EUA acusam Irã de 'fomentar o terror'

Por Ben Simon, Guillaume LAVALLÉE
O secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo (esquerda), se reuniu com o líder do partido político Azul e Branco, Benny Gantz, em Jerusalém

O secretário de Estado americano, Mike Pompeo, acusou nesta quarta-feira o Irã de "fomentar o terror", inclusive durante a crise do novo coronavírus.

Em sua primeira viagem ao exterior em quase dois meses, o chefe da diplomacia americana colocou uma máscara com as cores da bandeira dos EUA ao desembarcar em Tel Aviv, de onde seguiu até Jerusalém para se reunir com o premier de Israel, Benjamin Netanyahu.

"Até mesmo durante esta pandemia, os iranianos utilizam os recursos do regime dos aiatolás para fomentar o terror em todo mundo, embora o povo iraniano sofra enormemente. Isso diz muito sobre o espírito de quem comanda esse país", disse Pompeo, em uma coletiva de imprensa junto a Netanyahu.

Inimigo declarado de Israel e Estados Unidos, o Irã é o país do Oriente Médio mais afetado pela pandemia, com mais de 110.000 casos, segundo dados oficiais.

Teerã apoia o regime sírio de Bashar al-Assad via o movimento xiita libanês Hezbollah, outro inimigo de Israel. Nas últimas três semanas, houve seis bombardeios atribuídos a Israel contra alvos pró-Irã na Síria.

"Existe na Síria uma batalha imaginária, que Israel está travando, e se chama 'não permitir a presença de tropas iranianas'" afirmou o líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, que garantiu que nesse país existem apenas "assessores e especialista militares iranianos", mas não combatentes.

O Irã "não parou nem por um minuto seus planos e ações violentas contra os americanos, israelenses e outros na região", afirmou Netanyahu ao receber Pompeo.

Coincidindo com a visita de Pompeo, foi anunciada a nomeação do ex-chefe do Exército israelense e um dos líderes do partido de centro "Azul e Branco", Gabi Ashkenazi, como próximo ministro das Relações Exteriores.

Ashkenazi não esperou tomar posse do cargo e nesta mesma quarta-feira deu uma entrevista junto a seu futuro homólogo americano.

- 'Ameaça à paz' -

A visita de Pompeo ocorre quase dois anos depois que o governo de Donald Trump reconheceu Jerusalém como capital de Israel, e na véspera da posse de um governo de união entre Netanyahu e seu ex-rival eleitoral, o general Benny Gantz, para encerrar a pior crise política da história de Israel.

Israel deseja anexar o Vale do Jordão, uma área estratégica que representa 30% da Cisjordânia, e os grandes blocos de colônias. Pompeo defendeu o direito de Israel a "se defender" e disse estar ansioso para ver progressos nos planos de paz dos Estados Unidos para a região.

Pouco antes da chegada de Pompeo, o Exército israelense matou a tiros um adolescente palestino em Hebron, sul da Cisjordânia. Na terça-feira, um soldado israelense foi morto atingido por uma pedra lançada por um palestino, também na Cisjordânia.

Os líderes palestinos cortaram quase todas as relações com as autoridades americanas desde que Trump considerou Jerusalém a capital de Israel. Além disso, também rejeitaram o plano americano para resolver o conflito, apresentado há alguns meses, por considerar que obedece apenas aos interesses de Israel.

O presidente da Autoridade Palestina, Mahmud Abbas, voltou a denunciar, nesta quarta-feira, os planos de anexação de Israel, em um discurso onde não mencionou a visita de Pompeo.

- 'Grande Israel'?

Na última década, sob o governo Netanyahu, a população das colônias israelenses na Cisjordânia, ocupada por Israel desde 1967, aumentou 50%. Atualmente, mais de 450 mil israelenses vivem ao lado de mais de 2,7 milhões de palestinos.

A tensão e os confrontos são quase diários. A eles se somam mais de 150 mil colonos que vivem em Jerusalém Oriental, parte palestina da cidade.

Para os palestinos e boa parte da comunidade internacional, a anexação de parte da Cisjordânia significaria o fim de uma solução de dois Estados, um israelense e o outro, palestino.

As colônias também representam uma questão de política interna nos Estados Unidos, onde os movimentos evangelistas, partidários dos republicanos de Donald Trump, defendem o projeto de uma "Grande Israel", que inclui territórios na Cisjordânia.

Em Israel, pesquisas mostram um grande apoio à anexação por parte da direita, mas não tanto assim no centro e na esquerda, vertentes também representadas no governo de união, especialmente por Benny Gantz, que expressou suas dúvidas sobre uma anexação rápida.