'Por causa do estresse, meu corpo está tomado de feridas', diz vítima que acusa Lojas Renner de racismo

Era para ser só uma ida a um centro comercial com o propósito de comprar roupa para ir a uma festa. No entanto, o passeio da secretária Awdrey Ribeiro, de 21 anos, na tarde de sábado, dia 12, terminou em constrangimento e indignação na Lojas Renner do Madureira Shopping, após uma segurança insinuar que ela havia roubado um casaco. Ao narrar a situação, a vítima acusa a funcionária e o estabelecimento de racismo e diz que o estresse do caso desencadeou feridas em seu corpo. O caso foi registrado como calúnia na 29ª DP, em Madureira.

— Cheguei ao shopping, entrei na Renner, peguei um top e estava indo até o provador para experimentar, quando, de repente, uma segurança tomou minha frente, me deu um empurrão para dentro da cabine do provador, gritou comigo, pedindo: "Me devolve tudo que você pegou" e dizendo que eu tinha roubado um casado. Eu disse que não tinha roubado nada. Não satisfeita, ela puxou minha bolsa, mexeu e pegou um casaco verde. Quando ela olhou a etiqueta, viu que era da Redley. Como vou roubar um casaco antigo e de outra marca? Quando ela viu que a peça não era da loja e que outros clientes estavam filmando o tratamento grosseiro e preconceito dela, ela mudou totalmente o tom, alegando que só tinha ido entregar a ficha com o número de roupas que eu estava levando para o provador, mas eu já tinha essa ficha, dizendo que eu só tinha uma peça — conta Awdrey.

Ela relata que, em meio ao constrangimento, percebeu que estava sendo vítima de racismo:

— Tinha pessoas brancas com a bolsa do mesmo tamanho da minha, mas a segurança só veio até mim. Acredito que pela cor da minha pele. Eu sou negra, assim como minha mãe e minha tia, que estavam comigo. Na delegacia, a segurança mudou o depoimento quatro vezes; cada hora, contava uma versão diferente. Infelizmente, o caso acabou sendo registrado apenas como constrangimento, não como racismo.

No dia seguinte ao episódio, o abalo emocional de Awdrey já dava sinais em sua própria pele.

— Eu sofro de uma doença autoimune, a psoríase, que causa feridas na pele. Por conta do estresse, elas se agravaram; meu corpo está tomado por essas lesões, vermelhas e em carne viva — lamenta. — Eu nunca pensei que iria passar por isso. Na hora, fiquei muito nervosa e passei mal; até todo entender a situação, todos me olhavam como se eu estivesse errada. Hoje, quando relembro, sinto indignação, porque acho que nada justifica o que ela fez; foi totalmente agressiva, mal educada e preconceituosa.

Procurada pelo GLOBO, a empresa classificou o episódio como "inaceitável" e informou que a funcionária que fez a abordagem "já não faz mais parte do quadro de colaboradores da companhia". Disse ainda que a "abordagem realizada foi totalmente inadequada e não está alinhada aos valores da Lojas Renner".

A Polícia Militar foi chamada ao local da ocorrência. Em nota, a PMERJ afirmou que "as partes foram conduzidas para a delegacia". A Polícia Civil disse que "os agentes ouvem testemunhas e realizam outras diligências para esclarecer as circunstâncias do fato."