olhos pela apuração. Todo os caminhos levam a Brasília.

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