Policial civil mostrou documento do pai morto ao ser flagrado bêbado, segundo PM

Ponte Jornalismo
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Sede do Denarc, na cidade de São Paulo
Sede do Denarc, na cidade de São Paulo

Ao ser parado em uma blitz da Polícia Militar, o policial civil Afonso Ariovaldo Beviani Junior, que estaria dirigindo bêbado, tentou apresentar documento de seu pai morto e se livrar da batida. O problema é que a CNH (Carteira Nacional de Habilitação) estava vencida há 10 anos.

A cena se passou no início da madrugada deste domingo (13/9), na Ponte das Bandeiras, próximo ao Terminal Rodoviário do Tietê, na zona norte da cidade de São Paulo. Na delegacia, outros agentes da Civil tentaram defendê-lo e ameaçaram “se vingar” dos PMs pelo flagrante.

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Afonso dirigia um carro Hyundai HB20, branco, quando foi parado pela equipe da PM. Em seu relatório, os PMs afirmam que identificaram no motorista “sinais notórios” de embriaguez, “como fala pastosa, desequilíbrio, olhos vermelhos”.

Na abordagem, Beviani disse aos policiais que era integrante do Denarc (Divisão Estadual de Narcóticos), da Polícia Civil, e que voltava de um churrasco em uma delegacia. Falou que chamaria outros policiais.

Em seguida, o também policial civil Renato do Nascimento Prado parou com seu carro Chevrolet Cobalt e tentou falar com os PMs. Assim como o primeiro agente, Renato também apresentava os mesmos sinais de bebedeira.

Nenhum dos dois policiais abordados apresentou a funcional da corporação quando pedido pelo cabo e soldados que estavam na abordagem. Precisou a chegada de superiores para os agentes repensarem.

Já era 1h10 da madrugada. Depois de negar diversas vezes, Afonso apresentou aos PMs uma CNH vencida em 2010 com o nome completo, mas sem o “Junior”, pois tratava-se de um documento de seu pai, que já e falecido, e não a sua habilitação. Só depois deu o documento verdadeiro. Renato não entregou seus documentos aos PMs.

Assim, os PMs levaram a dupla para o 13º DP (Casa Verde), para onde se dirigiram 20 veículos com policiais civis – alguns com viaturas oficiais, outros com carros descaracterizados e em veículos particulares.

Segundo os PMs, a tentativa do grupo era a de intimidá-los para não registrar a ocorrência envolvendo os agentes do Denarc Afonso e Renato. “Começaram a fazer diversas ofensas e xingamentos, ameaçando até partir para agressão física”, relataram os PMs da blitz.

Foi quando o delegado Alexandre Inavolli, do 72º DP (Vila Penteado) passou a negociar, tanto para controlar os agentes da Civil, quanto para conversar com os PMs que prenderam os motoristas bêbados.

O delegado Julio Siqueira Gomes, do 13º DP, para onde a ocorrência foi levada, acionou a Corregedoria da Polícia Civil. Antes da chegada do órgão regulador, os policiais civis retiraram pertences de seus veículos.

Gomes determinou realização de exame para constatar ou não álcool no sangue. O resultado chegou às 4h50 deste domingo, quatro horas depois do flagrante apontado pelos PMs.

Afonso e Renato foram autuados por embriaguez ao volante, cuja pena é detenção de seis meses a três anos, pagamento de multa e suspensão/proibição da carteira de habilitação.

O flagrante de embriaguez ao volante de dois agentes da Civil por parte de PMs acontece em momento de conflito das corporações. No início de agosto, a morte de três policiais ao abordarem um falso policial civil abriu uma crise, seguida de abordagens violentas de militares aos agentes.

Em resposta, o governo de João Doria (PSDB) determinou novas regras para PMs revistarem policiais civis, entre elas a obrigação de entrega da funcional das corporações para evitar conflitos.

No domingo, um vídeo com policiais bebendo, tocando violão e cantando surgiu nas redes sociais. Com muita cerveja, a equipe de plantão mostra seu talento cantando a música “Capa de Revista”, da dupla Gilberto e Gilmar.

A Ponte questionou a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, liderada pelo general João Camilo Pires de Campos, sobre a abordagem aos policiais civis embriagados. Segundo a pasta, os dois policiais civis realizaram exame para verificar álcool no sangue e ambos deram negativo. A Corregedoria da Polícia Civil registrou o caso. A reportagem também solicitou à SSP entrevista com os dois policiais, mas não obteve resposta.

A pasta ainda confirmou que o vídeo em que a cantoria de policiais regada a cerveja é alvo de investigação da Corregedoria. “Imagens em que policiais aparecem bebendo cerveja e cantando em uma delegacia, que estão circulando pelas redes sociais, também são analisadas para identificar os policiais e, assim, as medidas cabíveis a serem adotadas”, prossegue a secretaria.