Por preferir jogar bola a ser sex symbol, primeira craque da Seleção Brasileira foi apagada da história

Sisleide Lima, a Sissi, que defendeu as cores do Brasil de 1988 a 2000, mas foi propositalmente apagada da história por preferir jogar bola a se tornar um símbolo sexual. (Getty Images)

Por Stephanie Calazans

Nossa gênia do futebol, a atacante Marta, é conhecida e reconhecida não só no Brasil, como no mundo. O que muita gente não sabe, porém, é que antes da nossa atual camisa 10, tivemos na primeira equipe feminina da história da Seleção Brasileira uma meia-campista que driblava, assistia e balançava as redes como ninguém: Sisleide Lima, a Sissi, que defendeu as cores do Brasil de 1988 a 2000, mas foi propositalmente apagada da história por preferir jogar bola a se tornar um símbolo sexual.

Nossa primeira craque do futebol nasceu em Esplanada, uma pequena cidade do nordeste baiano e, diferentemente, da maioria das meninas da sua idade, em vez de brincar de bonecas, arrancava as cabeças delas para usar como bola. Foi assim que ela aprendeu desde cedo a enfrentar e driblar o preconceito de que mulher não sabia, nem poderia, jogar futebol.

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Porém, Sissi não conseguiu vencer o machismo social que simplesmente sumiu com suas conquistas por conta de uma atitude da então camisa 10 – que nada tem a ver com qualidade técnica ou polêmicas futebolísticas, mas com uma escolha pessoal de raspar o cabelo.

Em 1999, com a carreira descolando e com o título de artilheira da Copa do Mundo daquele ano (com sete gols), Sissi prometeu que rasparia os cabelos caso a Seleção alcançasse um bom resultado na competição – e teve que cumprir, já que o Brasil conquistou um histórico terceiro lugar. O que nossa atacante não imaginava era que, ao fazer um sacrifício pessoal em uma simbólica homenagem nacionalista, a mesma sociedade que ela defendeu, viraria as costas para ela.

Em um país em que por muitos anos as mulheres foram vistas e qualificadas apenas por seus atributos físicos, uma gênia da bola nos pés sofreu preconceitos não só da sociedade, mas da própria CBF, que começou a invisibilizá-la de forma sutil, passando a selecionar jogadoras mais “femininas” para dar entrevistas, por exemplo.

Em 2000, porém, quando foi defender os Estados Unidos, Sissi passou por uma experiência que novamente lhe mostrou que não era ela quem estava errada por usar o “ousado” corte de cabelo.

A pedido de uma dirigente do clube pelo qual atuava, Sissi foi visitar um garoto que sofria de câncer e passava por situações de bullying por ser careca. Quando o menino perdeu a batalha para a doença, a camisa 10 decidiu que iria usar o cabelo de forma permanente.

Sisleide Lima, a Sissi, que defendeu as cores do Brasil de 1988 a 2000, mas foi propositalmente apagada da história por preferir jogar bola a se tornar um símbolo sexual. (Getty Images)

O corte combinava com a personalidade forte da dribladora que desde sempre enfrentou a CBF e cobrou recompensas à altura do trabalho que cumpria de forma inquestionável. A artilheira da Seleção de 1999, e também artilheira do Campeonato Sul-Americano daquele ano com 12 gols anotados, porém, precisou passar por situações nada confortáveis ao longo da carreira. Em uma determinada ocasião, Sissi se viu coagida a fazer uma sessão de fotos para uma revista, tendo que usar maquiagem e roupas incômodas para realizar o trabalho. Depois disso, ela perdeu diversos outros trabalhos por decidir que nunca mais iria aceitar se colocar em uma posição desconfortável apenas para agradar aos olhos alheios.

Pode parecer exagero, mas a escolha de Sissi – que deveria ser pessoal – era literalmente contra as regras. Isso porque em 2001, em um passado nada distante, a beleza foi literalmente inserida no regulamento do Campeonato Paulista de futebol feminino. Pela regra, devia-se “enaltecer a beleza e sensualidade das jogadoras para atrair o público masculino”.

Já que a primeira craque que a Seleção teve a honra de possuir em seu elenco teve sua história apagada, nós vamos contar tudo sobre ela agora. Sissi vestiu as cores do São Paulo entre 1997 e 2000 e, com o Tricolor Paulista, conquistou tudo que disputou: inclusive dois títulos paulistas e uma taça do Brasileirão. Em uma cena histórica, a torcida do Tricolor chegou a gritar para o então técnico do time masculino Muricy Ramalho: “Ei, Muricy, coloca a Sissi!”.

Pela Seleção, ela foi a 10 no primeiro Mundial Feminino, em 1988, além de representar nosso país nas Copas de 1995 e de 1999, e nas Olimpíadas de 1996 e 2000. A artilheira da canhota potente possui três títulos sul-americanos, um terceiro lugar no Mundial e dois quartos lugares nos Jogos Olímpicos. Todos esses feitos foram realizados em uma época em que o futebol feminino praticamente não tinha incentivo nenhum. Não é à toa que, recentemente, em 2017, Sissi foi considerada pela Federação Internacional de História e Estatística do Futebol (IFFHS) a quinta maior jogadora do século!

Vale lembrar que, justamente pela falta de investimento no esporte feminino, as jogadoras que vestiam a camisa da Seleção junto com Sissi, fizeram história não por dinheiro e nem por fama (já que isso era fora de cogitação), mas puramente por amor – ao esporte e ao país.

Hoje, nossa eterna camisa 10 é técnica de uma equipe de futebol feminino de base, o Las Positas College Women's, em Livermore, Califórnia, Estados Unidos. Ela – que nunca teve sequer um jogo de despedida – está agora na França para acompanhar a Copa do Mundo, porém por escolha própria, e não a convite da CBF. Sissi quase não tem contato com a atual seleção e ainda não teve a oportunidade de contar para as jogadoras que foi ela quem abriu as portas para o esporte ser o que é hoje, fruto de toda a história que ajudou a construir.

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