Policial militar que estuda matemática vê no ensino forma de combater violência

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**Arquivo**SÃO PAULO, SP, 25/10/2021, BRASIL  Movimentação na EMEF Professora Sylvia Martin Pires, na zona sul. (Foto: Rivaldo Gomes/Folhapress)
**Arquivo**SÃO PAULO, SP, 25/10/2021, BRASIL Movimentação na EMEF Professora Sylvia Martin Pires, na zona sul. (Foto: Rivaldo Gomes/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Estudantes e professor próximos da nascente de um rio: pode até não parecer, mas esse é o cenário de uma aula de matemática. É ali que o educador explica conceitos de geometria, como área e raio de uma circunferência.

Mas não só. Ele ainda propõe algumas reflexões aos estudantes sobre preservação ambiental e os efeitos que as ações humanas têm na natureza.

O método de ensino pode parecer estranho à primeira vista. Afinal, aulas de matemática normalmente contêm operações na lousa, cálculos de figuras geométricas e fórmulas difíceis. Para Marcílio Leão, 51, no entanto, não é bem assim.

A situação descrita no início do texto é um exemplo que Leão aborda em sua tese de doutorado sobre como o ensino de matemática pode ter um caráter voltado à disseminação de valores contrários à violência.

"Eu tive a ideia de fazer esse trabalho voltado para uma sociedade melhor. Por meio da educação, em especial da educação matemática, a gente consegue alcançar uma sociedade em que nós não tenhamos tantas dores. Isso virou meu objetivo de vida."

Morador de São José do Rio Pardo, no interior de São Paulo, Leão é policial militar há 22 anos ainda continua na corporação atuando na área ambiental.

Já no que diz a vida acadêmica, ele se formou em matemática na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras em São José do Rio Pardo (SP) e, em 2022 entregou sua teste de doutorado em educação matemática na Unesp (Universidade Estadual Paulista).

Desde o início de sua trajetória acadêmica, ele conta, já tinha convicção de que gostaria de estudar a relação entre violência e matemática. "Eu comecei a me interessar pela questão da violência justamente pelo fato de estar perto dessas dores e dessas dificuldades por ser policial."

No doutorado, Leão pesquisou justamente como o ensino de matemática pode ajudar na construção de um mundo mais justo e pacífico.

Para isso, diz Leão, o educador pode, por exemplo, trabalhar com os alunos gráficos que abordem os índices de violência. Assim, além de explicar conceitos de matemática e estatística, o educador será capaz de discutir esse fenômeno que atinge profundamente o Brasil, com contribuições da turma.

O estudo feito pelo policial envolveu um questionário aplicado em duas escolas públicas no estado de São Paulo e em uma Fundação Casa. As perguntas tentaram entender como os jovens viam a iniciativa de uma educação que tratasse sobre temáticas que envolvessem a violência em meio a aulas de matemática.

"[Uma das perguntas] era se você [o aluno] acha que seria importante o professor de matemática discutir sobre questões de violência em sala de aula. Os jovens das três instituições, na maioria, responderam que o professor deve discutir pelo menos algumas vezes essas questões na sala de aula."

O pesquisador ainda procurou entender o lado do professor e entrevistou dois deles para ouvir o que pensavam do modo de ensinar a disciplina por uma perspectiva mais humana. A atividade de educar também já foi vivida por Leão em algumas situações, como quando se propôs a ministrar aulas para colegas policiais.

A preocupação em desenvolver uma pesquisa que envolva o tema da violência foi motivada, além do trabalho de policial que Leão desempenha, por vivências pessoais recentes. A partir de perdas que enfrentou nos últimos anos, diz Leão, procurou se aprofundar em um assunto que possa colaborar para a construção de uma sociedade melhor.

A primeira dessas dificuldades veio no segundo ano do mestrado, quando seu pai faleceu, depois de ter um infarto fulminante. O policial, ainda em meio ao luto, finalizou a pós-graduação.

Ficou então um período longe da academia e, em 2014, viveu outra tragédia —o suicídio de seu filho que tinha 19 anos.

"Com o falecimento do meu filho, eu infelizmente tive que interromper todo esse percurso [acadêmico]. Foi de magnitude extrema, porque eu o encontrei nos seus últimos momentos de vida", relata.

Leão só voltou à universidade em 2017, no doutorado. E, durante sua pesquisa, passou por uma terceira adversidade: em 2021, Ubiratan D’Ambrosio, seu orientador, também morreu.

Agora o policial militar espera que o seu estudo consiga ter um impacto positivo na construção de currículos de matemática. "Tem inúmeras situações da vida que a gente pode trabalhar em sala de aula o comportamento e o desenvolvimento de consciência dos alunos. Essas questões favorecem a formação de valores", diz. ​

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