Por que a princesa Ariel não pode ser negra?

Atriz e cantora Halle Bailey compartilhou uma imagem da personagem dizendo ter realizado seu sonho. Foto: Reprodução/Twitter

Os estúdios Disney revelaram, na última semana, quem será a atriz que irá interpretar a personagem Ariel no filme live-action do clássico filme A Pequena Sereia. A escolhida foi a atriz e cantora Halle Bailey, de 19 anos.

O diretor Rob Marshall explicou a escolha da atriz dizendo que ela tem “aquela rara combinação de espírito, coração, juventude, inocência e substância, além de uma voz gloriosa”. Segundo ele, todas essas qualidades são necessárias para ganhar o papel.

Em sua rede social no Twitter, Halle publicou um desenho da personagem icônica dizendo que um sonho estava sendo realizado. A escolha da jovem atriz tomou as manchetes de todos os sites e a repercussão foi rápida.

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Muitas mulheres negras vieram à público dizer que, finalmente, estavam se sentindo representadas. Algumas chegaram a afirmar que sempre quiseram ser a personagem quando eram crianças, mas que eram impedidas pelo fato de a personagem “não ser negra”.

Porém, outras pessoas criticaram a escolha da personagem. Algumas delas afirmaram que era errado colocar uma atriz negra para interpretar o papel. Mas, por qual motivo isso aconteceu? De acordo com a filósofa Mariana Janeiro, a razão é uma só: racismo.

“As pessoas não têm vergonha de serem racistas. Mas ninguém se assume racista. Então, alguns comentários são do tipo ‘nossa, mas já é tão natural que a Ariel é branca e ruiva’ ou ‘as crianças já têm no imaginário delas’. Mas as coisas não são fixas e imutáveis”, explica Mariana.

Segundo ela, o mesmo tipo de reação negativa aconteceu quando a personagem Hermione, de Harry Potter, foi interpretada por uma atriz negra em uma peça de teatro. “Em nenhum lugar do livro diz que ela é branca. Assim como em nenhum lugar do conto original da Ariel diz que ela é branca”, afirma a filósofa.

Atriz que irá dar vida à personagem. Foto: Reprodução/Instagram

De acordo com ela, uma parcela da população se revolta com a escolha da atriz pelo fato de que, no imaginário coletivo e racista, o protagonista sempre precisa ser o branco. “Aí, quando acontece essa troca, as pessoas se indignam. Há um grande pacto da branquitude de pensar que papéis de protagonismo são papéis brancos”, pondera.

Mariana diz que, por outro lado, meninas negras vão poder se identificar com a sereia. Ela explica que isso acontece pelo fato de da Disney ter se tornado um referencial do imaginário infantil, até pelo grande número de produtos que os estúdios têm no mercado.

“Acho que isso é importante para a construção de um referencial imagético e uma construção de auto estima que são pautadas por pessoas negras”, afirma a filósofa dizendo que o público vai precisar se adaptar ao fato de que outros tipos de pessoas vão passar a ser representadas nas artes.

“Não é uma questão de cota. É uma questão de ser verossímil. Existem pessoas negras em todos os lugares do mundo. Por que a Ariel não pode ser preta? Isso ninguém responde. Além disso, tem uma coisa que é sintomática: todas as pessoas que estão reclamando são pessoas brancas. Elas reclamam por não conseguirem se reconhecer em um lugar de privilégio”, finaliza.