População iraniana vive entre más notícias e um dia a dia deprimente

Por Lucie PEYTERMANN
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Artesão trabalha no sul de Teerã

Os habitantes de Teerã vivem uma rotina deprimente, como resultado de uma série de acontecimentos traumatizantes que agravaram o pessimismo e as dificuldades econômicas do país, submetido a duras sanções internacionais.

No norte da capital, em um dia ensolarado cujos raios refletem na neve suas grandiosas montanhas, um grupo de garotas conversam no bairro residencial de Tajrish.

Vestindo casacos curtos, maquiagem sofisticada e véus que deixam seus cabelos cada vez mais livres, elas fogem sutilmente das regras de vestuário impostas naquele país.

A estudante de biologia Rana, de 20 anos, reclama: "A situação aqui é imprevisível e a vida é muito difícil. Temos poluição, uma população insatisfeita e preços muito altos", conta à AFP, antes de definir esses acontecimentos como o "isolamento do Irã".

Nos últimos meses, o Irã teve diversas manifestações por causa da alta na gasolina, que foram fortemente reprimidas. Em janeiro, o Estados Unidos matou no Iraque o poderoso general iraquiano Qasem Soleimani. E em 11 de janeiro, as forças armadas iranianas admitiram - após vários dias de negação, que indignou a população - ter por "erro" atingido um avião comercial ucraniano, ocasionando 176 mortes.

Rana lamenta essa tragédia, que traumatizou toda a população estudantil do país.

Um pouco mais distante dali, a engenheira Pegah Golami, de 25 anos, faz compras "três dias antes do seu casamento", portando um elegante casaco e botas de camurça. "A situação econômica do país é muito difícil, principalmente para os jovens", disse.

"Todos os meus amigos decidiram deixar o país e isso me entristece. Prefiro continuar aqui e construir o meu país", acrescenta.

- "Sobreviver" -

"É difícil encontrar um trabalho. Ganho apenas o suficiente para sobreviver", disse Sobhani. "As sanções afetam os iranianos, mas devemos aguentá-las, não temos outra opção", ressalta.

Após ter se retirado totalmente do acordo nuclear com o Irã em maio de 2018, o Estados Unidos reestabeleceu progressivamente sanções econômicas ao Irã, asfixiando a economia desse país no Oriente Médio.

A situação atinge diretamente Mohamadreza Khademi, de 37 anos, vice-presidente da empresa Delham Tabesh, que recentemente teve que despedir 20 dos seus 30 funcionários.

Especializada em tecnologia inteligente, a empresa teve um início promissor, em 2013. Porém, com as sanções, o custo dos produtos triplicou para os clientes, tornando-os uma tecnologia inacessível para o momento.

"O final de 2018 foi catastrófico e 2019 não foi diferente", explica. O empresário teve que reduzir suas importações de € 760 mil para € 100 mil.

"Tenho muita raiva de Donald Trump", conta Khademi.

- "Segurança" -

O pessimismo também é um sentimento presente no outro extremo da cidade, local sempre muito congestionado.

No bairro de Molavi, ao sul do Irã, os altos edifícios dão lugar a pequenos prédios mal conservados. No coração do seu centro histórico, há vielas cheias de pequenas lojas, com produtos artesanais cujo conhecimento vem de outros tempos.

Mehdi Golzadeh, de 36 anos, trabalha com produtos chineses e coreanos importados. "Com essa situação não podemos importar nada e o Irã acaba sem abastecimento" do que precisa, ressalta em uma loja de alimentos do bairro.

"É muito complicado. Estou solteiro. Com tão pouco recursos não consigo formar uma família. Sinto-me desesperado", lamenta.

O gerente da loja, Akbar Gharibvand, de 50 anos, afirma que seu lucro apenas serve "para conseguir sobreviver". "A situação piorou, principalmente para os mais pobres".

Para ele, o Irã não é um país ruim. Ao compará-lo com os países próximos, diz: "No Iraque, Afeganistão e Paquistão, todos os dias morrem pessoas. Nós ao menos temos essa segurança".