Ativistas temem discriminação com reeleição de agenda 'anti-LGBT' na Polônia

Equipe HuffPost
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Para Jakub Kwiecinski e Dawid Mycek, casal gay polonês, que também são ativistas da causa LGBT no país, a vitória do presidente em exercício Andrzej Duda, noticiada nesta segunda-feira (13) é vista com medo e decepção.

Duda, 48, foi eleito para um segundo mandato de cinco anos. Em sua campanha ele tentou se mostrar como um “guardião” dos programas sociais do governo, mobilizando sua base conservadora e críticas ao movimento LGBT.

Nas últimas semanas de campanha, ele afirmou disse que a “ideologia LGBT” era mais perigosa do que a doutrina comunista e prometeu garantir que as escolas públicas sejam proibidas de discutir os direitos destas pessoas.

Para muitos conservadores religiosos no país, que é predominantemente católico, o prefeito de Varsóvia, rival de Duda, Rafal Trzaskowski, passou a representar as ameaças que os valores tradicionais enfrentam quando ele prometeu introduzir a educação sobre os direitos LGBT nas escolas.

Manifestantes participam de protesto contra a discriminação da comunidade LGBT dois dias antes do segundo turno das eleições em Cracóvia, na Polônia. (Photo: Omar Marques via Getty Images)
Manifestantes participam de protesto contra a discriminação da comunidade LGBT dois dias antes do segundo turno das eleições em Cracóvia, na Polônia. (Photo: Omar Marques via Getty Images)

Resultados finais do segundo turno das mostraram Duda com mais de 51% de votos, apresentando uma vitória considerável frente ao prefeito liberal de Varsóvia Rafal Trzaskowski, que conquistou cerca de 49% dos votos.

Neste contexto, muitos membros da comunidade LGBT temem discriminação sob a presidência de Duda. “Nos sentimos impotentes”, disse Dawid Mycek, 35 anos, ativista LGBT e Youtuber. “Esta é a primeira campanha presidencial que eu conheço, que foi baseada no ódio, no discurso de ódio e na divisão de poloneses”, acrescentou ele, dizendo que teme que a discriminação cresça.

“Essas palavras retornarão como pedras. Os políticos do PiS [partido de Duda] acionaram a máquina da retórica anti-LGBT que eles não podem mais controlar”, disse Jakub Kwiecinski, marido de Mycek.

Segundo a ILGA (Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Intersexuais), maior organização mundial em defesa dos direitos LGBT, o discurso de ódio por parte de líderes políticos e religiosos aumentou em 17 países da Europa, incluindo Portugal, Espanha e Finlândia, conhecidos por serem acolhedores a esta população. A violência homofóbica, como um todo, também cresceu na região, de acordo com o estudo.

O estudo destaca manifestações recentes. Entre elas, a do partido nacionalista que governa a Polônia e fez frente ao que considera ser uma “ideologia LGBT”, às declarações do presidente do Parlamento húngaro, que equiparou a adoção por casais gays à pedofilia e também colocações de políticos espanhóis e de finlandeses, que fizeram duras críticas às Paradas do Orgulho LGBT no país.

A vitória da pauta conservadora

O jornal de hoje 'Gazeta Krakowska' com os resultados da pesquisa de saída de ontem à noite prevendo Andrzej Duda vitorioso. (Photo: NurPhoto via Getty Images)
O jornal de hoje 'Gazeta Krakowska' com os resultados da pesquisa de saída de ontem à noite prevendo Andrzej Duda vitorioso. (Photo: NurPhoto via Getty Images)

Andrzej Duda, conquistou mais cinco anos no poder em uma plataforma religiosa socialmente conservadora, em uma eleição muito disputada que torna provável um novo confronto com a Comissão Europeia.

Resultados quase finais do segundo turno das eleições presidenciais de domingo mostraram Duda, 48, com mais de 51%, dando-lhe uma liderança imbatível sobre o prefeito liberal de Varsóvia Rafal Trzaskowski, que conquistou quase 49% dos votos, disse a Comissão Nacional de Eleições.

Duda é aliado do partido nacionalista Lei e Justiça (PiS), e sua vitória reforça o mandato do governo de buscar reformas do judiciário e da mídia que a Comissão Européia, o executivo da União Européia, afirma subverter os padrões democráticos.

“Em grande parte, a política de Bruxelas, ou melhor, de Berlim, se concentrou em apoiar a oposição”, disse à Reuters Arkadiusz Mularczyk, um parlamentar do PiS. “A sociedade polonesa não está aceitando isso.”

Duda se mostrou como guardião dos valores tradicionais e dos generosos programas de assistência social PiS que transformaram a vida de muitos poloneses mais pobres.

No entanto, ele realizou uma campanha amarga com linguagem homofóbica, ataques à mídia privada e acusações de que Trzaskowski serve interesses estrangeiros em vez dos da Polônia.

Desde o fechamento das pesquisas de voto, ele adotou um tom mais conciliatório, pedindo unidade no país profundamente polarizado.

“Contenha o máximo que puder de palavras desnecessárias, porque as palavras podem doer”, disse ele aos apoiadores. “Por favor, ajude-me a reunir a Polônia novamente.”

Trzaskowski, que disse que iria reparar as relações da Polônia com a Europa e usar o veto presidencial para bloquear qualquer legislação que corroeria as normas democráticas, disse que achava que o PiS não mudaria de direção.

“Infelizmente, parece que o outro lado não aprendeu lições”, disse Trzaskowski. ”É por isso que ouvimos declarações de que o processo de politizar os tribunais será concluído. Infelizmente, os que estão no poder não querem estender a mão para nós”.

O ministro da Justiça, Zbigniew Ziobro, sugeriu no domingo (12) que o PiS poderia avançar rapidamente com sua ambição de mudar a propriedade da mídia privada para meios mais favoráveis ​​às suas políticas.

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Este artigo apareceu originalmente no HuffPost Brasil e foi atualizado.