Por dentro do 'mal-assombrado' Palacete Bibi Costa: vídeo mostra, pela primeira vez, celas do porão onde ficavam pessoas escravizadas no Pará

Com exceção do vigia, o Palace Bibi Costa, no Pará, joia da Belle Époque, fica fechado e sua aparência arrepiante condiz com a lenda de que a construção é mal-assombrada. Uma equipe do GLOBO entrou no imóvel que está ameaçado de ruir e, pela primeira vez, é possível ver as celas no porão onde, de acordo com registros da época, pessoas, que trabalhavam para famílias abastadas do estado, eram mantidas em cativeiro.São pequenos cômodos, com grades, onde eram mantidos mais de um empregado, que permanecia escravizado mesmo após a abolição.

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As paredes de azulejos brancos estão encardidas e, dali, sai parte da história trágica de um passado de escravidão e abusos que alimenta a crença de que o "castelinho", construído entre 1904 e 1906, está tomado de almas penadas. Tombado pelo patrimônio histórico, a edificação corre risco de colapso, devido à falta de investimentos em manutenção e do medo de ocupá-la tanto pela iniciativa privada quanto por repartições públicas. São inúmeros os relatos de servidores que morreram quando ali trabalhavam.

O imponente Bibi é tratado como sucata. A fachada em estilo eclético, com elementos da arquitetura neoclássica, barroca e rococó, foi arruinada pelo tempo. Um laudo técnico a que O GLOBO teve acesso aponta risco de colapso. Na visita da reportagem ao prédio, foi possível ver não só as partes da construção que causam mais "assombro", mas também o abandono e a destruição do piso de madeira acapu e pau-amarelo e os lustres de cristais franceses corroídos pela oxidação. Sem cuidados, as escadarias de madeira rangem, e no terceiro pavimento, parte do forro do teto desabou. Os vitrais estão quebrados, e o sótão virou moradia de morcegos.

O Bibi tem 1.500 m² de área construída. No porão, pessoas teriam sido mantidas escravizadas, mesmo após a abolição em 1888. Lá, nas profundezas da construção, as almas dos mortos vítimas de trabalhos forçados teriam assombrado antigos funcionários de repartições públicas, que ouviam gritos e o barulho de grilhões de elevadores acionados como por mágica.

O imaginário popular envolve e, de certa forma, conduz os destinos do patrimônio histórico da cidade. Encravada na Região Amazônica, a Belém da Belle époque teve seu apogeu entre 1890 e 1920, com seus prédios luxuosos de influência europeia, no rastro do comércio da borracha e do processo de industrialização iniciado na Inglaterra. O Iphan lista 2,8 mil construções protegidas no Centro Histórico, entre palácios e palacetes.

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A professora Andreza Vieira, que trabalhou no prédio em 1999, na então Secretaria de Planejamento do Pará, diz que sua mesa ficava no setor de informática, exatamente onde no passado ficava o calabouço. Há duas semanas, ela voltou ao antigo endereço e lembrou que, certa vez, ao ficar sozinha após o expediente, ouviu, por volta das 22h, as portas do porão se fecharem. O vigia estava longe, do lado de fora.

— Eu saí correndo — lembra ela, que chegou a ter pesadelos com pessoas acorrentadas tentando alertá-la sobre um perigo iminente no palacete.

No ano seguinte, houve um incêndio. Andreza pediu demissão e nunca mais pisou na antiga casa senhorial. Uma série de mortes misteriosas ronda o Bibi, visto como amaldiçoado. Em 1974, Apolinário, ex-funcionário do extinto Departamento Nacional de Portos e Vias Navegáveis, teria ouvido súplicas vindas do porão, onde funcionava a cozinha do órgão. Apolinário se encorajou e foi até lá. Deparou-se com um homem com cicatrizes de escarificação, queimaduras a ferro quente e com as pernas presas a pedaços de correntes enferrujadas. Pedia para ser libertado.

Apolinário saiu tão desnorteado dali que foi atropelado por um ônibus. Tudo isso teria sido contado pelo próprio a amigos e parentes no hospital, antes de morrer semanas depois, vítima de traumatismo craniano.

Das duas fachadas, a mais nobre é voltada para a Avenida Governador José Malcher, 1.044, no bairro de Nazaré, por onde chegavam os convivas de bailes e saraus. Ainda é possível visualizar as belezas de outrora nas torres, nas balaustradas das varandas e no telhado com beirais de mãos francesas delicadamente esculpidas. Na entrada, há uma escultura de bronze de uma ninfa.

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Elevador anda sozinho

Atualmente, o funéreo de ilustres frequentadores embaça o esplendor e afugenta a população. Aos 54 anos, o então secretário de Planejamento do Pará, Amílcar Alves Tupiassú, liderava uma equipe de 100 pessoas no principal gabinete do Palacete Bibi e, logo no primeiro ano da gestão, era bombardeado por queixas de funcionários assustados. O elevador dispararia sem ser acionado. Mesmo sem dar muito crédito, ele desligou o maquinário e pôs um móvel na porta do equipamento. À noite, o elevador deu sinal de vida, destruiu o obstáculo de madeira e seguiu rumo ao porão. “Aos costumes”, dizem os que presenciaram o fenômeno. Em 5 de novembro de 1989, Tupiassú sofreu um ataque cardíaco e morreu na sala de casa.

No ano passado, Fernando Sampaio, sobrinho de Tupiassú, viralizou nas redes sociais replicando as lembranças da própria avó sobre o endereço que teria matado o tio e outros dois secretários de estado. A matriarca, até morrer, “falava e jurava, entre lágrimas, para todo mundo ouvir, que os espíritos do Palacete Bibi tinham matado o filho dela”.

A paranormal Joana Dilma Santana de Acácio, de 67 anos, perdeu dois amigos que davam expediente no palacete na década de 1980. Ela conta que ambos falavam de visagens — alma penada, em bom “paraês” — e tiveram mortes misteriosas. Um se matou e o outro teve um AVC repentino. A reportagem acompanhou Joana com um kit de radiestesia — uma vareta com um pêndulo na ponta — para medir a atmosfera espiritual de lá:

— É uma vibração pesada. Senti algo tão forte que quase desmaiei — diz Joana.

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— Não acredito que o local seja mal-assombrado. Nunca recebemos queixa — garante Carlos Libonati Machado, superintendente do Patrimônio da União no Pará.

O prédio foi construído pelo engenheiro Francisco Bolonha a pedido do major Carlos Brício da Costa, figurão da alta sociedade paraense conhecido como Bibi Costa. A família chegou a hospedar o presidente da República Afonso Pena, que, da sacada, fez um discurso histórico. Tanto o presidente quanto o major morreram em 1909, três anos após a inauguração do Bibi. A última repartição que ocupou o lugar nos anos 1980 foi a Administração Hidroviária da Amazônia Oriental. Na pressa, ao saírem, os funcionários deixaram para trás caixas de contratos.

A Secretaria de Cultura do Pará negocia com a União para transformar o bem tombado em museu ou biblioteca. As tratativas ficaram travadas na gestão de Jair Bolsonaro.

*Especial para O GLOBO