Por que é tão grave para a Rússia que a Ucrânia tenha o mapa da Crimeia no uniforme de sua seleção

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A tensão entre Ucrânia e Rússia pelo território da Crimeia, efervescente desde 2014, voltou a esquentar neste domingo. Desta vez, o palco foi o futebol, mais especificamente a seleção ucraniana. A nova camisa da equipe treinada pelo ídolo Andriy Shevchenko, divulgada pelo presidente da federação, Andrii Pavelko, apresenta o mapa do território anexado ao da Ucrânia, insinuação que irritou autoridades russas, cuja nação ocupa atualmente a Crimeia.

— É uma tentativa de criar uma ilusão do impossível — criticou Maria Zakharova, porta-voz do ministério das relações exteriores da Rússia. Segundo Zakharova, a camisa "anexa o território da Ucrânia" à "Crimeia russa".

Em sua postagem, Pavelko já havia sido direto sobre o novo detalhe da camisa.

— Esse é o desenho mais válido do nosso país para todos nós. Um único e indivísvel território continental com Crimeia, Donetsk, Luhansk, Kiev, minha terra natal Dnipro, Lviv, Odessa e todas as cidades e vilarejos onde a principal melodia das nossas memórias de infância é o hino nacional — escreveu.

No meio da tensão está a Uefa. Sempre ativa para tentar evitar confrontos geopolíticos em suas competições e cobrada por sanções por parte da Rússia, a confederação afirmou à imprensa europeia que a blusa foi aprovada. "Está de acordo com os regulamentos de uniformes", diz trecho da nota sucinta da entidade.

Rússia e Ucrânia travam longa batalha militar pelo território da Crimeia, ocupado por militares russos desde 2014. No auge do conflito, o Shakhtar Donetsk, um dos principais clubes ucranianos, teve que abandonar seu estádio, a Donbass Arena, que fica na região de conflito de Donbas e chegou a ser alvo de bombardeios.

'Mexe com o imaginário', diz professor

Cientista político e professor de relações internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Maurício Santoro explica que a Crimeia foi conquistada pelos russos em meio a várias guerras, contra reinos muçulmanos, otomanos e os cossacos. A cessão simbólica do território à Ucrânia durante o governo de Nikita Kruschev, na Guerra Fria — quando Rússia e Ucrânia faziam parte da União Soviética — nunca caiu bem entre os russos, o que décadas depois levaria às atuais tensões.

— É um símbolo nacional muito forte. Mexe muito com o imaginário, com essas disputas — afirma.

Maurício esclarece que o território — uma península com acesso ao Mar Negro e uma ponte terrestre para a Rússia — tem vínculos culturais, religiosos e linguísticos com os russos, além de ser visto como estratégico do ponto de vista militar. Mas como uma amálgama moderna, a discussão entre eles e os ucranianos é válida.

— A ocupação foi um choque para a Europa e para o mundo inteiro. Você voltar a ter fronteiras sendo definidas por poderio militar e não por negociações diplomáticas, isso era uma coisa que tinha quase saído da prática da política internacional — diz.

Não é novidade no futebol

Também em 2014, uma partida entre Albânia e Sérvia terminou em confusão após um drone ressaltando a autonomia da Albânia pairar sobre o gramado da Partizan Arena, na Sérvia. A tensão entre os dois povos, originada em disputa por territórios, eclodiu e a partida acabou em briga generalizada envolvendo jogadores e torcedores sérvio. De lá para cá, não houve episódio tão violento quanto aquele, mas tanto a Fifa, quanto as federações europeias apertaram a fiscalização de segurança em partidas que envolvam tensões do gênero.

— O esporte pode, em alguns momentos, promover o diálogo entre culturas, entre adversários. Mas, nos últimos anos, eu diria que ele está sendo mais uma arena desses conflitos e não efetivamente um instrumento de apaziguamento — avalia Santoro.

Ele lembra episódios como os gols de Maradona sobre a Inglaterra na Copa do Mundo de 1986, em meio a um vazio diplomático entre os países por conta da Guerra das Malvinas quatro anos antes. Aquela foi outra disputa por território que respingou no sentimento do povo argentino com sua seleção, campeã daquele Mundial.

— O esporte é um mecanismo de nacionalismo muito poderoso. No Brasil, a camisa da seleção brasileira virou um instrumento de manifestações políticas. Passou a ter uma carga ideológica muito grande, uma coisa que talvez não fosse tão presente no passado — diz Santoro.

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