Populista Rodolfo Hernández aposta em abordar a Colômbia como uma empresa para chegar à Presidência

Rodolfo Hernández busca a Presidência da Colômbia como fez quando se tornou prefeito de Bucaramanga: como se estivesse vendendo um projeto imobiliário. Ele é um homem com cimento na cabeça, como descreve Rubby Morales Sierra, uma mulher que trabalhou com ele e depois o denunciou por assédio no local de trabalho. Ela o descreve como implacável, com aquele tom áspero usado por pessoas que, como Hernández, nasceram em Santander, no Nordeste do país. É algo que é repetido, de outras maneiras, por seus amigos. Hernández, 77 anos, é pragmático, "um fazedor", alguém que pensa em obras, em telhas e tijolos.

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Rodrigo Fernández conheceu Rodolfo Hernández no final dos anos 70, na Sociedade de Engenheiros de Santander. Quando se lembra dessa época, não se surpreende ao ver agora o colega como um dos dois candidatos a chegar à Presidência. Se ele se deu tão bem em sua profissão e é um magnata da construção, como ele poderia não se dar bem com seu objetivo de tornar seu nome presidencial?

É que Hernández, diz seu amigo, calcula tudo como se fosse uma obra que ele quer vender. Ele traça uma meta, planeja, convence, vende, executa e dá resultados. Em seu objetivo de ser o próximo presidente, ele está na metade do caminho e lhe falta o mais importante: convencer. Isso só será conhecido neste domingo de 19 de junho, quando se realizarem as eleições, mas, por enquanto, acredita seu colega, está indo bem.

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— Na esfera pública, ele faz a mesma coisa que na construção: planeja projetos e os vende ao mercado. Ele sabe como fazê-lo no prazo e com os custos esperados. E isso, aplicado à administração pública, funciona — diz Fernández.

A evidência está nas ruas de Piedecuesta, onde nasceu em 26 de março de 1945, e nas mais de 18 mil casas que levam sua marca em Santander.

— Esta é a primeira que ele construiu, era o protótipo, que depois modificou — diz com orgulho Antonio Ortiz, apontando para algumas casas baixas em uma rua renomeada Pasaje Gómez e listando os bairros com nomes de cidades argentinas.

Palermo, Buenos Aires, Bariloche, Junín, La Rioja estão espalhadas pela cidade que Hernández vem construindo com seu estilo particular. Na sua idade e depois de fazer fortuna como construtor, decidiu concorrer à Presidência. Nem mesmo sua mãe pôde explicar o porquê.

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“Minha mãe diz que sou louco”, disse mesmo em entrevista sobre sua mãe, Cecilia Suárez, a quem atribuem o caráter impulsivo e raivoso do candidato que promove o combate à corrupção, disse admirar Hitler (embora mais tarde tenha afirmado que foi um deslize), afirmou que as mulheres devem permanecer em casa e que, uma vez que ele tomar posse, decretará um estado de comoção interna.

Mas poucos falam dele antes de se tornar o empresário bilionário que é hoje. Sua fortuna é de US$ 100 milhões. Duas de suas empresas estão na Flórida, onde ele também costuma estar. Até recentemente ele tinha cinco propriedades lá.

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Hernández é filho de uma dona de uma usina de açúcar e do alfaiate da cidade. Ele estudou engenharia civil em Bogotá e sua história como construtor começa na década de 1970, no meio do parque principal de Piedecuesta. Também há evidências de que ele pensa na Colômbia como um grande projeto imobiliário a ser construído. Um que precisa ser derrubado porque foi erguido com o “roubo dos corruptos”, como dizem.

Uma casa pré-fabricada branca de 60 metros quadrados, semelhante a um contêiner, é a porta de entrada para a proposta de Hernández para os mais pobres do país (“Trabalhe com os pobres e você ficará rico”, é uma frase atribuída a ele). O espaço é uma construção modesta, visitada por pessoas como se fossem futuros compradores. Lá dentro, um homem entrega três papéis e explica os planos urbanísticos de Hernández:

— ‘Casa, minha sorte’ é essa casa que Rodolfo propõe para as pessoas ficarem no campo. ‘Ópera’ é onde haverá um centro de serviços de saúde e culturais, e ‘Cidade Justiça’ (uma fazenda de 5.000 metros quadrados), onde pretende transferir os presos.

