"O que será de nós?": a população de rua e o coronavírus

Moradores de rua estão vulneráveis à doença. Foto: Pixabay

Desde que a OMS (Organização Mundial da Saúde) decretou a pandemia do novo coronavírus, muitas pessoas estão seguindo as recomendações para que a doença não se alastre ainda mais. Uma delas é o isolamento voluntário em suas casas. Porém, existe uma parcela da população que não pode fazer isso: as pessoas em situação de rua.

De acordo com o padre Julio Lancellotti, da Pastoral do Povo de Rua, de São Paulo, logo que começaram as notícias sobre o Covid-19, os moradores de rua não achavam que eles poderiam ser vítimas da doença. Porém, com o passar dos dias, eles foram tomando conhecimento sobre a gravidade da situação e passaram a ficar com medo.

“No decorrer dos dias, a ficha está caindo. Hoje, um deles me perguntou ‘o que será de nós?’, mas há alguns dias eles estavam falando que isso não pegava em pobre, que isso não seria problema para maloqueiro. Mas, eu vi que eles estão angustiados agora”, afirma o padre ao Yahoo.

Leia também:

Segundo ele, isso acontece pelo fato de as pessoas em situação de rua observarem como as pessoas que trabalham nos centros de acolhida estão agindo em relação à doença. “De acordo com o censo, existem 24 mil pessoas em situação de rua. Mas, a gente sabe que esse número passa de 30 mil. E essas pessoas têm dificuldades de higiene”, diz.

“Eles não têm álcool em gel, não têm como lavar a mão toda hora, eles têm até dificuldade de lavar as roupas. Além disso, os serviços de acolhimento são todos improvisados e não são construídos para serem de acolhida. A maioria deles é insalubre, não tem a ventilação necessária e não tem acessibilidade. São muitas as questões que tornam a população de rua mais vulnerável nesse momento”, constata.

Baixe o app do Yahoo Mail em menos de 1 min e receba todos os seus emails em 1 só lugar

De acordo com o padre, outra questão enfrentada pelos moradores de rua em meio ao problema do coronavírus é que eles passam a ser mais notados pelas pessoas que têm casa e que julgam essas pessoas menos favorecidas como transmissores da doença. 

“Com o esvaziamento da cidade, a população de rua ficou mais evidenciada na cidade. Como tem menos gente andando, menos carros, eles estão mais perceptíveis. Então, as pessoas que estão nas suas casas acabam os vendo como um perigo”, afirma.

Segundo o padre é necessário que o poder público ofereça espaços para que essa população possa ficar segura durante a quarentena. “Ginásios da prefeitura que estão fechados poderiam servir de abrigo. Pelo menos 17% dessa população está na faixa de risco pela questão etária. Eles também têm muita tuberculose e outros problemas, como diabetes. Tudo isso os deixa muito vulneráveis”, explica.

A reportagem entrou em contato com a Prefeitura de São Paulo para saber o que está sendo feito para que essa parcela da população fique protegida durante o período de quarentena. De acordo com a SMADS (Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social), todos os eventos agendados da rede socioassistencial foram cancelados e as visitas suspensas desde o sábado (14).

Porém, a pasta garante que os serviços conveniados estão intensificando os cuidados com a higiene. “A pasta dispõe de 134 serviços específicos para população em situação de rua. Destes, 89 são voltados ao acolhimento com 17,2 mil vagas. A SMADS oferece 10 núcleos de convivência para pessoas em situação de rua na cidade, com 3.172 vagas”, afirmou por meio de nota. 

De acordo com a secretaria, dentro dos núcleos, os conviventes têm acesso a banheiros, kits de higiene e podem tomar banho. “A equipe do SEAS (Serviço Especializado de Abordagem Social), composta por 600 orientadores, também intensificou as orientações nos cuidados de contágio do vírus. A equipe realiza busca 24 horas por dia para identificar pessoas ou famílias em situação de rua e oferecer acolhimento na rede socioassistencial”, diz a nota.

Siga o Yahoo Notícias no Instagram, Facebook, Twitter e YouTube e aproveite para se logar e deixar aqui abaixo o seu comentário.