Populismo e pandemia, os desafios do presidente português reeleito

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O presidente Marcelo Rebelo de Sousa vota em seção eleitoral no norte de Portugal, em 24 de janeiro de 2021

Vinte e quatro horas depois de uma reeleição que confirmou a sua popularidade, o presidente português de centro-direita terá um papel fundamental a partir de segunda-feira (25) contra o surgimento da extrema direita, mas também contra um governo de esquerda vencido pela pandemia.

Marcelo Rebelo de Sousa "reforça seu poder em meio a uma tempestade política", é a manchete na primeira página do jornal Publico.

O chefe de Estado foi reeleito no primeiro turno com 60,7% dos votos, enquanto o populista André Ventura obteve 11,9% - meio milhão de votos - e quase ultrapassou a dissidente socialista Ana Gomes, segunda com 13%.

A eleição de domingo "confirma a popularidade e legitimidade" do candidato cessante, mas também "a ascensão meteórica da direita populista radical", afirma o cientista político Antonio Costa Pinto, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

Em Portugal, o chefe de estado não tem poder executivo, mas desempenha o papel de árbitro em caso de crise política e pode dissolver o Parlamento para convocar eleições legislativas antecipadas.

De acordo com uma pesquisa realizada no domingo com eleitores que votaram na eleição presidencial, os socialistas do primeiro-ministro Antonio Costa continuam sendo a principal força política do país, mas não alcançam a maioria absoluta que também não obtiveram em outubro de 2019.

- "Chega", o antissistema -

Seu rival de centro-direita, o Partido Social Democrata (PSD), está claramente em recuo enquanto o partido antissistema "Chega" ("Basta"( obteria 9% das intenções de voto, quase o resultado obtido pelo seu fundador André Ventura em o presidencial no domingo.

Segundo o analista Antonio Costa Pinto, este levantamento confirma que toda a direita portuguesa está em plena “reconfiguração”, uma vez que “Basta se tornou um elemento fundamental para a constituição de um governo de direita”.

E isto, acrescenta, porque em Portugal não existe um "cordão sanitário" para afastar os populistas do poder, como evidencia o acordo com o Chega para que o PSD pudesse retomar o controle do governo regional dos Açores, em novembro passado.

Segundo o analista, Chega ainda tem espaço para avanços em um país onde as pesquisas de opinião mostram que cerca de 20% do eleitorado pode ser receptivo à sua mensagem.

“Portugal está entrando em um dos períodos mais complexos da sua história recente”, diz a cientista política Paula Espírito Santo, do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas.

Segundo ela, o desafio populista se soma a uma pandemia que devasta o país, além da crise econômica e social provocada pelo novo coronavírus.

Como o chefe de Estado português só pode exercer dois mandatos consecutivos, Marcelo Rebelo de Sousa passa a ter "maior liberdade" para intervir no jogo político, segundo a analista.

Em seu discurso de vitória, o presidente prometeu fazer da luta contra a pandemia sua "primeira prioridade", apesar de caber ao governo socialista de Antonio Costa liderar essa luta.

Costa impôs um segundo confinamento geral há uma semana e meia, que havia tentado evitar durante dois meses. Na segunda-feira, a ministra da Saúde, Marta Temido, reconheceu que o país vive "um momento crítico".

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