Por determinação da Justiça, Colégio Pedro II volta às aulas presenciais: pais e alunos criticam modelo

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RIO — Estudante do 2º ano do ensino médio do Colégio Pedro II, Clarice Almeida, de 17 anos, decidiu repetir de ano e cursar novamente a série em 2022. A medida foi tomada porque, na avaliação da jovem, o atual ano letivo ficou comprometido. A unidade volta às aulas presenciais nesta segunda-feira, mas, para muitos pais e alunos, o retorno é apenas um paliativo para cumprir a determinação judicial do desembargador federal Marcelo Pereira da Silva, do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF2), que obrigou o Colégio Pedro II e mais sete unidades de ensino da rede federal a retornarem com o ensino presencial com 100% da capacidade ainda este ano.

As aulas serão presenciais a cada 15 dias. Como o recesso escolar começa dia 23 de dezembro, muitos alunos vão ter apenas dois encontros presenciais este ano.

— Decidi repetir para fazer o 2º e o 3º anos de forma presencial. Praticamente, perdi o 1º ano porque fiz ele on-line no primeiro semestre deste ano. Eram duas matérias por dia, 1h30 de uma matéria e 30 minutos em outra. Biologia, por exemplo, era quinzenal. pra mim, foi um ano de atraso — avalia Clarice.

A jovem fez a prova do Enem, neste domingo, apenas como experiencia, mas disse que estudou por conta própria:

— Fiquei inconformada porque foi uma decisão irresponsável da reitoria. Entrei no colégio ano passado, passei no concurso para estar ali. Ter ensino fragmentado quando uma pessoa passa num concurso é frustrante. As aulas não foram suficientes. Foi ensino muito corrido. A gente mal tinha tempo de tirar dúvida com professores. Nossa aprovação está sendo praticamente automática.

O aluno João Lucas Alves, de 18 anos, que cursa o 3º ano do ensino médio, lamenta o formato adotado pela reitoria para o retorno híbrido. Segundo ele, pelo cronograma da escola, sua turma só terá duas aulas presenciais neste ano, uma na semana que vem e outra em dezembro. Ele também pensa em repetir o ultimo ano do ensino médio.

— Estava muito ansioso para esse retorno, mas fiquei decepcionado. Eles não estão cumprindo a decisão judicial. Acreditava que as aulas síncronas passariam a ser presenciais, mas nem isso. Só irei à escola duas vezes neste ano. Estou indo fazer a prova do Enem e não me sinto preparado da forma que gostaria. Com certeza haverá uma disparidade de acesso aos cursos mais concorridos. Se não conseguir notas para os cursos que almejo, vou repetir o terceiro ano que vem. Não tenho como sair da escola e pagar um curso preparatório — diz.

As regras para o retorno presencial na unidade foram aprovadas pelo Conselho Superior do colégio e são válidas até o final do ano. A volta será opcional aos estudantes e, para entrar nas unidades, é preciso apresentar a carteira de vacinação para todos que tenham sido contemplados pelo calendário.

Ao todo, serão cinco semanas de atividades presenciais até 23 de dezembro, inicio do recesso escolar. A resolução com as regras foi assinada pelo reitor Oscar Halac e prevê o atendimento de 20% do quantitativo de turmas por turno, não podendo superar o limite de 50% de estudantes dessas turmas.

As diretrizes preveem ainda que a permanência dos estudantes, em cada dia, será de até três horas, sendo no máximo de 40 minutos por tempo de atividade. As atividades presenciais, segundo a resolução, irão ocorrer no contraturno para não inviabilizar as atividades remotas. Naquelas que não podem ser feitas desta forma é preciso “integralidade das atividades remotas, síncronas e assíncronas”.

“O presencial será uma complementação pedagógica organizada a fim de fazer a companhamento/orientação, não prejudicando quem não opte pelo retorno presencial.”, diz trecho da resolução.

Pai de dois alunos na instituição, o desenvolvedor de sistemas Lindenberg Feitosa Venancio, de 44 anos, critica a forma como o retorno acontecerá. Ele disse que seus filhos, Ayrton, de 17 anos e aluno do 2º ano do ensino médio, e Giovanni, de 14, que cursa o 7º ano fundamental, já realizam atividades no contraturno escolar:

— Minha visão é de que isso só foi feito para dar resposta à ordem do desembargador. Uma aula a cada 15 dias para mim é irrelevante. Sendo aulas no contraturno, vou ter que fazer malabarismo para lidar com outras atividades dos meus filhos. O mais velho faz inglês, o mais novo faz tratamento ortopédico.

Por determinação judicial, a escola deveria retornar com 100% das atividades presenciais. Lindenberg afirmou que a unidade resistiu em começar com aulas on-line e resiste para voltar ao presencial.

— O colégio foi resistente em entrar no modo on-line. Antes, não era interessante. Eles tinham uma série de argumentos esdrúxulos para não entrarem no ensino on-line. Agora esse modelo passou a ser tão bom que não querem sair. Você olha a cidade do Rio, tem jogo no Maracanã, shopping lotado, número de casos e internações em em baixa. Não tem motivo para não retornar pelo menos com 50% da capacidade — ressalta Lindenberg.

Procurada, a reitoria do Pedro II não se pronunciou.

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