“População negra e favelada não é vista como cidadã”, diz ativista

Raull Santiago usa tecnologias para trazer debates importantes para nossa sociedade. Foto: Arquivo Pessoal

Há tempos o ativista social Raull Santiago usa as redes sociais para denunciar casos de violência policial e violações de direitos humanos dentro das favelas do Rio de Janeiro. Nascido e criado no Complexo do Alemão, Raull é um empreendedor, produtor e co-fundador dos coletivos Papo Reto e Movimentos.

Usando as tecnologias como meio, Raull busca criar um networking de impacto social e traz debates importantes sobre como a guerra às drogas e a segurança pública impactam diretamente na vida e na morte de moradores de periferia, jovens e negros. “Eu estou na militância na área de segurança pública para falar sobre várias coisas”, disse em entrevista ao Yahoo.

Segundo ele, sua militância nas redes sociais começou para que fossem denunciadas as arbitrariedades cometidas dentro das comunidades e para que as pessoas que não moram nas favelas entendessem que existem coisas importantes, inovadoras e incríveis que acontecem todos os dias nas periferias. “A violência não resume aquele lugar”, afirmou.

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De acordo com Raull, atualmente, a criminalização da favela contribui para que exista uma “manutenção do racismo e da desigualdade na sociedade atual”. Para ele, após os períodos da exploração colonizadora, da exploração racial aberta e da ditadura, vivemos um período em que a ideia de guerra às drogas fundamenta a manutenção da desigualdade. “É o controle violento e racista de pessoas pretas, periféricas e faveladas”, disse.

Para Raull é preciso “discutir outra política de segurança e acabar com a ideia de guerra”. “É preciso perceber a favela a partir da sua potência, de garantia de direitos. Isso é o que vai construir mudanças reais. Precisamos construir uma segurança pública que não seja pensada a partir da ideia de guerra, mas sim da garantia de direitos”, afirmou.

Atualmente, segundo ele, para que alguns se sintam seguros dentro da sociedade, outros vivem uma intensa insegurança. “Esses que se sentem seguros estão nas bolhas de privilégio. Pessoas brancas, ricas, que moram em endereços nobres. A gente sofre violência para que eles se sintam seguros”, constatou.

De acordo com Raull, os maiores sofrimentos estão ligados à dificuldade que os moradores de favela têm para poder viver suas rotinas normalmente. Helicópteros que atiram de cima para baixo indiscriminadamente, operações que acontecem em horários de pico e os estragos patrimoniais que os blindados terrestres causam são algumas das dificuldades diárias enfrentadas nas favelas.

“A população negra e favelada não é vista como cidadã plena de direitos. Lidam com a nossa população muito a partir da criminalização e da guerra às drogas. É preciso quebrar falas comuns que não fazem sentido. Não tem como se declarar uma guerra a uma substância. Guerra é feita contra pessoas e a ideia de guerra tem endereço específico”, afirmou.

Para ele, é preciso discutir até os termos usados para explicar crimes que acontecem dentro das comunidades. “A gente não pode aceitar a ideia de bala perdida. Eu discuto narrativas. Como pode ser bala perdida se a operação policial tem um local específico onde ela vai acontecer? Não existe a ideia de bala perdida quando mais de 1.200 pessoas foram mortas a partir da violência do conflito armado das operações policiais”, disse.

Mesmo com esse importante trabalho de conscientização, Raull precisa tomar ainda mais cuidados do que os outros moradores da região. Como ele já fez importantes e graves denúncias em suas redes, ele afirma que já foi ameaçado por policiais e políticos.

Porém, ele diz que já desenvolveu uma série de estratégias para que ele se proteja das ameaças e consiga continuar seu trabalho em busca de mais direitos para pessoas de periferia. “Segurança é uma coisa central dentro dos passos que eu dou”, afirmou.