Covid-19: Polícia investiga morte de paciente tratada com nebulização de cloroquina em Manaus

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Foto: Dirceu Portugal/Fotoarena/Sipa USA via AP Images
Foto: Dirceu Portugal/Fotoarena/Sipa USA via AP Images
  • Secretaria de Saúde determinou afastamento da médica responsável pelo tratamento

  • Profissional sequer informou o marido da vítima internada sobre o tratamento experimental

  • Estado ressalta que a nebulização de cloroquina não está entre os protocolos autorizados para o combate à Covid-19

A Policia Civil e o Ministério Público do Amazonas investigam a morte de uma paciente com Covid-19, ocorrida em Manaus, que recebeu tratamento com nebulização de hidroxicloroquina, procedimento que não tem eficácia comprovada contra a doença. A informações é do G1.

O caso veio à tona após divulgação da Folha de S. Paulo, que revelou que uma médica ministrava, sem qualquer respaldo legal, o procedimento a pacientes da maternidade do Instituto da Mulher Dona Lindu (IMDL). 

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Ao G1, a Secretaria de Estado de Saúde (SES-AM) determinou abertura de uma sindicância e afastamento da médica que realizou o tratamento. Segundo o órgão, a nebulização de cloroquina não faz parte dos protocolos da rede estadual de saúde no combate à pandemia do novo coronavírus

A profissional de saúde ainda registrou o momento em que uma das pacientes é submetida ao tratamento. A delegada Deborah Souza, titular do 15º Distrito Integrado de Polícia (DIP) afirma, segundo o G1, ter recebido a denúncia do Comitê de Violência Obstétrica do Amazonas e da ONG Humaniza.

Segundo o denunciado pela ONG, ao menos três mulheres grávidas teriam morrido após receber o tratamento experimental. 

"Nós estamos investigando as circunstâncias em que aconteceu a morte dela, abrimos inquérito policial e, após a conclusão do inquérito, nós levaremos o caso à Justiça para tomar as providências cabíveis", afirma a delegada. 

Segundo a agente, médicos envolvidos no caso serão intimados a prestar esclarecimentos sobre a situação. 

"Dependendo de como as circunstâncias se desenvolverem, e se for constatado uma negligência, uma imprudência, uma imperícia, esses médicos podem ser enquadrados no crime de homicídio culposo", afirmou.

Quem é a médica responsável pelo tratamento

Responsável pela nebulização da hidroxicloroquina  é a ginecologista e obstetra paulistana Michelle Chechter. Ela atuou na capital amazonense com o marido, o também médico Gustavo Maximiliano Dutra (que aparece de azul na foto) - Foto: Reprodução
Responsável pela nebulização da hidroxicloroquina é a ginecologista e obstetra paulistana Michelle Chechter. Ela atuou na capital amazonense com o marido, o também médico Gustavo Maximiliano Dutra (que aparece de azul na foto) - Foto: Reprodução

A ginecologista e obstetra paulistana Michelle Chechter foi a responsável pela nebulização da hidroxicloroquina. Ela atuou na capital amazonense com o marido, o também médico Gustavo Maximiliano Dutra. A paulistana foi a autora das imagens da sessão da paciente recebendo o tratamento.

O viúvo garante não ter sido avisado, durante as conversas no hospital com a doutora Chechter, sobre a nebulização ou o vídeo.

Ele só descobriu que a esposa havia assinado uma autorização ao ser informado pela Folha, em 8 de abril. São três parágrafos curtos com quatro erros gramaticais e de grafia. No documento, a paciente dá aval ao tratamento e autoriza o uso do depoimento gravado na UTI, além do relato do casa em uma revista científica.

A doutora foi procurada pelo jornal no Centro Médico Mazzei, em São Paulo, onde trabalha. A resposta veio por meio de uma mensagem de uma funcionária que afirmou: "Dra Michelle disse para deixar assim mesmo porque no momento ela está sem tempo”.

"Protocolo" ucraniano

Médica paulistana exaltava remédios sem comprovação nas redes sociais -  Foto: Reprodução
Médica paulistana exaltava remédios sem comprovação nas redes sociais - Foto: Reprodução

O “protocolo” adotado em Manaus foi criado pelo médico ucraniano-americano Vladimir Zelenko. Ele ganhou fama após o ex-presidente dos EUA, Donald Trump, tentar emplacar o uso da cloroquina como fármaco eficiente contra a Covid-19.

Em abril de 2020, o ucraniano se tornou alvo de uma investigação por suspeita de ter mentido ao afirmar que seu estudo havia recebido o respaldo da FDA, a agência norte-americana que regula medicamentos.

A aplicação da nebulização, que consiste na inalação de comprimidos de cloroquina triturados e diluídos, a médica paulistana ignorou todas as boas práticas, de acordo com o infectologista Francisco Ivanildo de Oliveira, gerente médico do Sabará Hospital Infantil, ouvido pela Folha de S. Paulo.

Uma das principais irregularidades é a ausência de aprovação prévia por um comitê de ética em pesquisa, algo que a lei exige no Brasil. Outra falha grave é que a paciente não foi informada dos riscos no momento de assinar o consentimento, conforme prega as normas nacionais do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

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