Especialistas discutem riscos do refinamento do óleo de palma

Belén Delgado.

Roma, 25 abr (EFE).- Até que ponto estamos expostos a substâncias contaminantes formadas a partir do refinamento de óleo de palma, também conhecido como azeite de dendê, para processar alimentos? Não há uma única resposta, mas os especialistas aconselham minimizar a ocorrência desses processos.

O debate está há muitos anos em cima da mesa e aumentou com o clamor das principais redes de supermercados da Espanha, que começaram a pedir que a indústria deixe de utilizar o óleo de palma e, se não for possível, que pelo menos certifique sua produção sustentável.

Problemas de desflorestamento à parte, inquietam os possíveis riscos à saúde. Mas não pelo consumo direto de azeite de dendê, mais barato que outros e totalmente inócuo quando usado cru, como fazem em países produtores de Ásia, África e América Latina.

O que interessa conhecer é o impacto da exposição a substâncias contaminantes, capazes de entrar nos alimentos mediante o refinamento de óleos vegetais a altas temperaturas.

Assim, surgem óleos de todos sabores e cores, tornando-se um material que dá uma consistência especial a pães, doces, chocolates e outros alimentos processados.

Com exceção dos azeites de oliva virgens, no processamento dos demais há compostos contaminantes, mas os maiores níveis estão no óleo de palma, explicou à Agência Efe Markus Lipp, da Organização da Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

Lipp pertence à secretaria do comitê misto de especialistas da FAO e da Organização Mundial da Saúde (OMS) que analisa os aditivos e as substâncias tóxicas presentes nos alimentos.

Sua última avaliação em relação ao óleo de palma não viu motivos de preocupação para os adultos. Apenas representa uma parte "diminuta" de tudo o que se ingere normalmente.

"Buscar contaminantes específicos nesses óleos não quer dizer necessariamente que todos os demais não tenham risco", afirmou o especialista, que lembra que existem outros problemas como a obesidade e diabetes associadas à alimentação, e que o risco está em comer muito alimentos que possam conter substâncias contaminantes.

Qual seria então a melhor recomendação para os consumidores? Em geral, respondeu Lipp, continuar com uma dieta variada.

Isso não evita que haja grupos de risco como as crianças. Sendo menores, comem proporcionalmente mais do que os adultos e sua exposição a esse tipo de substâncias em função do peso corporal é muito maior.

Uma atenção particular merecem as fórmulas para bebês.

"A maioria dos pais continua consumindo somente uma marca quando encontram uma fórmula que funciona, não querem mudar, mas, se esta usa óleo de palma, talvez tenha algum tipo de risco sob as circunstâncias atuais", alertou Lipp.

O especialista disse que o comitê da FAO e da OMS recomenda seguir com os trabalhos para minimizar tudo o que se possa existir de contaminantes e proteger esse "pequeno segmento da população leal a marcas específicas com uma exposição mais alta".

Na Europa, a Autoridade Europeia de Segurança Alimentar (EFSA) revelou que entre 2010 e 2015 reduziu-se à metade os níveis de éteres de ácidos graxos de glicerol, uma substância com suficientes evidências cancerígenas encontradas em óleos de palma processados.

Para essa queda influenciaram as medidas voluntárias dos produtores, segundo a agência, com sede na Itália.

Um porta-voz da EFSA detalhou que recentemente ficou decidido abrir uma nova avaliação sobre outro contaminante conhecido como 3-MCPD, que exposto pode pôr em risco os rins e o sistema reprodutor masculino.

Até agora, a EFSA considerava que sua ingestão diária tolerável era de 0,8 microgramas por quilograma de peso corporal, cinco vezes menos do que o estabelecido pelo último estudo do comitê da ONU, cujas conclusões diferentes levaram a reformular a opinião.

Com outra substância (2-MCPD), a EFSA não pôde concretizar os possíveis riscos por falta de dados, acrescentou o porta-voz.

Os relatórios, com modelos diferentes, se baseiam sobretudo em estudos em animais, com os quais são estimados os possíveis efeitos nos seres humanos.

As avaliações de riscos e os conselhos científicos servem de referência às autoridades dos países para legislar e impor limites nos alimentos para um consumo seguro.

Nos Estados Unidos, por exemplo, a Administração de Alimentos e Remédios autorizou com restrições o uso de óleo de palma como substituto da banha de cacau e segue com atenção os novos estudos para proteger a saúde pública.

Mas, por enquanto, parece que a disputa é somente decidida entre as marcas. EFE