Por falta de respiradores, Crivella admite que hospital do Riocentro pode ser inaugurado de forma parcial

Luiz Ernesto Magalhães
O prefeito Marcelo Crivella durante coletiva nesta segunda-feira

RIO — O prefeito Marcelo Crivella admitiu nesta segunda-feira que o hospital de campanha do Riocentro pode ser inaugurado apenas parcialmente no próximo dia 1º, com 110 dos 500 leitos (cem comuns e dez de UTI) devido à falta de respiradores para atender aos casos mais graves. Os equipamentos empregados seriam modelos já existentes na rede porque a chegada dos equipamentos da China pode atrasar.

Segundo Crivella, o prazo para entrega dos equipamentos está sendo revisto porque a prefeitura teve que arrendar duas aeronaves da TAM por um total de cerca de 800 mil dólares (cerca de R$ 4,4 milhões) depois de não conseguir uma “carona’’ em aeronaves da Vale do Rio Doce para trazer com mais antecedência uma parte dos equipamentos — 20 respiradores e 40 monitores. As aeronaves segundo o prefeito, só estariam disponíveis na próxima sexta-feira, dia 1º de maio, data que o prefeito estimara para a abertura do hospital.

— Dia 1º, a gente abre. Temos equipamentos que estão sendo usados para treinamento de equipes. Mas com um quinto da nossa capacidade — disse o prefeito.

O hospital de campanha do Riocentro, cujas obras físicas terminaram na semana passada, foi projetado com 500 leitos — 400 de enfermagem e cem de UTI. Crivella argumenta que sem os respiradores não pode abir sequer os leitos convencionais devido ao risco de não ter respiradores caso o estado de saúde de algum paciente se agrave.

— Qual a fórmula que os médicos adotam. É uma proporção de um leito de CTI para cada dez leitos convencionais. Se eu tiver dez respiradores posso abrir cem leitos de enfermaria. Se eu tiver mais dez respiradores, posso abrir mais cem. Para o Riocentro eu precisaria de 40 respiradores.

Na saga para trazer cerca de 160 toneladas de equipamentos, inclusive 300 respiradores, 400 monitores e 70 carrinhos de anestesia da China, as aeronaves vão rodar o planeta para evitar escalas em países que possam requisitar os aparelhos para tratar os próprios pacientes. A rota, segundo o prefeito, foi acertada com o Ministério das Relações Exteriores. De Guarulhos, em São Paulo, os aviões farão escala em Amsterdam, na Holanda, antes de chegar a Guangzhou, na China. Da China, seguirão para uma escala em Auckland, na Nova Zelândia. Depois, as aeronaves param em Santiago, no Chile, antes de chegarem ao Rio.

Além do hospital de campanha, parte desses equipamentos importados da China permitirá a abertura de mais leitos no Hospital Ronaldo Gazolla (Acari), transformando em unidade de referência para tratar pacientes de Covid-19. Ao todo, a prefeitura espera contar com 183 leitos de UTI de adultos e UTI 18 infantis; e outros 180 de enfermaria. Hoje, segundo o prefeito, já estão montados quase cem leitos de UTI.

Parte dos insumos esperados para a semana passada não chegaram. No fim do ano passado, a prefeitura comprou 80 respiradores da empresa Magnamed, de São Paulo, que venceu uma das licitações da Secretaria municipal de Saúde para renovar o parque tecnológico dos hospitais. Diante da dificuldade de conseguir os aparelhos, a prefeitura entrou na Justiça para que a empresa fornecesse os equipamentos. A Magnamed, por sua vez, diz que o prazo de 60 dias para que o município exercesse sua opção de compra venceu em fevereiro e não tem os aparelhos para fornecer. E disse que não é mais obrigada a fornecer os equipamentos, e a prioridade é atender a demandas do Ministério da Saúde.

Crivella disse que todos os leitos do Riocentro podem ser abertos se conseguir os equipamentos de outra forma. Ele lembrou que a rede SUS deverá ter até mil leitos de UTI para coronavírus contando a rede conveniada, estado e rede federal:

— Nós continuamos na luta para ter os 80 respiradores que foram comprados no ano passado na Magnamed. Estamos em contato com a Justiça do Rio para conseguir uma sentença a favor da prefeitura. A alternativa é um acordo com o Ministério da Saúde, já que o governo federal tem equipamentos. Se conseguir esse milagre, com 40 aparelhos, abro o Riocentro.

Em meio ao impasse, Crivella anunciou que está instalando tomógrafo nas proximidades das UPAs da Cidade de Deus e da Rocinha para auxiliarem no diagnóstico do Covid-19. O primeiro aparelho próximo à estação do Metrô de São Conrado enquanto que na Cidade de Deus nas imediações de uma escola da prefeitura. Outros aparelhos estão sendo montados nas policlínicas de Del Castilho, de Bangu. Também será instalado um aparelho em apoio a unidades em Santa Cruz.

