Por que a Arábia Saudita é a ditadura mais radical do mundo e raramente ganha as manchetes

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Um dos países culturalmente mais fechados e intolerantes do mundo. Um lugar onde a religião islâmica fundamentalista comanda as ações e dita leis, regulamentos, comportamentos e até influencia diretamente no modo de se vestir, se alimentar, se informar e se divertir. Um país onde as mulheres tem poucos ou quase nenhum direito a não ser serem completamente submissas à influência dos homens. Assim é o Reino da Arábia Saudita, o segundo maior país muçulmano do mundo.

Berço do Islã, o reino que ocupa toda a região conhecida como Península Arábica, no Oriente Médio, possui as duas cidades mais sagradas para a fé muçulmana: Meca e Medina. No território de cerca de 2,5 milhões de Km², vivem cerca de 29 milhões de habitantes. A economia saudita tem como base fundamental a produção de petróleo, o país é atualmente o segundo maior produtor da mercadoria no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Cerca de 90% das exportações e 75% das receitas orçamentárias provem da indústria petrolífera.

Mas porque na porção ocidental do mundo, que tanto valoriza a democracia e a liberdade de expressão, raramente as manchetes sobre o que acontece na península arábica ganham proporções maiores? Há vários motivos para isso, embora não justifiquem o pouco (ou nenhum) interesse que a imprensa ocidental tem sobre o reino saudita. Um dos principais motivos talvez seja a extrema dificuldade de se conseguir informações confiáveis. Não é fácil para jornalistas estrangeiros trabalharem dentro do país devido a restrições a tudo.

Não é permitido, por exemplo, fotografar prédios públicos, instalações militares, educacionais ou religiosas. Aos jornalistas estrangeiros o acesso a qualquer informação é muito difícil. No Ranking mundial de liberdade de imprensa, divulgado pela ONG Repórteres Sem Fronteiras em abril deste ano, o país figura na posição 165 entre 180 países pesquisados. Um dos piores lugares do mundo para um jornalista trabalhar. Mesmo jornalistas locais que se divulgaram informações internas sobre a vida na região sofreram intimidação, prisão entre outras punições.

A Arábia Saudita é o único país do mundo que utiliza um livro religioso como constituição. O Alcorão, livro sagrado do islamismo, é a base das leis do governo e a Sharia, conjunto de leis baseadas no Alcorão, rege os comportamentos, direitos e deveres dos cidadãos sauditas. A religião oficial, como não poderia deixar de ser, é o islamismo. Qualquer outro culto, templo, imagens ou eventos relacionados a outras religiões são proibidos no país. Os poucos cidadãos cristãos são monitorados constantemente, pois a proibição é também estendida aos espaços privados.

O país muçulmano é o principal aliado dos Estados Unidos no Oriente Médio e mantem uma parceria militar que dura décadas.    O fato de os sauditas serem um dos grandes produtores de petróleo no mundo pode ajudar a explicar porque os Estados Unidos tem sido tão complacentes com a ditadura religiosa saudita. Para se ter uma ideia, apenas neste ano os Estados Unidos discutiram uma lei que permitiria aos parentes das vítimas dos atentados de 11 de setembro de 2001 processarem a Arábia Saudita. Dos 19 terroristas que protagonizaram os ataques de 15 anos atrás, apenas quatro não eram cidadãos sauditas.

Apesar de aderir a quatro convenções de direitos humanos na Organização das Nações Unidas (ONU), entre 1996 e 2004, e de ter aprovado a criação da Sociedade Nacional para os Direitos Humanos em 2004, o país do oriente médio continua a ser um dos poucos que não reconhecem a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Os principais problemas relacionados a direitos humanos na Arábia Saudita dizem respeito, principalmente, a preconceito ligado a religiosidade e a falta de liberdade das mulheres no país. Os métodos punitivos utilizados no país, tem base nas leis islâmicas e incluem desde chibatadas até a pena de morte por decapitação com espada.

As mulheres são extremamente podadas em seus direitos dentro do país. A cultura saudita prevê uma extrema segregação entre homens e mulheres nos espaços públicos. Restaurantes, bares, lanchonetes e outros espaços tem zonas delimitadas para homens e outras onde devem estar mulheres e famílias. Um exemplo recente disso foi a advertência que o zagueiro brasileiro Bruno Uvini recebeu do Comitê para a Promoção da Virtude e de Prevenção ao Vício (CPVPV). O jogador, que já atuou por Santos e São Paulo e que atualmente veste a camisa do Al Nassr, foi advertido por ter jantado com a esposa em um espaço reservado a homens em um restaurante na capital Riade.

Segundo as leis islâmicas da sociedade saudita, é proibido às mulheres dirigir, andarem nas ruas desacompanhadas do marido, pai ou parentes, possuir conta bancária ou cartão de crédito sem autorização do esposo ou do pai. As mulheres sauditas também não podem utilizar provador para experimentar as roupas que compraram e sempre recebem valores menores do que os homens em questões de herança familiar. Há também severas sanções quanto ao trabalho feminino. para se ter uma ideia, até nas lojas de lingerie a maior parte dos vendedores é homem.

Outras situações que para os ocidentais fazem parte da normalidade são proibidas naquele país. Teatros, cinemas, boates e outros espaços culturais e de diversão noturna não existem na Arábia Saudita. São proibidos devido, principalmente a serem locais onde não é possível manter a segregação entre os sexos. O álcool é banido do país e o consumo e venda de bebidas podem causar severas punições. Até mesmo a desconfiança de que uma pessoa possa estar embriagada podem levar a mesma a uma delegacia. O mesmo acontece com a pornografia, que é expressamente proibida no país, seja por meios impressos ou digitais. Os turistas devem ter atenção aos itens que carregam ao viajar até o local.

Em termos militares, o país conta com o apoio dos Estados Unidos na região e atuam muitas vezes como mediadores de conflitos no Oriente Médio. A Arábia Saudita gasta cerca de 10% do PIB nas forças armadas e o principal fornecedor de armamentos são exatamente os Estados Unidos. No final das contas, países como a Coréia do Norte ou o Irã, que possuem ditaduras completamente fechadas à influência do ocidente, contam com maior complacência da mídia ocidental pelo fato de não serem aliados militares e parceiros comerciais dos Estados Unidos. O petróleo, mercadoria altamente valorizada no mundo atual, e o alinhamento do Reino da Arábia Saudita na geopolítica mundial podem ser considerados as “blindagens” ideais para que o país continue fora das principais manchetes no Ocidente.

Por Caio Calazans (@cabrito13)