População de rua do Largo do Machado acusa Segurança Presente de realizar agressões

Gilberto Porcidonio
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Ser despertado aos gritos e palavrões, cutucado por cassetetes, com pisões nos braços e ameaças de espancamento e prisão. Esta vem sendo a realidade denunciada pelas pessoas em situação de rua que ficam no Largo do Machado, Zona Sul do Rio, desde o início da semana.

Os voluntários do projeto Comida Que Cura, que realiza atividades de acolhimento às pessoas do local, perceberam, na última quarta-feira, que seus atendidos estava chegando muito aflitos ao almoço que o grupo prepara. Na quinta-feira, seis pessoas do largo relataram que agentes do Segurança Presente estão acordando o grupo, às 8h, na base de agressões.

— Eu encontrei um deles que disse que geralmente são dois policiais que estão fazendo as abordagens agressivas — disse a engenheira de telecomunicações Michelle Marinho, que realiza as atividades com as pessoas desde março do ano passado. — Além disso, o pouco que eles tem, como colchões e lençóis, a polícia está confiscando e pedindo para a Comlurb remover.

Uma das pessoas do local relatou também que teve o celular levado por um dos agentes. Nas redes sociais, uma camareira desempregada chegou a fazer um vídeo dizendo que todo dia é abordada pelas mesmas pessoas. "Acabei vindo morar na rua por falta de opção e emprego, sendo que todo dia é abordagem pelo Centro Presente e das mesmas pessoas que tratam a gente igual lixo. Olha o que eles fazem com as nossas coisas, deixam tudo bagunçado", diz um trecho da gravação em que mostra seu colchão e suas roupas reviradas na calçada. Já um homem relata também que é acordado com pisões nos braços pois acham que ele está armado: "Eles só faltam pisar na nossa cabeça. Nós somos trabalhadores, não somos lixo".

— Eles estão todos muito assustados e queriam até deixar os documentos comigo para que eu pudesse guardar para eles. Eles não estão ali na rua porque eles querem, tem muita coisa por trás e isso tudo é muito cruel. Não dá para tapar os olhos e, infelizmente, tem pessoas que pensam diferente — desabafa Michelle.

Os voluntários do projeto também pensam em falar pessoalmente com a guarda. Morador do Flamengo, o aposentado Claudio Francisco Negrão é voluntário de iniciativas de ajuda à população de rua desde 2017 e percebe como este tipo de truculência é recorrente:

— Este é um problema antigo que já vem de outras gestões. Já vi acontecer várias vezes. A própria Secretaria Municipal de Ordem Pública (Seop), quando foi criada, já começou a agir dessa forma. Se isso não for encarado e tratado como política pública, isso nunca vai terminar. Querem tratar a população de rua como um caso de polícia quando é uma questão de direitos humanos.

A Secretaria de Estado de Governo (Segov) informou que a denúncia está sendo apurada com todo rigor, mas que os policiais do Segurança Presente não utilizam bastão e são diariamente orientados quanto à conduta durante as abordagens. "Vale destacar que, somente nesta semana, os assistentes sociais da base no Largo do Machado realizaram 63 atendimentos a pessoas em situação de vulnerabilidade social", diz a nota.

No ano passado, um censo realizado pela Secretaria Municipal de Assistência Social em parceria com o Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos e a Secretaria Municipal de Saúde revelou que 7.272 pessoas estavam em situação de rua na cidade, sendo que 5.469 (75,2%) estavam nas ruas e 1.803 (24,8%) em unidades de acolhimento e comunidades terapêuticas da prefeitura. Este foi o último censo realizado pelo órgão. Este foi o último censo realizado pelo órgão sobre a população em situação de rua do Rio.