Populista de esquerda e conservador, Pedro Castillo é eleito presidente do Peru

·8 minuto de leitura

BUENOS AIRES, ARGENTINA, E SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Com uma plataforma que mistura populismo de esquerda na economia com pautas conservadoras nos costumes, o professor rural Pedro Castillo foi confirmado pelas autoridades eleitorais nesta segunda (19) como vencedor do pleito presidencial do Peru.

Castillo recebeu 50,12% dos votos válidos, contra 49,87% da conservadora Keiko Fujimori, segundo anúncio oficial.

Foram mais de 40 dias de uma contagem de votos marcada pela tensão e pelas ameaças de Keiko de não reconhecer a derrota, alegando fraude.

Pouco antes do anúncio, Keiko aunciou que reconheceria a derrota, uma vez que todos os seus recursos foram rejeitados.

"Anuncio que, cumprindo meus compromissos assumidos com todos os peruanos, com [o escritor] Mario Vargas Llosa, com a comunidade internacional, vou reconhecer os resultados porque é o que manda a lei e a Constituição que jurei defender", disse ela, num pronunciamento.

A disputa apertada é reflexo da polarização do país e dos perfis diferentes dos dois candidatos. A votação, feita em cédulas de papel, aconteceu em 6 de junho.

Enquanto Keiko é filha do ex-ditador Alberto Fujimori (1990-2000) e representa a elite de Lima, com uma visão mais próxima do neoliberalismo, Castillo nasceu e cresceu em um pequeno vilarejo no interior do país, que mal aparece nos mapas.

De origem pobre, o novo presidente eleito do Peru --a posse está marcada para 28 de julho-- é formado em pedagogia, tem mestrado em psicologia educativa e dá aula de história e de espanhol para o ensino médio. Aos 51 anos, é casado e tem dois filhos, que moram com ele no distrito de Tacabamba, onde nasceu.

Castillo começou a carreira política em 2002, quando concorreu à prefeitura de Anguía, um povoado próximo a onde vive. Derrotado, seguiu a carreira como professor das escolas rurais da região e acabou entrando para o sindicato dos docentes. Nessa posição, ganhou fama em 2017, quando foi um dos líderes de uma greve nacional do setor.

Ele chefiava, então, o Conare, o sindicato dos professores, que tem ligações com o Movadef --braço político da guerrilha esquerdista Sendero Luminoso.

A guerra entre o Estado peruano e o grupo consumiu a vida de mais de 70 mil pessoas nos anos 1980 e início de 1990 e só foi concluída quando milícias formadas por camponeses da região, conhecidas como "rondas campesinas", passaram a lutar ao lado do Exército. Castillo se diz favorável à ação dessas milícias e contou durante a campanha com o apoio dos "ronderos", que se dedicam a ajudar comunidades pobres em regiões rurais.

Curiosamente, a trajetória do novo presidente lembra em parte a de Alberto Fujimori. Ao ser eleito pela primeira vez, em 1990, ele também era um nome desconhecido pela elite de Lima, e só chegou à vitória por causa do apoio que recebeu nos rincões do país.

Ainda hoje há nessas regiões certa nostalgia do fujimorismo --pelas visitas que o ex-mandatário fazia e pelo crédito que recebe por ter pacificado a área, pondo fim à guerra contra o Sendero.

Mas essa lembrança não foi o suficiente para alavancar a votação de Keiko nas regiões mais pobres do país no pleito de domingo. Castillo chegou a receber mais de 90% dos votos em alguns locais do interior, enquanto a filha do ditador acabou se saindo melhor no litoral e nos grandes centros urbanos, como Lima.

Apesar de ter aparecido na liderança na maior parte das pesquisas do segundo turno, a vitória de Castillo é, de certa forma, uma surpresa --ele será o primeiro presidente peruano sem vínculos com as elites políticas, econômicas e culturais.

Além disso, o professor e sindicalista passou a maior parte do primeiro turno na lanterna da disputa, que contou com 18 candidatos. Só na reta final seu nome começou a subir nas pesquisas, principalmente devido ao desgaste da imagem dos primeiros colocados. Quando as urnas foram abertas, veio a surpresa ainda maior: Castillo recebeu 18,9% dos votos e terminou na liderança --Keiko se classificou como a segunda colocada, com 13,4%, à frente do também direitista Rafael López Aliaga.

No segundo turno, os dois inverteram os papéis, com ela começando atrás nos levantamentos de intenção de voto. A margem de Castillo, que nas primeiras sondagens superava os dez pontos percentuais, aos poucos foi derretendo e no fim os dois chegaram em empate técnico.

O acirramento foi comprovado na contagem, na qual Keiko começou na frente, impulsionada pelo voto das grandes cidades. Conforme o voto do interior e das regiões mais remotas foi sendo contabilizado, Castillo foi diminuindo a vantagem, até virar o jogo. A adversária chegou, inclusive, a alegar que era vítima de fraude, mas observadores internacionais disseram que não encontraram evidências que poderiam alterar o resultado e que a eleição foi limpa.

Mesmo assim, o fato de a disputa ter sido tão apertada e as acusações de irregularidades no processo eleitoral podem causar ainda mais instabilidades no país --Castillo será o quinto a ocupar a Presidência desde 2018.

