Pompeo tenta reviver processo de paz no Afeganistão

Por Elise BLANCHARD
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Mike Pompeo fala durante coletiva de imprensa na sede do Departamento de Estado dos EUA, em 17 de março de 2020, em Washington

O chefe da diplomacia americana, Mike Pompeo, chegou nesta segunda-feira (23) ao Catar, após realizar uma visita surpresa a Cabul anteriormente, para se reunir pela primeira vez com os talibãs em Doha com a esperança de pôr nos trilhos um ameaçado processo de paz.

Em Catar, o secretário de Estado tem previsto se reunir com "autoridades talibãs", entre eles o máximo negociador, mulá Baradar, "para pressioná-los a cumprirem o acordo assinado no mês passado", declarou seu porta-voz, Morgan Ortagus.

Os Estados Unidos assinaram em 29 de fevereiro, em Doha, um acordo histórico com os talibãs após 18 anos de guerra, e o mesmo prevê a retirada progressiva ao longo de 14 meses de todas as forças americanas e estrangeiras do Afeganistão, com a condição de que os insurgentes cumpram com seu compromisso de garantir a segurança e se sentem a negociar com o governo de Cabul.

Estas negociações interafegãs, que começariam em 10 de março, já haviam sido adiadas, assim como a troca de prisioneiros entre as duas partes em conflito contemplada no texto, enquanto a violência prossegue no Afeganistão.

Na capital afegã, o chefe da diplomacia americana tentou durante oito horas resolver a crise política que ameaça o diálogo entre o governo e os insurgentes.

Ele se reuniu sucessivamente com o presidente Ashraf Ghani e com o ex-chefe do Executivo, Abdullah Abdullah, que também se proclamou vencedor da eleição presidencial de 28 de setembro de 2019, e depois com os dois juntos.

"Temos tentado (...) nestas últimas semanas encontrar uma fórmula e incentivá-los a chegar a um acordo", declarou à imprensa um encarregado do Departamento de Estado, acrescentando que Pompeo "tinha vindo para tentar avançar, incentivar e comunicar nossas expectativas".

A ideia é, segundo este encarregado, que os dirigentes formem um governo de unidade nacional, capaz de negociar com os talibãs.

- Videoconferência Cabul-talibãs -

Esta dupla visita surpresa ocorre um dia depois de o governo afegão e os talibãs se reunirem pela primeira vez - por videoconferência, devido à pandemia da COVID-19 - para discutir os termos das possíveis trocas de prisioneiros, uma etapa crucial no processo de paz.

Outros encontros virtuais estão previstos para superar os bloqueios.

O negociador americano Zalmy Khalilzad tuitou no domingo que era "urgente" concretizar o intercâmbio de prisioneiros, em um momento em que o novo coronavírus piora as condições e complica os intercâmbios diplomáticos.

O acordo, que não foi ratificado por Cabul, prevê a libertação de até 5.000 prisões rebeldes contra 1.000 membros das forças afegãs.

A troca aconteceria em 10 de março, antes da data prevista para o início das negociações sobre o futuro do Afeganistão, mas foi adiada por desavenças entre os dois lados.

O presidente Ghani, contrário a esta medida, propôs, ao contrário, a libertação de 1.500 prisioneiros talibãs antes da abertura das discussões interafegãs e, mais tarde, ao longo de vários meses e se a violência diminuir, dos restantes 3.500.

Os talibãs se opuseram duramente a esta proposta.

Apesar do bloqueio, a partida das tropas americanas já começou, mas se tornou mais lenta devido à pandemia do novo coronavírus, que no Afeganistão afeta por enquanto 40 pessoas e já deixou um morto.

Ao contrário, os talibãs se comprometeram a combater grupos jihadistas como a Al Qaeda.

Os talibãs cessaram os ataques contra as tropas estrangeiras, mas continuam assediando as forças de segurança afegãs.

Aos combates se soma o temor de uma crise sanitária, devido à chegada nas últimas semanas de dezenas de milhares de afegãos provenientes do Irã, um dos países mais afetados pelo novo coronavírus.