Político do PSOL é acusado de homofobia por vereadora lésbica: “Vou te tratar como homem”

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Vereadora de Niterói Verônica Lima registrou boletim de ocorrência contra Paulo Eduardo Gomes, do PSOL (Foto: Reprodução)
Vereadora de Niterói Verônica Lima registrou boletim de ocorrência contra Paulo Eduardo Gomes, do PSOL (Foto: Reprodução)
  • Verônica Lima, vereadora de Niterói, denunciou caso de ofensas e tentativa de agressão por parte de colega do PSOL

  • Segundo Verônica, Paulo Eduardo Gomes teria dito: "Quer ser homem? Então vou te tratar como homem"

  • Vereadora registrou boletim de ocorrência e quer entrar com representação por quebra de decoro contra Paulo Eduardo Gomes

A vereadora de Niterói Verônica Lima (PT) denunciou ter sofrido ofensas homofóbicas por um colega de Câmara: Paulo Eduardo Gomes, do PSOL. Ele ainda teria tentado agredir Verônica, mas foi contido por colegas, segundo relato da vereadora. A denúncia foi registrada formalmente em uma delegacia e, agora, a política deve abrir uma representação contra Gomes por quebra de decoro.

Segundo Verônica, durante uma reunião, Paulo Eduardo Gomes teria dito “quer ser homem? Então vou te tratar como homem”.

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“Foi com essas palavras machistas e lesbofóbicas que o vereador Paulo Eduardo Gomes (PSOL) me atacou verbalmente durante reunião hoje. Gomes avançou em minha direção e teve que ser contido por nossos colegas da Casa Legislativa”, relatou a vereador de Niterói.

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Ela esteve na delegacia e prestou queixa contra Paulo Eduardo Gomes. Verônica ainda pretende abrir uma representação contra o vereador por quebra de decoro parlamentar.

“Infelizmente, o desrespeito direcionado a mim pelo parlamentar não começou agora e está se intensificando cada vez mais”, revelou a vereadora nas redes sociais. “Os ataques e a perseguição de Paulo Eduardo Gomes contra mim são constantes nesta Casa Legislativa. O ocorrido hoje é mais um episódio escancarado de violência política contra mulheres e LGBTQIA+.”

Verônica Lima apontou que atitudes como a do vereador “têm que ser devidamente responsabilizadas” e explica que a exigência não é apenas por ela, mas por todas as mulheres LGBTQIA+. “Tenho orgulho de ser quem sou e exijo respeito”, declarou.

O vereador Paulo Eduardo Gomes publicou uma nota nas redes sociais assumindo o erro. "Nada justifica a forma como tratei a vereadora Verônica Lima no dia de ontem, 07.07.2021. Mesmo eu, com um longo histórico de lutas em defesa dos Direitos Humanos e combate às opressões, estou sujeito a praticar atos machistas e lesbofóbicos. Entretanto, apesar de elevar o tom na discussão, é importante esclarecer que jamais fiz menção de agredir a vereadora fisicamente — sequer consideraria essa hipótese. Este trecho do relato enviado para a imprensa não corresponde à verdade", escreveu. 

O vereador declarou estar comprometido com a luta "antimachista".

Em nota, o Diretório Municipal do PSOL em Niterói se solidarizou com Verônica Lima e disse não concordar com as atitudes do vereador Paulo Eduardo Gomes. Segundo a legenda, o caso será tratado "nas instâncias partidárias".

Leia as notas na íntegra: 

Nota Paulo Eduardo Gomes: 

"Errei. Nada justifica a forma como tratei a vereadora Verônica Lima no dia de ontem, 07.07.2021. Mesmo eu, com um longo histórico de lutas em defesa dos Direitos Humanos e combate às opressões, estou sujeito a praticar atos machistas e lesbofóbicos. Entretanto, apesar de elevar o tom na discussão, é importante esclarecer que jamais fiz menção de agredir a vereadora fisicamente — sequer consideraria essa hipótese. Este trecho do relato enviado para a imprensa não corresponde à verdade.

Sou militante em defesa dos Direitos Humanos e das lutas dos trabalhadores e trabalhadoras há mais de 40 anos. Acredito que toda a minha trajetória de vida e de luta traduz minha preocupação e interlocução com os movimentos em defesa dos direitos das mulheres e da comunidade LGBTQIA+, em especial na cidade de Niterói, onde estou vereador há quase 20 anos.