Pedro Pablo Kuczynski, conhecido como PPK, renunciou naquele ano acusando a oposição de criar um "clima ingovernável". Seu sucessor, Martín Vizcarra, foi afastado em novembro de 2020 após enfrentar dois processos de impeachment, sob a acusação de recebimento de propina, o que o enquadraria na categoria de "incapacidade moral", impedindo sua continuidade no cargo.

Na sequência, assumiu, por apenas seis dias, o congressista Manuel Merino de Lama, que renunciou depois dos episódios de violência que vieram na esteira da crise institucional. O atual líder do país, Francisco Sagasti, assumiu o governo interinamente e deve permanecer no cargo até a transição para o novo governo.

Além disso, um série de escândalos atingiu a maior parte da elite política peruana nos últimos anos. Alberto Fujimori está preso por crimes contra a humanidade, por exemplo, enquanto Keiko é investigada por corrupção e chegou a ser presa. Agora que perdeu a disputa presidencial mais uma vez --também foi derrotada no segundo turno em 2011 e 2016-- ela provavelmente será julgada pelo caso e pode ter que voltar para a prisão.

Também são investigados por corrupção envolvendo a construtora brasileira Odebrecht os ex-presidentes Alejandro Toledo (que comandou o país de 2001 a 2006 e que está detido), Ollanta Humala (mandatário de 2011 a 2016, que passou seis meses na prisão) e o próprio PPK (2016-2018). Além disso, o também ex-mandatário Alan García (1985-1990 e 2006-2011) se matou quando policiais se preparavam para prendê-lo em 2019.

Em grande parte, a sequência de escândalos ajudou a impulsionar a candidatura de Castillo, que elegeu o combate à corrupção como uma de suas bandeiras na campanha. Agora que foi eleito, porém, ele pode ter dificuldade para avançar suas propostas e, até mesmo, para se manter no cargo. Isso porque o seu partido, o Peru Livre, terá apenas 37 congressistas no Parlamento, que tem 130 cadeiras. Embora a sigla seja a maior bancada da Casa, ela não conta com votos suficiente para aprovar leis nem para impedir um processo de impeachment --são necessários 87 votos para afastar o presidente.

A segunda maior força do Legislativo, que é unicameral, será o Força Popular (de Keiko), com 24 cadeiras. O Ação Popular e o Aliança para o Progresso, ambos de direita, terão respectivamente 16 e 15 representantes. Já os esquerdistas Somos Peru e o Podemos Peru terão 5 cada um.

Assim, o novo presidente precisará do apoio de siglas rivais para aprovar seus projetos e tentar tirar o país da atual crise. O Peru tem atualmente a maior taxa de mortalidade do mundo devido à pandemia de coronavírus, com mais de 185 mil mortes em uma população de 33 milhões de habitantes. No ano passado, a situação sanitária obrigou a economia a ficar semiparalisada por mais de cem dias, o que levou a uma recessão e a uma queda do PIB de 11,12%.

Para resolver o problema, o novo presidente eleito prometeu fortalecer o papel do Estado, obter uma parcela maior dos lucros das mineradoras e nacionalizar indústrias essenciais. Ele também defende maiores salários aos empregados do setor da educação e propõe dissolver o Tribunal Constitucional e a Constituição de 1993 --segundo ele, os responsáveis por permitir a corrupção no país.

Na política externa, também tem um discurso mais à esquerda, com declarações de apoio ao regime de Nicolás Maduro na Venezuela. Cristão, Castillo muda de lado nas chamadas pautas de comportamento, adotando posições mais conservadoras. Ele é contra a ampliação de direitos para a comunidade LGBTQ --como a liberação do casamento entre pessoas do mesmo sexo--, contra o ensino da igualdade de gênero nas escolas e contra o aborto, entre outros pontos.

*

POR QUE DEMOROU PARA SAIR O RESULTADO?

- O segundo turno da eleição ocorreu em 6 de junho, disputado pelo esquerdista Pedro Castillo e pela direitista Keiko Fujimori, após um primeiro turno que teve diferença mínima entre os primeiros candidatos;

- A contagem levou até o dia 15 de junho para ser finalizada, com vitória apertada de Castillo sobre Keiko: 50,1% a 49,8%, uma diferença de cerca de 44 mil votos;

- Ao contrário do que havia prometido, a direitista não aceitou o resultado e entrou com um pedido de revisão de 300 mil votos e de anulação de outros 200 mil, o que desencadeou um processo dentro do Júri Nacional Eleitoral para analisar esse requerimento;

- A maioria dos pedidos foram invalidados principalmente por uma questão formal, já que eles foram apresentados depois do prazo. Durante esse processo, aliados de Castillo e de Keiko pressionaram o tribunal, o que atrasou os trabalhos. Uma das consequências dessa pressão foi a renúncia de um dos integrantes do JNE;

- Nesta segunda (19), o JNE anunciou que havia determinado a improcedência das cinco apelações apresentadas pelo partido de Keiko e que os resultados seriam divulgados também nesta segunda. Mesmo antes do comunicado oficial, a direitista afirmou que reconheceria a decisão do tribunal eleitoral.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos