Policiais e militares dos EUA enfrentam um inimigo interno

Bob Chiarito
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Eles prometeram servir e proteger, mas uma semana após extremistas invadirem o Capitólio, a polícia e os militares dos Estados Unidos apuram relatos que indicam que membros de suas instituições estiveram envolvidos nos incidentes.

Da veterana Ashli Babbitt, que foi morta a tiros enquanto tentava entrar a força na Câmara dos Representantes, a reservistas aposentados da Força Aérea, oficiais do Exército e policiais de Seattle a Nova York, relatos indicam que policiais fora de serviço e ex-militares participaram dos distúrbios.

Esses relatórios lançam luz sobre uma ameaça alertada há tempos por vários especialistas: a presença do extremismo e da supremacia branca entre as forças de segurança.

"Negligenciamos essa ameaça por dez anos. Nós a ignoramos, a minimizamos, optamos por não vê-la. Este governo realmente mimou essas pessoas, chamou-as de especiais", disse Daryl Johnson, ex-líder de uma equipe interna de contraterrorismo no Departamento de Segurança e analista de inteligência entre 2004 e 2010.

Christian Picciolini, um ex-supremacista branco que agora trabalha para reduzir o radicalismo dos extremistas no Projeto Radicais Livres, afirmou não estar surpreso com o fato de alguns policiais e militares aposentados fazerem parte da multidão que buscou reverter o resultado das eleições em 6 de janeiro.

"Os supremacistas há muito lutam para recrutar e se infiltrar na polícia, nas forças armadas e socorristas", disse ele.

As suspeitas se estendem à própria Polícia do Capitólio, a agência que cuida da segurança do prédio. Vários policiais foram suspensos e cerca de uma dúzia estão sendo investigados após relatos de que eles tiraram "selfies" com os invasores e que aparecem em vídeos abrindo espaço para eles.

O FBI publicou um relatório de 2006 sobre grupos de supremacia branca infiltrados entre policiais e, em 2009, o Departamento de Segurança Interna emitiu um alerta - escrito por Johnson - sobre infiltrados entre os militares.

Ambos os casos foram recebidos com 'vistas grossas'.

“Em 2006, não fazia muito tempo desde 11 de setembro de 2001 e ninguém queria se concentrar no terrorismo interno”, explicou Vida Johnson, professora associada de Direito da Universidade de Georgetown.

Sobre o alerta de 2009, "o novo governo de Barack Obama não tinha capital político para lidar com isso, principalmente com um presidente negro", apontou.

"Então, aqui estamos, onze anos depois, sem ter feito nada."

- Assunto de homens brancos -

O problema já existia muito antes de Donald Trump anunciar sua campanha presidencial em 2015.

Mas, dizem os especialistas, há uma conexão entre sua retórica e o ataque ao Capitólio.

"Ele é diretamente responsável por isso. Ele convidou todos para o Capitólio... e a campanha 'Pare o Roubo' (para reverter o resultado da eleição presidencial de novembro) foi uma campanha de desinformação intencional destinada a provocar as pessoas", disse Lecia Brooks, do Southern Poverty Legal Center, que monitora as atividades de grupos extremistas.

O principal apoio de Trump está entre os homens brancos, observou Vida Johnson, o mesmo grupo demográfico que domina a polícia, o que significa que "não é uma surpresa" que os dois coincidam.

Quando confrontados com esse problema no passado, alguns departamentos de polícia apelaram para o mesmo argumento de Trump: liberdade de expressão.

Daryl Johnson lembrou de ter contatado um departamento de polícia em 2017 depois que sua investigação revelou que mais de 100 agentes se identificaram nas redes sociais como Oath Keepers, um grupo de extrema direita antigovernamental conhecido por recrutar militares e policiais.

Eles responderam que essas publicações se enquadravam na Primeira Emenda (sobre a liberdade de expressão), mas o agente antiterrorismo advertiu que sua lealdade aos Oath Keepers poderia vir acima da polícia. Outros especialistas também rejeitaram o argumento.

“Se você aceita esse trabalho para proteger os cidadãos, mesmo que seja um apoiador de Trump, seu trabalho é proteger todos os cidadãos”, declarou Heather Taylor, ex-detetive em St. Louis e porta-voz do grupo Police Ethics Society.

- Oportunidade de radicalização -

Com o tema finalmente em destaque, os especialistas pediram novos esforços para solucioná-lo.

Taylor culpou os sindicatos de policiais, que alguns acreditam proteger os maus agentes.

Eles continuam a "dividir-se entre a polícia e a comunidade", disse ela, pedindo aos departamentos a uma política de tolerância zero para postagens racistas nas redes sociais e que os policiais acusados sejam afastados sem remuneração enquanto aguardam a investigação.

Vida Johnson também apontou para os sindicatos, que ela crê estarem ocultando informações sobre questões disciplinares, e pediu uma melhor verificação dos antecedentes dos policiais.

Daryl Johnson teme que o ataque ao Capitólio seja apenas o começo de um período obscuro.

"O que aconteceu no Capitólio é uma oportunidade de radicalização e recrutamento para esses grupos", advertiu ele.

"Eles pensam que fizeram algo justo e bom. Eles pensam que são patriotas."

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