A 15 minutos, em uma área opulenta cercada de árvores, fica a casa de férias do candidato. Uma enorme escultura de um cachorro e um mural com o rosto de uma mulher adornam a fachada da propriedade que é guardada pela polícia.

Como Hernández disse, sem apresentar provas, que sua vida está em risco e que ele seria "esfaqueado", um grupo de agentes foi designado para cuidar da propriedade. No interior, há a cozinha de onde ele fez um discurso quando conseguiu o passe para o segundo turno.

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Rodolfo Hernández já gostava do virtual antes de virar moda com a pandemia. Seus ex-funcionários concordam que, para evitar gastos desnecessários, como viagens ou diárias, ele pediu que seus funcionários fizessem tudo online.

Junto com um de seus irmãos, fundou o movimento político Liga de Governadores Anticorrupção, cujos símbolos e princípios não se assemelham ao estilo que Hernández mostrou ao país. O número π (Pi) e o slogan "Lógica, Ética e Estética" estão presentes em todas as propagandas do candidato.

O cérebro por trás da campanha foi seu irmão e filósofo Gabriel Hernández. Com essa ideologia, Rodolfo conquistou a prefeitura de Bucaramanga em 2015. Mas alguns meses depois, seu irmão Gabriel se distanciou e até hoje o motivo é um mistério.

"Há seis anos, tomei a decisão de permanecer totalmente anônimo para controlar a arrogância e, assim, avançar em minhas análises filosóficas", respondeu por e-mail ao pedido de entrevista.

A jornalista Rubby Morales participou dessa campanha, diz que escreveu o plano de governo e agora se arrepende.

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— Rodolfo é como Jekyll e Mr. Hyde. Uma pessoa na campanha e outra na administração. Um homem inconstante e errático — diz a mulher, cuja voz ficou conhecida na Colômbia após vazar um áudio em que o então prefeito grita com ela e ameaça demiti-la.

"Eu limpo minha bunda com a Lei", Hernández é ouvido dizendo.

O engenheiro, como gosta de ser chamado, foi interrogado por distribuir "cartas cheques" entre as pessoas mais pobres da cidade e prometer que, se chegasse à Prefeitura, construiria 20 mil casas. Seu compromisso era beneficiar as pessoas de baixa renda com uma opção de moradia e fazê-lo com bons projetos porque, como gosta de dizer, “os pobres merecem o melhor”, mas não foi o caso.

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E como aconteceu com um projeto de anos atrás, também para os “pobres”, como ele repete tantas vezes, ele não cumpriu exatamente o que prometeu. Embora tivessem facilidades para comprá-las porque a própria construtora de Hernández, HG, emprestou o dinheiro, o que os beneficiários receberam estava acabado por fora, mas inacabado por dentro, sem piso e com tijolos aparentes.

A luta contra a corrupção, seu mantra

Com essa visão de negócio e ajuste, atuou no Gabinete do Prefeito, cuja maioria de seus ex-funcionários qualificam como boa gestão.

— Ele limpou as finanças e deixou um superávit no banco — lembra Ciro Gamboa.

Essa é a sua principal carta para chegar à Presidência e por isso repete o mantra de "não roube, não minta e não traia". Embora essa aposta tenha um defeito enorme. Enquanto levanta a causa anticorrupção, Hernández é acusado de suposta participação na adjudicação ilegal de um contrato. Mas este caso, que está sendo tratado pelo Ministério Público, é apenas uma pequena fração de um escândalo maior chamado Vitalogic, que envolve seu filho na cobrança de uma comissão milionária.

Um jornalista local, que prefere não se identificar, garante que com ele "Bucaramanga teve a prefeitura mais desastrosa até agora". A relação com a imprensa é tensa. Embora goste de aparecer na mídia, prefere falar apenas para quem o aplaude.

— Sua gestão era nula, aprovada exclusivamente por jornalistas que manipulavam a imagem de um velho frontman — diz o jornalista, que resume seu governo na capital do Santander como uma série de escândalos midiáticos, situações virais, palavrões e populismo, imerso em cenas que apenas procuravam despertar emoções.

