Policial Militar mais antigo do Rio morre aos 104 anos: 'Até nos últimos instantes estava em combate'

Marjoriê Cristine
·3 minuto de leitura

Duas guerras mundiais, gripe espanhola e Covid-19. O carioca João Freire Jucá Sobrinho, de 104 anos, enfrentou muitos momentos históricos no Brasil e no mundo. Policial militar reformado mais antigo do Estado do Rio de Janeiro, combateu a sua última batalha na noite de domingo, dia 18, quando morreu de mal súbito em Petrópolis, na Região Serrana do Rio, em casa e ao lado da família. O tenente-coronel foi velado nesta segunda-feira, dia 19, e enterro no Cemitério de Petrópolis nesta tarde.

O veterano dedicou mais de 40 anos da sua vida à carreira militar. Ele entrou na corporação ainda jovem como ajudante. Logo em seguida fez a prova e se tornou soldado. Jucá chegou a ser instrutor de educação física no Batalhão e o primeiro comandante da polícia motorizada no Rio. O policial reformado deixou cinco filhos, 17 netos e 22 bisnetos, além da sua mulher, Evagelina, de 95 anos. O casal completaria 78 casados no fim de 2020.

— Ele descansou. Passou mal por volta das 18h, mas deu o último suspiro por volta das 22h30. Foi uma morte tranquila, honrada, da forma que ele nos pediu, com seus filhos, netos e bisnetos ao lado dele. Graças a Deus conseguimos lhe proporcionar isso. Ele estava muito sereno. Não tinha medo da morte. Então, essa foi a maior lição que ele nos deus. Até nos últimos instantes, ele estava em combate — diz a neta Patrícia de Figueiredo, de 44 anos, filha de Sonia Maria Jucá, filha do meio do ex-policial.

Há cerca de três semanas, Seu Jucá teve um derrame, chegou a ser hospitalizado na cidade serrana, mas voltou para casa há cerca de dez dias, após receber uma bênção de um padre, se confessar e ter extrema-unção. Nesse período, o policial reformado recebeu a visita e o carinho de todos os filhos, os netos e os bisnetos, que se despediram dele. Foi o que a neta chama de sobrevida.

— Ele estava bem lúcido, aproveitou todos os dias e os momentos finais que ele teve para se despedir. Ele reconhecia cada um de nós. Meu avô sempre foi uma pessoa maravilhosa, um gentleman. Dava carinho e atenção para minha avó, para família, para as cuidadoras. Era uma pessoa ímpar, com uma grande história de vida, que nos inspirava — conta a neta.

Jucá nasceu no Rio de Janeiro e foi criado no bairro de Anchieta, na Zona Norte do Rio. Antes de se aposentar da polícia, aos 59 anos, foi viver com a mulher em Petrópolis, onde passou mais da metade da sua vida.

No seu RG na Polícia uma coincidência: o número é o 1-04 que, se juntar, forma a idade dele. Aliás, o aniversário de 2020, realizado em 10 de abril, foi em plena pandemia do coronavírus, sem aglomeração, mas com a família por perto.

— No aniversário dele, fizemos uma festa, mas só com eles em casa e nós estávamos longe. Ele até recebeu continência de um representante da PM. Meu avô era um super avô. Sempre bem-humorado, cantava muito, gostava de ir à praia, de flores, de cuidar do jardim e de pilotar. Foi o primeiro comandante da polícia motorizada do Rio. Uma parte da tropa até veio fazer uma homenagem para ele. É o nosso maior orgulho e viveu intensamente em vida. Fica a saudade — diz Patrícia.