Policiais militares vão para a linha de frente do combate ao coronavírus

Marcos Nunes, Pedro Zuazo e Letícia Lopes
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Policiais fazem bloqueio nas estações de trem da Baixada Fluminense

Colete balístico, máscara e um frasco de álcool gel. Diante do avanço de um inimigo invisível, os agente de segurança adotaram novas armas e assumiram a linha de frente na prevenção ao novo coronavírus. Acostumados a arriscar as próprias vidas para proteger a população contra criminosos, policiais militares agora atuam também em barreiras de fiscalização nas ruas, nas praias ou nos transportes públicos, ajudando e orientando a população.

Nesta segunda-feira, em uma estação de trem da Zona Norte, pouco depois das 3h já era possível encontrar policiais militares no local. Um deles atendia com um sorriso no rosto a quem pedia informações.

— Preferi ficar menos tempo com minha família e dormir no quartel para não ter que cruzar as ruas da cidade durante à madrugada. Se todo mundo fizer sua parte a coisa vai sim melhorar — disse.
Além de usar equipamentos de proteção individual os agentes foram instruídos sobre medidas sanitárias nas viaturas: eles fazem a higienização do volante e do câmbio de marcha após cada operação.

— Sempre estamos ao lado da sociedade nos momentos difíceis e não é nesse que vamos abandonar. Somos seres humanos, pais de família, mas vamos continuar  arriscando a própria vida em defesa da sociedade — diz o porta-voz da PM, coronel Mauro Fliess.

Comandante do 12º BPM (Niterói), o coronel Sylvio Guerra acordou de madrugada para acompanhar a barreira fiscal do acesso às barcas. Para ele, a resposta da corporação ao coronavírus é uma demonstração da importância do treinamento da tropa.

— O policial militar é treinado para situações adversas. É em momentos como esse que o policial coloca em prática o que recebe nas formações — diz o coronel.

 

Máscara, luvas e óculos escuros

Usando máscara, luvas e até óculos escuros — numa tentativa de se proteger ao máximo de uma possível contaminação — o PM Y. assumiu o trabalho de bloqueio de acesso às barcas, em Niterói, ao lado de outros 24 colegas ainda durante a madrugada de segunda-feira. Passou a manhã abordando trabalhadores e trabalhadoras que tentavam acessar o transporte, munidos de crachás ou carteiras de trabalho para comprovar que pertenciam às categorias de atividades essenciais com trânsito permitido. Alguns foram barrados, como uma babá que, protegendo boca e nariz com uma toalha de mão, apresentava sintomas do novo coronavírus.

— Foge totalmente do tipo de estresse que estamos acostumados. Lidamos com risco de vida, mas são condições totalmente diferentes. Temos que aprender a lidar com esse tipo de situação. É realmente uma experiência nova para todo mundo —  avaliou o policial.

A insegurança do trabalho fez o agente decidir levar o filho e a esposa para a Região Serrana. Já são quase 20 dias longe da família, e a saída para apartar a saudade tem sido as videochamadas pelo celular. 

—  Ainda não sabemos as proporções que isso pode tomar. Não quero colocar meu filho e minha esposa em risco em hipótese alguma. Prefiro sacrificar o meu sentimento, ficar com muita saudade, mas preservar a saúde deles dois. Nos falamos várias vezes ao dia. Quero que quando ele crescer saiba de tudo que passamos e que eu contribuí com meu trabalho — diz o policial.

Enquanto a família se resguarda em outra cidade, o policial reforça os cuidados. No carro, frascos de álcool estão a mão para que volante, bancos e painel, por exemplo, sejam constantemente higienizados. A atenção redobrada é proporcional ao temor de contrair a doença.

— Tenho consciência do meu grau de exposição. Não quero levar esse vírus para casa. Além dos cuidados no trabalho, usando luva, máscara e até óculos, coloco minha farda numa sacola plástica quando for embora e assim que chegar em casa vai direto para máquina de lavar, na temperatura mais alta possível — conta o PM, que diz ainda se preocupar com a chegada do COVID-19 nas favelas, por conta da falta de estrutura de saneamento básico e acesso a água:

—  Vejo muita gente falando que é só uma gripe. Mas um vírus desse chegando na Rocinha, no Alemão, no Parque União... a gente pensa nas dimensões que isso pode tomar.

 

As corporações se unem contra a pandemia

Desde esta segunda-feira, a Polícia Militar atua em 27 pontos do cinturão de isolamento sanitário determinado pelo governo do estado. Não é a única corporação a destacar agentes para, heroicamente, se arriscarem em um momento de pandemia. Assim como a PM, os agentes da Polícia Civil tiveram as férias suspensas nesse período. Os bombeiros circulam pelas praias e outros pontos da cidade orientando a população a se resguardar. E a Defesa Civil passou a usar as sirenes instaladas em comunidades para alertar sobre os riscos da pandemia.

Para colaborar com a redução de circulação de pessoas, a PF restringiu o atendimento para solicitação de passaportes. A corporação avalia adiar por 15 dias, ações operacionais que envolvam movimentação e agrupamento de efetivos.A PF é responsável pelo controle de migração nos aeroportos; desde esta segunda-feira, portaria do governo federal restringe a permanência no país por 30 dias de estrangeiros.

No caso das Forças Armadas, foram ativados dez Comandos Conjuntos, com atuação nas cinco regiões do Brasil, para o combate ao  coronvírus. Cada comando reúne representantes das três Forças. As Forças Armadas também já estudam a montagem de hospitais de campanha para aumentar a oferta de leitos para os infectados.