Os áudios que foram conhecidos na etapa final da candidatura em que ele busca chegar à Casa de Nariño concordam com o jornalista. Hernández apareceu mais nas páginas dos jornais por seus episódios de raiva do que por seu trabalho na sede de Bucaramanga.

Um áudio vazado para a mídia é a foto de seu temperamento. Hernández diz a um subordinado para receber um documento dentro de um projeto, embora a norma exija outros. “A norma pode dizer o que quiser. A lei não importa”, grita o candidato.

Com algum humor, os jornalistas locais dizem que quando conseguiram uma entrevista com ele preferiram não se sentar tão perto, de repente ele teria um ataque e acabariam voando canetas sobre suas cabeças.

Sem a mesma graça, Jhon Claro, o vereador que recebeu o famoso tapa do prefeito, conta o episódio. Eles haviam se encontrado para conversar sobre um assunto local, mas quando Claro teve a audácia de mencionar a confusão em que o filho o meteu, e que o tem na porta de um julgamento que começa em 21 de julho, Rodolfo perdeu a calma, explodiu com raiva e bateu nele, em uma cena que foi gravada porque o próprio Hernández trouxe as câmeras.

Outro jornalista explica que há três razões para o sucesso que tem Hernández. Ele diz o que as pessoas querem ouvir, promete coisas que sabe que não pode cumprir, mas que convence as pessoas, e ele tem excelentes habilidades de mídia social. Semelhante ao que se viu desde que lançou sua candidatura presidencial: ele disse que vai acabar com a corrupção, que os colombianos que não conhecem o mar o farão sob seu governo e ele é o rei do TikTok.

A criação de um produto

Rodolfo Hernández está convencido de que será presidente e o conseguirá com 15 milhões de votos. Sua sede de campanha se chama Casa Nariño, o mesmo nome do palácio presidencial na Colômbia.

Naquela casa colonial localizada em Bucaramanga, vendem sua imagem como produto. Seus torcedores vêm em busca de bonés, camisetas e muitos outros itens publicitários. Mas eles têm que pagar. Os eleitores pagam por participar dessa marca que é Rodolfo Hernández.

— Rodolfo Hernández é um produto muito bom e nós o vendemos — disse Luisa Fernanda Olejua Pico, assessora de imprensa.

“Ele conseguiu conquistar a simpatia de seus conterrâneos”, diz Isabel Ortiz, que não sabia muito sobre ele até receber o convite para ser sua conselheira em questões de gênero. "Ele não pensa antes de falar", diz ela, que teve que enfrentar os erros do prefeito.

— Se há algo negativo a apontar sobre Rodolfo, é a sua linguagem, que se emociona rapidamente e fala sem pensar. Às vezes eu tinha que dizer a ele: Sr. prefeito, você não pode falar sobre mulheres assim, sobre profissionais do sexo. Anos se passaram e esse tipo de comentário volta a surgir — reconhece Isabel, que esclarece que nunca teve uma briga ou recebeu um insulto.

Da vida íntima de Rodolfo Hernández sabe-se o que ele quis contar. Ele é casado com Socorro Oliveros há décadas e tem quatro filhos. Dois deles foram adotados no início do casamento quando não sabiam se poderiam ser pais.

O capítulo mais misterioso está relacionado justamente a Juliana, a única mulher, que segundo as versões do pai foi sequestrada em 2004 pela guerrilha. Hernández disse que foram as FARC, depois culpou o ELN. Nos últimos dias, ela garantiu que foi assassinada, embora seu corpo nunca tenha sido encontrado. É um assunto ao qual às vezes responde com lágrimas e outras com risos, como na entrevista que deu esta semana em Miami ao jornalista Jaime Bayly.

Rodolfo Hernández se posicionou como um produto, como o candidato que veio para preencher um vazio no mercado político, e reunir em sua voz o cansaço dos colombianos com a tradicional classe dominante da qual Hernández se apresenta como um outsider, mas sua carreira o mostra mais como um construtor com o desejo de fazer da Colômbia seu projeto empresarial.

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