População diverge sobre obrigatoriedade de vacina contra Covid, aponta levantamento

***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 09.11.2022 - Enfermeira prepara vacina contra Covid-19 na UBS Nossa Senhora do Brasil, na Bela Vista, em São Paulo. (Foto: Danilo Verpa/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 09.11.2022 - Enfermeira prepara vacina contra Covid-19 na UBS Nossa Senhora do Brasil, na Bela Vista, em São Paulo. (Foto: Danilo Verpa/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Uma pesquisa realizada no último novembro com 1.200 brasileiros constatou que 45,9% dos participantes acreditam que vacinas contra a Covid-19 devem ser obrigatórias. Para aqueles que pensam o contrário, o percentual é pouco diferente: 46,8%.

O levantamento é resultado de uma parceria entre o Sou_Ciência, centro de estudo sediado na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), e o Instituto de Pesquisa Ideia Big Data.

No país, a não vacinação de menores de idade pode, por exemplo, resultar em sanção para os responsáveis e até perda da guarda.

Pela lei, as escolas são obrigadas a exigir a caderneta de vacinação das crianças e adolescentes no ato da matrícula. Elas, no entanto, não podem se recusar a receber alunos que não tenham sido vacinados -neste caso, elas devem acionar o Conselho Tutelar ou outros órgãos de controle.

Para Soraya Smaili, ex-reitora da Unifesp e uma das coordenadoras do Sou_Ciência, o dado da pesquisa é um alerta. "Esse dado é preocupante, porque ele dá uma indicação de que a questão de considerar a vacina um direito individual ganhou um pouco mais de espaço [...] principalmente no segundo semestre de 2022."

Smaili diz que existia uma tendência maior em aceitar a vacina como obrigatória mediante dados levantados em outras pesquisas, como uma realizada também pelo Sou_Ciência e pelo Ideia Big Data em 2021. Segundo ela, com o arrefecimento da pandemia, as pessoas passaram a enxergar o Sars-CoV-2, vírus que causa a Covid-19, como mais leve, o que diminui o senso de risco em relação ao patógeno.

No entanto, foi justamente a vacinação que diminuiu a gravidade da infecção. "Hoje, ter esse número, significa que as pessoas acham que o vírus se transformou em algo mais leve, mas na verdade foi a vacina que protegeu da doença mais grave", diz.

Realizada com brasileiros maiores de 16 anos de todas as regiões do Brasil, a pesquisa conta com 95% de grau de confiança, com margem de erro de 2,8 pontos percentuais para mais ou para menos. Além do dado sobre a obrigatoriedade da vacina, outro que preocupa Smaili é sobre o grau de confiança na eficácia dos imunizantes.

A opinião de 30% dos entrevistados é que as vacinas contra o Sars-CoV-2, vírus que causa a Covid-19, ainda não têm comprovação científica. Em contrapartida, 52% têm confiança na eficácia dos fármacos.

Para Smaili, o percentual de pessoas com dúvida sobre o imunizante tem envolvimento com a falta de campanhas informativas coordenadas entre instâncias federais, estaduais e municipais. Sem um planejamento adequado, a população não acessa plenamente as informações de qualidade sobre os fármacos. O cenário ainda ocasiona um terreno mais fértil para desinformações, com aquelas propagadas por grupos antivacina.

"Se [as campanhas] não estão acontecendo, certamente uma parcela da população não vai nem tomar consciência dos malefícios de não tomar a vacina", afirma.

A desconfiança com as vacinas, no entanto, não tem respaldo científico. Inúmeras pesquisas já demonstraram tanto a segurança das vacinas quanto sua eficácia, principalmente na redução de casos graves da Covid-19. Uma estimativa publicada na revista Lancet Infectious Diseases, por exemplo, estimou que, entre dezembro de 2020 e dezembro de 2021, os fármacos evitaram a morte de quase 20 milhões de pessoas.

KIT COVID

A cloroquina foi amplamente defendida pelo ex-presidente Jair Bolsonaro como tratamento precoce para Covid-19, mesmo sem haver evidências sobre a eficácia do medicamento para a doença. Com o tempo, essa desinformação tornou-se rara nos posts das redes sociais do ex-mandatário e dos seus três filhos, Flávio, Eduardo e Carlos.

Mesmo assim, a ideia de que a cloroquina tem ação contra o Sars-CoV-2 continua em alta em parte da população brasileira. Na nova pesquisa, 35% dos participantes concordaram que o remédio, em conjunto com a hidroxicloroquina, foi útil para o tratamento precoce da infecção. Por outro lado, 41% discordaram da afirmação.

Smaili afirma que a persistência da confiança nesse remédio e também em outros, como a azitromicina, está ligada ao fato de que muitos médicos continuam receitando esses medicamentos.

As evidências científicas, no entanto, já revelarm que isso não tem respaldo científico. "A cloroquina foi testada em pacientes com Covid e nada produziu. [...] Pelo contrário, tem estudos que mostraram que a cloroquina acelerou prejuízos cardiovasculares."