Policiais do Deic são suspeitos de vender proteção a cassinos clandestinos em SP

ROGÉRIO PAGNAN
·4 minuto de leitura

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um grupo de policiais civis de São Paulo, integrantes de uma delegacia do Deic (Departamento Estadual de Investigações Criminais) cuja função histórica é combater jogos de azar, é suspeito de vender proteção a donos de cassinos, na capital e Grande São Paulo, entre eles o "cassino do Gabigol", na zona sul da capital paulista. Além da contribuição para manter o funcionamento de casas de jogos, pesam sobre os policiais as suspeitas de trabalharem para criar um monopólio nesse setor ao atacarem, com uma série de operações, endereços ligados aos concorrentes desses empresários. Essas e outras linhas de investigação formam a base de um inquérito policial instaurado pela Corregedoria da Polícia Civil e, segundo o jornal Folha de S.Paulo apurou, também levaram ao afastamento de policiais ligados a essa delegacia do Deic (2ª delegacia de investigações gerais) no início deste ano. De acordo com documentos obtidos pela reportagem, que estão em poder da Polícia Civil e do Ministério Público desde o final do ano passado, esses policiais recebiam uma quantia superior a R$ 1,5 milhão mensais pelos supostos serviços ilegais de proteção. O inquérito também apura o suposto envolvimento do empresário Reynaldo Schulttais Junior, que, segundo as suspeitas, seria o responsável pela indicação dos endereços de concorrentes para serem "derrubados" e, por outro lado, pela arrecadação e entrega da propina aos policiais. Conforme reportagem publicada pelo jornal Folha de S.Paulo, parte dos policiais que participaram da ação no cassino onde estava o jogador do Flamengo Gabigol pensava que acabariam naquela noite em uma aglomeração de uma festa LGBT, mas se depararam com um cassino clandestino cheio. Ainda conforme esses policiais, os funcionários da casa tentaram intimidar os responsáveis pela força-tarefa mencionando nomes de autoridades que seriam ligadas à casa, entre políticos e policiais, com o objetivo de evitar o fechamento do local. Policiais afirmam ver com ressalvas as suspeitas investigadas e trabalham com cautela porque parte delas foi encaminhada por pessoas ligadas aos empresários que se dizem vítimas de perseguição, e, por isso, têm interesses em prejudicar os policiais. O temor é serem usados em uma guerra interna no setor dos jogos de azar. Mas é fato que nas acusações existentes no inquérito, recebidas em outubro de 2020, estão 16 endereços de casas de jogos de azar, na capital e na Grande São Paulo. Entre elas estão os cassinos da rua João Cachoeira e na rua Alvorada, esta última onde estava Gabigol, que foram fechados neste mês durante operação da força-tarefa de combate à Covid-19. A Corregedoria vai investigar se as casas estavam de fato funcionando na época ilegalmente. Relatórios produzidos por policiais civis no final do ano e no início deste ano descartaram irregularidades nesses endereços. Alguns estavam funcionando, inclusive, com liminares concedidas pela Justiça. A investigação da Corregedoria será, assim, importante para entender desde quando as casas funcionam naqueles moldes e se até os relatórios produzidos são verdadeiros. Atualmente todas as 16 estão fechadas, segundo a polícia. Os cassinos fechados neste mês são ligados, segundo a polícia, a Reginaldo Moraes de Campos, 47, que seria, segundo as suspeitas, uma espécie de sócio de Schulttais Junior. Além desses endereços mencionados, o relato levado ao inquérito policial aponta a existência de outras casas ligadas a esse grupo, algo perto de 300 endereços na capital e Grande São Paulo. De acordo com integrantes da cúpula da segurança pública, dois policiais civis foram citados como pertencentes ao esquema, mas o número pode ser maior. A investigação pode ser estendida a policiais de bairros onde as casas funcionavam. Outro lado Procurado, Schulttais Junior disse desconhecer a existência de cassinos na capital e estranha o fato de o nome dele ter sido envolvido em suspeitas desse tipo porque não tem nenhuma ligação com jogos de azar. O empresário também disse não conhecer os policiais citados no inquérito, em especial um investigador de nome Kleber -que seria o elo entre empresários e policiais do Deic. Sobre Reginaldo Moraes de Campos, o empresário disse conhecer "muitos Reginaldos" e que pode até conhecê-lo, mas não há nenhuma ligação com jogos de azar. A reportagem tentou contato com Campos até a publicação desta reportagem, sem sucesso.