— Os tomógrafos serão fundamentais para que nossos médicos possam diagnosticar o Covid-19 precocemente. E fazer o tratamento. São equipamentos com 128 canais que dão o resultado rapidamente. Poderemos fazer mais de 100 exames por dia. A doença diagnosticada no início permite que as pessoas sejam tratada e recuperadas — disse Crivella

Diante do impasse de falta de equipamentos para abrir mais leitos previstos, o prefeito não descarta prorrogar a quarentena na cidade. O prazo para as escolas e parte do comércio do Rio permanecerem fechados vence na quinta-feira. Ele, no entanto, preferiu não adiantar se isso de fato acontecerá:

— O cenário muda. Nós temos dois gabinetes. O gabinete de crise e o gabinete científico para que as decisões sejam por unanimidade. No gabinete científico existe uma unamidade: aguardar as curvas de internação e de óbitos diminuírem. Se as curvas não caírem, não tem data para abrir. Para cair a curva, isso depende da abertura de mais leitos de UTI na cidade. Hoje temos pouco mais de cem na cidade. No Gazolla, no CER Leblon, Pedro II e no Albert Schweitezer — explicou Marcelo Crivella.

O prefeito não descarta também multar pessoas que saiam às ruas sem máscaras, mas essa seria um solução extrema. O uso do acessório passou a ser obrigatório desde a quinta-feira passada. No entanto, ele diz que vai insistir em um trabalho educativo. Para isso vai orientar o comércio e motoristas de ônibus a não permitir a entrada em lojas ou no transporte público de pessoas sem máscara. Há semanas, a prefeitura já havia feito, sem sucesso, um apelo para os rodoviários não permitirem que pessoas viajassem nos coletivos a pé, para evitar aglomerações e o risco de facilitar a propagação do vírus.

— Essa medida (multar pessoas físicas) tem que ser estudada. E evitada ao máximo. Hoje estamos pensando em dar cesta básica, esperança, leitos. Ficaria arrasado se tivesse que dar multas. Multar para pedir por favor cuide de sua vida. Não custa nada colocar máscara e se cuidar.

Sobre a instalação de containeres refrigerados para corpos em parte dos hospitais, o prefeito disse que o emprego dos aparelhos foi excepcional no fim de semana e espera não ser necessário utilizá-los. Esta tarde, porém, fotógrafo do GLOBO flagrou quando um corpo era retirado do Evandro Freire. Segundo a família, o paciente sequer tinha tido coronavírus: morrera de infarto.

O prefeito argumentou que, na média, não se pode considerar que ocorreu um aumento considerável de óbitos no Rio.

— Ainda não é o momento da gente se preocupar. No fim de semana, por falta de resolução da coordenação de controle de cemitérios tivemos problemas. Havia pessoas sem identificação de familiares e moradores de rua. Com isso se acumularam corpos no Gazolla e tivemos problemas. Podemos até usar, mas não nesse momento. Estamos tendo menos falecimento todos os dias que em situações normais. Mas os hospitais estão ocupados e contrataram containeres por prevenção.

E Crivella prosseguiu:

—  Nesse momento não é uma realidade (usar os contâninrres). E esperamos que as medidas sejam obedecidas para que os óbitos não aumentem. Todos os anos nascem 80 mil pessoas e morrem 50 mil na cidade. Se fizer as contas, vai ver que morrem 140 pessoas por dia. Dessas 140 por dia, 20 são por trauma e violência, que caíram muito. Por outro lado temos de oito a dez morte por dia pelo Covid, em sua maioria por comorbidade.

O prefeito disse ainda criar ‘’janelas’’ de horários de funcionamento para armarinhos e estabelecimentos similares reabrirem as portas. O objetivo seria permitir que costureiras tivessem acesso a insumos como pano, agulha e linha para fazer máscaras. Se confirmada a medida, seria mais uma flexibilização da quarentena. Em atos anteriores, o prefeito já autorizara a reabertura de lojas de materiais de construção além de quiosques da orla e lojas de conveniência de postos de gasolina. No caso dos quiosques e das lojas, não pode haver consumo no local, mas a medida está sendo descumprida. Principamlente nos quiosques.

— A demanda por máscaras cresceu muito. E as pessoas, quando não estão usando máscaras, ao serem abordadas dizem ter dificuldades de encontrar para vender. A prefeitura está doando máscaras. Mas para 6,5 milhões de habitantes é preciso conversar com o setor para estabelecer uma janela de funcionamento para que as costureiras possam comprar.

Crivella disse também que está costurando um acordo com a Vigilância Sanitária e a Procuradoria-Geral do Muncípio e os comerciantes para permtir que as feiras livres voltem a funcionar. Desde quinta-feira passada, esse tipo de atividade foi suspensa por dez dias como forma de evitar aglomerações.