Policiais civis adotam animais vítimas de violência ao formarem grupo de voluntários

Carolina Callegari
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O pitbull Zeus foi um dos cachorros adotados por policial civil após aparecer na Cidpol

RIO — Os portões abertos da Cidade da Polícia Civil (Cidpol), no Jacarezinho, deixam o caminho livre para cachorros e gatos abandonados encontrarem um novo lar. Os animais chegam precisando de assistência, em geral, com quadro de má nutrição e com vermes e, às vezes, com ferimentos. Os visitantes inesperados costumam estar assustados. Na maioria, são dóceis. Todo cuidado é dado pelos policiais civis que formaram uma força-tarefa voluntária para fazer resgates. Não falta carinho.

O grupo, com cerca de 40 integrantes, presta os primeiros cuidados, recolhe doações e encaminha os casos mais graves até para clínicas particulares. Nenhum animal volta para a rua. Todos são adotados por policiais ou por amigos e parentes.

A iniciativa começou há cerca de quatro anos. No grupo de WhatsApp intitulado "Amigos dos bichos", os policiais trocam informações de animais que chegaram à Cidade da Polícia ou de resgates feitos, por exemplo, durante o deslocamento em serviço por outros bairros.

Com formação em veterinária, a policial civil Débora Marques recebe imagens para direcionar os primeiros cuidados. Os casos mais comuns são desnutrição, vermes e carrapatos. Os mais complexos exigem atendimento de emergência, a exemplo de Florzinha, uma vira-lata com um ferimento extenso na barriga. Ela precisou ser operada.

— Ela chegou com um ferimento muito grave, que atingiu a musculatura e era muito grande. Após ser internada, está se recuperando num lar temporário. Não sabemos como ela se machucou, e é possível que tenha sofrido maus-tratos. Como o animal entra ali sozinho, nem sabemos de onde veio — diz a policial. — Numa cirurgia posterior, ela vai ser castrada, vacinada e então vai para um lar definitivo. Nós custeamos os gastos durante esse tempo.

Os voluntários contribuem com a quantia que puderem. Procedimentos como castração podem ser feitos gratuitamente em espaços da prefeitura. Porém, casos de emergência e internação são tratados em clínicas particulares. Até o momento, só na Cidpol, foram em torno de 15 resgates. Os cachorros são maioria, predominantemente vira-latas. Mas há alguns de raça, como pitbull e pinscher.

— O legal é que sempre tem um final feliz. O animal é tratado, recebe o atendimento necessário e tem uma adoção responsável — diz Débora. — Em média, leva um mês para melhorarem após o resgate e encontrarmos um lar definitivo.

A maioria das adoções é feita pelos policiais. Nem mesmo Débora ficou de fora da lista e levou um cãezinho para casa. A paixão por Fiona foi à primeira vista, apesar dos empecilhos iniciais colocados pelo marido, lembra:

— Fiona foi resgatada por uma policial em Campo Grande, que mandou a foto dela no grupo. Quando vi, lembrei de uma vira-latinha que tive. Foi amor à primeira vista. Adotei mesmo morando em apartamento. Fazendo um passeio regular, mantendo as vacinas em dia e oferecendo uma boa alimentação, posso dar uma vida melhor do que eles tinham na rua.

Um caso raro foi o do Antigão, o único a viver na Cidpol mesmo após o resgate. Isto porque era considerado "rabugento", e não aceitava a convivência com outros animais, apesar das tentativas em lares temporários. Nem mesmo as condições médicas complicadas fizeram os voluntários desistirem. Como era epilético e tinha hipotireoidismo, demandava uma vaquinha só para arcar com a compra dos remédios. Após sua morte, a contribuição continuou para ajudar os casos mais graves que podem aparecer.

— Ele foi tratado o tempo inteiro, vacinado todos os anos. Agora virou estrelinha. Falamos que tem guiado os casos graves até aqui para ajudarmos, como foi com a Florzinha — brinca Débora.