Sou o autor de diversas leis pioneiras em defesa dos direitos das mulheres e de pessoas LGBT. Ainda em 2006 aprovamos a Lei nº 2.394/2006, que reconhece a união estável de casais do mesmo sexo para fins previdenciários para os servidores do município. Com a Lei nº 2.615/2008 conseguimos aumentar a licença maternidade das servidoras para seis meses, bem como a garantia de aleitamento materno (Lei nº 3.164/2015). Criamos lei que estabelece medidas de prevenção e combate ao assédio sexual de mulheres nos meios de transporte coletivo (Lei nº 3.321/2017). Inserimos no calendário da cidade o Dia da Doula (Lei nº 3.197/2016) e o Dia da Mulher Negra e Latino-americana e Caribenha (Lei nº 3.380/2017). Durante a pandemia aprovamos lei que trata sobre a afixação de cartazes nos condomínios, com informações sobre o atendimento à mulheres em situação de violência durante o período de isolamento social (Lei nº 3.528/2020).

A atividade legislativa em si não é garantia de que um homem se comportará com atenção e respeito às mulheres por toda a vida, mas é um indicativo de que tenho lado nessas lutas e esse lado sempre foi o das mulheres e pessoas LGBT.

Sou um homem branco, hétero e de 70 anos. Obviamente que estas características não podem e não devem me credenciar para nada. Diferente disso, mais do que nunca é importante fazer autocrítica e reconhecer que por vezes acabo reproduzindo as estruturas machistas e patriarcais em que nossa sociedade foi gestada.

Tais características que descrevi acima nunca me furtaram de ser empático às dores que mulheres LGBTs e negras sofrem cotidianamente; mesmo não sabendo o que é ou como é viver na pele o que elas sofrem. Muito pelo contrário: é por entender que as opressões são parte intrínseca de um sistema que tem por razão de existência a exclusão e a superexploração de corpos em favor do lucro. Por isso busco, não só caminhar ao lado destas pessoas, defendendo seus direitos, mas também me colocar a disposição para compreender cada vez mais e melhorar enquanto militante.

Portanto, a luta é também pedagógica. Por isso, além de me arrepender imediatamente e me desculpar com a vereadora tanto na reunião do Colégio de Lideres quanto em Plenário, como fiz, posso também continuar a aprender. Tenho plena confiança de que meu partido, o PSOL, vai me ajudar a refletir coletivamente sobre isso, como minha companheira de bancada, Benny Briolly, já fez ao longo do dia de ontem ao se colocar ao meu lado, mas me criticando de forma firme. É assim que companheiros avançam.

Há anos tenho certeza de que não dá mais pra fazer política sem as mulheres negras, sem as mulheres lésbicas, sem as mulheres trans. Sem as mulheres.

Por isso seguirei com toda a humildade que me cabe nesse momento, fazendo a autocrítica necessária sobre o erro que cometi, afinal, nenhuma divergência política permite a falta de respeito e a reprodução de falas que causem dor às mulheres.

E firmo aqui um novo compromisso antimachista, para me colocar ainda mais a serviço da luta das mulheres. Sempre em defesa dos trabalhadores, das trabalhadoras, por uma sociedade mais justa e fraterna.

Paulo Eduardo Gomes."

Nota do Diretório Municipal de Niterói do PSOL: 

"O Partido Socialismo e Liberdade de Niterói, a partir de seu Diretório Municipal, vem a público se solidarizar com a vereadora Verônica Lima, mulher negra, que foi agredida verbalmente de forma machista e lesbofóbica, pelo vereador Paulo Eduardo Gomes, de nosso partido, em reunião do colégio de líderes da Câmara Municipal de Niterói.

Não podemos concordar com atitudes como esta em nenhuma hipótese. Toda e qualquer ação opressora precisa ser combatida e superada. Nosso país e nossa cidade convivem estruturalmente com essas opressões e acreditamos que é papel de nossa representação nos parlamentos denunciar essas mazelas e propor políticas públicas para superá-las, como historicamente fazemos.

A razão da existência do PSOL é a luta por uma sociedade livre de toda forma opressão e desigualdade, contudo sabemos que não estamos livres de reproduzir em nossa militância e em nossas representações opressões como machismo e LGBTfobia. Entendemos portanto que esta luta precisa ser contínua, mesmo internamente, para que nenhuma mulher sofra constrangimentos ou violências. Por isso também lamentamos e repudiamos a atitude de nosso companheiro, um militante histórico do nosso partido, mas que cometeu esse grave erro. Após o ocorrido o mesmo fez autocrítica, se retratou com a vereadora imediatamente e depois publicamente em Plenário, e se colocou aberto a espaços de formação e aos debates partidários a respeito de sua atitude para superá-las.

Desta forma, nas instâncias partidárias trataremos do caso, tendo as setoriais de mulheres, LGBT+ e de negros e negras como protagonistas das ações com o objetivo de que o companheiro compreenda com profundidade a gravidade de seus atos e os supere por posturas respeitosas com as mulheres e LGBTs."

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