Por que a Rússia invadiu a Ucrânia

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Entenda por que a Rússia quer invadir a Ucrânia (AP Photo/Alexander Zemlianichenko Jr)
Entenda por que a Rússia quer invadir a Ucrânia (AP Photo/Alexander Zemlianichenko Jr)

Por que a Rússia quer invadir a Ucrânia? Neste artigo você vai acompanhar a evolução passo a passo da tensão entre os vizinhos europeus e entender por que a Rússia quer invadir a Ucrânia. As temáticas abordadas serão:

  • Quando começou a invasão da Rússia na Ucrânia?

  • Por que a Rússia quer invadir a Ucrânia?

  • Como outros países reagem ao fato de a Rússia invadir a Ucrânia?

  • Entenda a relação comercial entre Rússia e Brasil

  • O que Bolsonaro falou sobre a Rússia invadir a Ucrânia

  • O que acontece com o Brasil se a Rússia invadir a Ucrânia

  • Como a Rússia pode invadir a Ucrânia pela internet?

  • Quais são os arsenais de guerra de Rússia e Ucrânia?

  • Como a Ucrânia está treinando civis para o caso de a Rússia invadir?

  • Quantas pessoas a Ucrânia tem precisando de ajuda humanitária?

Por que a Rússia quer invadir a Ucrânia?

Um dos pilares da antiga União Soviética, a Ucrânia votou sua independência em 1991, em evento histórico que foi um dos grandes marcos da queda e dissolução soviética. Com isso, a Otan ganhou força na região ao passo que os russos foram perdendo pouco a pouco seu domínio local.

Em 2004, a Otan adicionou as ex-repúblicas soviéticas no Mar Báltico Estônia, Letônia e Lituânia. Quatro anos depois, declarou sua intenção de oferecer a adesão à Ucrânia, o que acendeu a luz vermelha na Rússia. Vladimir Putin, presidente russo, considerou a ação do grupo uma ameaça existencial ao seu país e considerou a perspectiva de inclusão ucraniana no grupo como ‘ato hostil’.

Desde então não foram poucas as vezes em que Putin, em aparições públicas, enfatizou que a Ucrânia faz parte da Rússia cultural, política e linguisticamente. E é aí que nasce o principal motivo do confronto: parte da população do leste ucraniano, mais próximo à Rússia, carrega esse mesmo sentimento; outra parte, mais nacionalista e ao oeste, mais próximo da Europa central, quer a separação total.

Desde o final de 2021, a tensão entre Rússia e Ucrânia tem sofrido uma escalada que pode culminar em uma guerra no Leste Europeu (Sputnik/Alexey Nikolsky/Kremlin via REUTERS)
Desde o final de 2021, a tensão entre Rússia e Ucrânia tem sofrido uma escalada que pode culminar em uma guerra no Leste Europeu (Sputnik/Alexey Nikolsky/Kremlin via REUTERS)

A crise armada data de 2014, quando um presidente pró-Rússia foi tirado do poder por protestos populares que contaram com adesão em massa da população ucraniana. A convocação dos atos, conhecidos à época como Euromaidan, aconteceu após uma negativa ucraniana adesão à União Europeia.

A resposta russa veio rapidamente: anexo da Crimeia e fomentação de uma região que já contava com forte sentimento pró-Rússia. Armados, os separatistas iniciaram a ofensiva e e como resposta viram a Ucrânia passar a controlar a região de Donbas. Um cessar-fogo foi assinado em 2015, mas desde então as linhas de frentes de ambos os países seguem posicionadas para a guerra, em um conflito que já matou 14 mil e criou uma massa de 1,5 milhão de desabrigados na Ucrânia.

No final de 2021, Putin fez uma série de exigências à Otan, em negociação que não foi concluída. Desde então, a iminência de uma possível investida dos aliados para trazer a Ucrânia para seu grupo, aliada às fortes pressões na fronteira e o retorno de disputas entre separatistas e nacionalistas, a situação voltou a ficar instável na região.

Desde o final de 2021, a tensão entre Rússia e Ucrânia tem sofrido uma escalada que pode culminar em uma guerra no Leste Europeu.

Mais de 100 mil soldados russos foram deslocados para a fronteira ucraniana, o que foi interpretado como uma ameaça de invasão ao território vizinho.

Como outros países reagem ao fato de a Rússia invadir a Ucrânia?

Na sexta-feira, o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, pediu a saída dos norte-americanos do país europeu, exemplo seguido por Coreia do Sul, Japão e Holanda.

Na sexta-feira (11), o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, pediu a saída dos norte-americanos do país europeu, exemplo seguido por Coreia do Sul, Japão e Holanda.

"Os cidadãos americanos deveriam sair agora. As coisas podem acelerar rapidamente", declarou Biden à NBC News.

O presidente dos EUA explicou, na mesma entrevista, que não há possibilidade de enviar tropas à Ucrânia, nem mesmo para auxiliar na retirada de cidadãos norte-americanos. Segundo ele, isso causaria uma “Terceira Guerra Mundial”.

"Os cidadãos americanos deveriam sair agora. As coisas podem acelerar rapidamente", considerou.

Joe Biden garantiu que não vai mandar tropas para a Rússia (REUTERS/Kevin Lamarque)
Joe Biden garantiu que não vai mandar tropas para a Rússia (REUTERS/Kevin Lamarque)

Da Grã-Bretanha, Boris Johson faz críticas

O primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, criticou a postura do presidente russo, Vladimir Putin, após as falas da última segunda-feira (21). Em pronunciamento oficial, Putin reconheceu as áreas separatistas da Ucrânia, Donestk e Lugansk.

