Ponta de lança: Pela 1ª vez em 92 anos de Copa, todas as seleções africanas terão técnicos locais

Ponta de lança joga luz, no GLOBO, a histórias pouco conhecidas do futebol e da cultura do continente africano

Em 2010, a Copa do Mundo foi sediada pela primeira vez no continente africano embalada pelo hit “Waka Waka”, que virou febre na voz da pop star Shakira e do grupo sul-africano Freshlyground. A canção tomou emprestada alguns versos de “Zangaléwa”, sucesso da banda camaronesa Golden Sounds, cuja letra encoraja e faz uma pergunta que ecoa 12 anos depois: “de onde você vem?”.

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Em 2022, o ineditismo trazido pelas seleções africanas está no fato de terem escolhido apenas técnicos do próprio continente. Aliou Cissé, Jalel Kadri, Walid Regragui, Otto Addo e Rigobert Song representam algo nunca visto nesses 92 anos de Copa do Mundo.

Por muito tempo o futebol africano foi visto como um pacote embalado em variados clichês. Rótulos como “escola africana”, “jogam sem responsabilidade”, “jogo muito físico” e “jogo de muita velocidade” eram empregados para qualquer seleção africana em Copas do Mundo, da Tunísia à África do Sul, seja Senegal, Argélia ou Togo. No fim das contas, era “tudo a mesma coisa”.

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Comandadas na maior parte do tempo por técnicos europeus sem oportunidades em seu próprio continente, as seleções africanas poucas vezes conseguiram mostrar sua identidade dentro das quatro linhas. Características culturais e físicas dos jogadores foram por muitas vezes suprimidas por um “salvador” que, em tese, viria de uma cultura “superior” no futebol.

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A promissora geração de técnicos que comandam as seleções africanas no Catar é acompanhada de perto por Nuhu Adams. Jornalista ganês, referência na cobertura do futebol africano de seleções e clubes, Nuhu tem mais de 36 mil seguidores em sua conta do Twitter.

Em contato com o “Ponta de Lança”, ele demonstra animação com o feito:

— Eu acho que é realmente ótimo. É a primeira vez que seleções africanas são comandadas por técnicos africanos na Copa do Mundo, e estou animado com isso — diz ele. — Isso encoraja e dá esperança e confiança aos nossos treinadores. Isso também irá incentivá-los a acreditar em si mesmos.

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Nuhu Adams acredita ainda que o Mundial de 2022 pode transformar o que estamos vendo em tendência, com reflexos positivos para o futebol local:

— Para a próxima Copa do Mundo, é altamente possível que todas as seleções africanas sejam novamente lideradas por treinadores do continente, porque suas façanhas e desempenho no Catar serão uma referência para as federações africanas de futebol confiarem nos técnicos locais.

Como os versos de Waka waka mesmo dizem, “as pessoas estão aumentando as suas expectativas”. Resta saber se a já histórica geração de técnicos africanos aproveitará o seu momento de brilhar, sem hesitações.

Senegal

A história do técnico Aliou Cissé se confunde com o próprio desenvolvimento do futebol senegalês. O ex-capitão dos “Leões de Teranga” na campanha histórica do país na Copa do Mundo de 2002 completou sete anos no comando da seleção principal. Desde a sua entrada em 2015, Cissé comandou o amadurecimento da geração de Sadio Mané, Koulibaly e Mendy, que viu a perda da Copa Africana de Nações de 2019, mas triunfou no começo deste ano ao conquistar o primeiro título de Senegal na competição em toda a história.

Na Copa do Mundo do Catar, o técnico senegalês é o principal nome entre os representantes africanos. Sem Mané — maior craque de seu elenco, cortado por lesão —, a seleção estreou ontem contra a Holanda com derrota por 2 a 0, em um jogo em que criou muitas chances de gol. Teoricamente, terá confrontos mais tranquilos nas rodadas seguintes do Grupo A, contra os donos da casa e Equador.

Marrocos

O recém-contratado Walid Regragui é a esperança no comando dos “Leões do Atlas”. O ex-lateral da seleção se destacou pelo Wydad Casablanca (Marrocos) na última temporada, onde conquistou a Liga dos Campeões da CAF — principal torneio de clubes da África.

O jovem técnico dará continuidade ao trabalho do bósnio Vahid Halilhodzic, demitido meses antes da Copa do Mundo, após atritos com a principal estrela marroquina, Hakim Ziyech. A seleção estreia nesta quarta, contra a Croácia, pelo Grupo F.

Tunísia

Jalel Kadri continuou o trabalho do seu antecessor Mondher Kebaier, demitido após a eliminação da Copa Africana no começo do ano. Kadri era o auxiliar do antigo técnico. Porém, foi responsável pela classificação das “Águias de Cartago” à Copa do Mundo e, antes do amistoso contra o Brasil, não havia sofrido sequer uma derrota no comando do país. Os tunisianos, inclusive, são exemplo de sistema defensivo no continente africano.

A partida contra a Dinamarca, nesta terça, pela primeira rodada do Grupo D, é um grande teste para a tão elogiada zaga de Kadri.

Camarões

Adversário do Brasil na terceira rodada do Grupo G, Rigobert Song estreará na competição pressionado devido ao desempenho de Camarões nos amistosos pré-Mundial. Isso porque o ex-jogador dos “Leões Indomáveis” foi contratado pelo amigo e atual presidente da federação camaronesa, Samuel Eto’o.

Song possui apenas oito jogos no comando da seleção e obteve mais tropeços do que resultados positivos. São duas vitórias, um empate e três derrotas antes do início da Copa do Mundo. Todos os holofotes dos torcedores camaroneses estão na pergunta que não quer calar: o Camarões de Rigobert Song irá surpreender o mundo do futebol assim como na Copa de 1990? Só o tempo dirá.

Gana

A situação de Otto Addo, contratado de forma interina pela federação ganesa, é no mínimo complexa. Jogador histórico da seleção, Addo esteve na Copa do Mundo de 2006 — primeira edição disputada por Gana. Agora, ele tem a missão de comandar uma jovem geração do país que inclui atletas da diáspora como Iñaki Williams, que escolheu representar as “Estrelas Negras” em vez da Espanha, país onde nasceu.

Como se não bastasse, Addo não trabalha apenas para Gana. Antes de tudo, ele ocupa o cargo de técnico adjunto no Borussia Dortmund (Alemanha). O clube alemão, portanto, o emprestou à seleção a partir da fase final das eliminatórias africanas para a Copa.