'Ponto cego' compromete rastreamento de 40% das commodities de áreas de florestas

SÃO PAULO - Cerca de 40% das commodities agricolas do mundo que são cultivadas em áreas de pressão sobre florestas tropicais não são adquiridas pelas grandes comerciantes diretamente dos produtores, o que impede o rastreamento desses produtos para garantir que não venham de áreas desmatadas.

A conclusão é de um estudo internacional que mapeou a trama de comércio dos quatro produtos mais sensíveis, por estarem em regiões com índices de desmatamento alto: a soja da América do Sul, o cacau da Costa do Marfim, o dendê da Indonésia e o gado do Brasil. A pesquisa teve enfoque no papel das grandes "traders", as empresas que conentram a captação dessas mercadorias com os produtores e as redistribui adiante na cadeia produtiva.

Liderado pelo cientista Erasmus zu Ermgassen, da Universidade Católica de Louvain (Bélgica), o trabalho fala que a grande presença de intermediários entre produtores e traders cria um "ponto cego" que torna muito difícil rastrear a origem dos produtos e garantir que não venham de áreas de desmate recente.

Várias das empresas citadas no estudo já assinaram compromissos públicos, prometendo aumentar a rastreabilidade de seus produtos, mas até agora a parcela de carregamentos sem origem comprovadamente sustentável é grande. No caso da soja sulamericana, pelo menos um quarto da produção padece desse problema.

No caso do mercado de carne, os cientistas se concentraram em analisar as empresas que exportam gado vivo, por terem identificado que a cadeia produtiva desse subsetor é particularmente vulnerável a problemas de sustentabilidade. Nesse mercado, onde os bois costumeiramente são vendidos de fazenda em fazenda nas etapas de criação, berçário e engorda, mais de 90% do produto adquirido pelas traders não tem rastreamento direto.

Os números constam de estudo que os pesquisadores publicaram nesta sexta-feira na revista Science Advances, da AAAS (Associação Americana para o Avanço da Ciência).

Ponto de alavancagem

Mairon Bastos Lima, pesquisador do Instituto de Ambiente de Estocolmo (Suécia) e coautor do estudo, afirma que a decisão de colocar foco nas traders para estudar a responsabilidade pelo desmatamento ao longo da cadeia produtiva à posição estratégica quee elas têm.

— Os mercados desses produtos têm milhões de consumidores e centenas de milhares de produtores, mas é uma meia dúzia de empresas, as traders, que controlam mercado na etapa de comercialização — explica o pesquisador. — Elas são um ponto de alavancagem para que se consiga imprimir mudanças setoriais em grande escala, e não apenas em um ou outro produtor, ou um nicho pequeno de consumidores.

Além da soja e do boi, o estudo incluiu o cacau marfinense na conta, porque o país teve altas taxas de desmatamento recente e é responsável por 46% da produção mundial dessa commodity. O cacau do oeste africano é ainda mais difícil de rastrear hoje porque praticamente toda a produção passa por comerciantes intermediários, os "pisteurs" e os "traitants", e carregamentos tomam rumos imprevisíveis até poucas horas do embarque nos portos.

O dendê indonésio, matéria prima do óleo de palma, tem uma situação um pouco melhor de rastreabilidade, mas ainda aquém de evitar as taxas maiores de desmatamento que o país vem sofrendo recentemente, afirmam os pesquisadores.

Iniciativas setoriais

No caso do Brasil, muitas empresas já assinaram iniciativas setoriais acenando com objetivos de tornar seus produtos mais rastreáveis. A "Moratória da Soja", por exemplo, inclui uma promessa do setor de não comprar produto de terra desmatada depois de 2008. No setor de pecuária, algumas edições do "Acordo da Carne" buscaram objetivo semelhante.

As cláusulas dos compromissos, porém, excluem a maior parte dos fornecedores indiretos da conta, e o estudo de Ermgassen e colegas expõe agora a extensão do problema.

O GLOBO contatou as três das 22 traders citadas no estudo que possuem maior presença no Brasil, pedindo que comentassem os resultados e explicassem seus compromissos de rastreabilidade.

Uma delas, a Minerva, que exporta gado vivo a partir do porto de Barcarena (PA), é a maior desse nicho do setor. (A JBS, maior de proteína animal, tem presença relativamente pequena em exportação de gado vivo). A empresa nega que a natureza fragmentada e revezada de seus fornecedores comprometa o rastreamento.

"No Brasil, 100% das compras realizadas pela Minerva Foods são monitoradas em todas as regiões de atuação, na Amazônia, Cerrado, Pantanal e Mata Atlântica, por meio de mapas georreferenciados de fornecedores diretos, garantindo o cumprimento de rígidos critérios socioambientais por parte dos fornecedores", afirmou a companhia em comunicado. "Em 2020, a Companhia iniciou os testes com a utilização do Visipec, ferramenta de rastreabilidade que funciona de forma complementar ao sistema de monitoramento utilizado (...) Os resultados dos testes demonstram uma conformidade de 99,7%."

O número contrasta com o cenário do estudo europeu, baseado em dados públicos e auditáveis.

A Cargill e a Bunge, as maiores traders de soja no Brasil também foram contatadas, mas não responderam até o início desta tarde sobre suas medidas de sustentabilidade.

Ganho de escala

O grupo de Ermgassen reconhece que alguns setores de commodities têm dificuldades inerentes para rastrear produtos, porque a própria definição de commodity é a de um produto genérico que tenha facilidade para circular, como se fosse uma moeda.

O pesquisaor afirma que não existe uma medida que possa funcionar como uma "bala de prata" para resolver o problema, e sua solução não passa necessariamente pela exigência de fornecimento direto. Medidas como certificação de produtos, politicas de transparência e outras precisam ser combinadas para ampliar a cobertura do rastreamento.

"Para eliminar o desmatamento, o fornecimento indireto precisa ser incluído em iniciativas setoriais e em abordagens jurisdicionais ou ecossistêmicas que internalizem esse fornecimento e ganhem escala", escrevem os pesquisadores.

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