Na avaliação de Boris Johnson, Putin calculou mal a ideia de invadir a Ucrânia. A declaração ocorreu após uma reunião do comitê de segurança nacional de emergência da Grã-Bretanha, presidida por Johnson.

“Acho que a tragédia da situação atual é que o presidente Putin se cercou de conselheiros com ideias semelhantes que lhe dizem que a Ucrânia não é um país adequado. E acho que ele descobrirá que calculou gravemente mal”, disse o primeiro-ministro britânico.

Posicionamento do Brasil

O Governo do Brasil, em seu mais recente posicionamento sobre o assunto, no dia 31 de janeiro, disse que "não há, no momento, nenhuma recomendação de segurança da embaixada brasileira contrária a visitas ou à permanência na Ucrânia”.

A movimentação de países de todo o mundo sobre o assunto se deu por conta do deslocamento de 100 mil soldados russos para a região da fronteira com a Ucrânia.

Entenda a relação comercial entre Rússia e Brasil

Jair Bolsonaro esteve na Rússia no início de fevereiro (Sputnik/Vyacheslav Prokofyev/Pool)
Jair Bolsonaro esteve na Rússia no início de fevereiro (Sputnik/Vyacheslav Prokofyev/Pool)

A relação entre os países na economia soma pequenas quantias na balança econômica. Em questão de valores, a Rússia foi responsável por R$ 8,8 bilhões em exportações do Brasil no ano passado. As exportações para a Rússia representam 0,6% dos envios da balança comercial.

O valor é o menor em 20 anos. O Brasil vende soja, frango, carnes, café, açúcar e amendoim para os russos. Para aplicar nas lavouras nacionais, o Brasil compra defensivos agrícolas, adubos e fertilizantes da Rússia. No ano passado 60% da importação russa para o Brasil foram em químicos agrícolas, R$ 18,27 bilhões.

Junto a Índia, China e África do Sul, a Rússia o Brasil compõem o BRICS, órgão internacional de comércio e cooperação. A visita busca aproximar comercialmente o Brasil e a Rússia. Com 140 milhões de habitantes, a Rússia é uma mercado onde há espaço para os maior presença dos produtos brasileiros.

Além do presidente da república, o presidente da Marfig, Marcos Molina, o presidente da ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal), Ricardo Santin, o presidente da Abrafrutas (Associação Brasileira dos Produtores Exportadores de Frutas e Derivados), Guilherme Coelho, e representantes da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja), compõem a comitiva brasileira em visita a Rússia.

Entenda a diplomacia entre Rússia e Brasil

O diálogo entre Brasil e Rússia começou em 1828 e foi interrompido apenas na Revolução Russa, em 1917, e na tentativa de golpe à república brasileira em 1947. Em 1991 o Brasil foi um dos primeiros países a reconhecer a Federação da Rússia, após a dissolução da URSS (União das Repúblicas Soviéticas Socialistas).

O relacionamento entre os países é um visto como chance para apaziguar o atual momento na fronteira russa. A Rússia alocou cerca de 100 mil soldados em seus limites com a Ucrânia e no país vizinho Belarus, segundo o jornal norte-americano The New York Times.

A movimentação é uma represália a aproximação da Ucrânia junto a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), conjunto militar liderado pelos EUA. Criado após a Segunda Guerra Mundial, a Otan fez frente contra a União Soviética durante a Guerra Fria.

A Rússia interpreta a aliança entre a Ucrânia e a Otan uma aproximação extrema dos Estados Unidos ao território do leste europeu. A Ucrânia era uma das repúblicas soviéticas e tem seu nascimento como povo e nação parelho com a comunidade russa. Os motivos históricos, políticos e beligerantes trazem fatores a mais para a visita do presidente Bolsonaro a Putin na próxima quarta-feira (16/02).

O que Bolsonaro falou sobre a Rússia invadir a Ucrânia

Em meios à tensões escalando, o presidente brasileiro Jair Bolsonaro (PL) visitou a Rússia. Ele chegou na quarta-feira (16) ao Kremlin, a sede do governo russo na capital Moscou.

Solidariedade à Rússia

No Kremlin, o brasileiro se encontrou com o presidente do país, Vladimir Putin. Em sua fala inicial, Bolsonaro disse que o Brasil é “solidário à Rússia”.

“Estou muito feliz e honrado pelo seu convite. Somos solidários à Rússia. [Temos] Muito a colaborar com várias áreas, [como] defesa, petróleo e gás, agricultura”, disse o chefe do Planalto.

Bolsonaro disse que o Brasil é
Bolsonaro disse que o Brasil é "solidário" à Rússia (Vyacheslav Prokofyev\TASS via Getty Images)

“As reuniões estão acontecendo. Tenho certeza que até mesmo essa passagem por aqui dá o retrato para o mundo que podemos crescer muito nas nossas relações bilaterais”, continuou Bolsonaro. Além deles, dois tradutores estavam na sala.

Pedido por "paz mundial"

Após uma conversa privada, os presidentes fizeram um pronunciamento público. Na fala de Bolsonaro, o mandatário brasileiro evitou citar as tensões entre russos e ucranianos, mas pregou a paz mundial.

Bolsonaro mencionou as matrizes energéticas brasileira e possibilidades de exploração da extração de gás e petróleo em parceria com a Rússia, além do interesse do país em comprar produtos brasileiros de origem animal. O presidente também citou que o encontro com Putin durou cerca de duas horas e elogiou a conversa.

“É sinal de que duas grande potencial tem muito a avançar e interagir para o benefício dos nossos povos. E repito: o mundo é a nossa casa e Deus está acima de todos nós. Pregamos a paz e respeitamos todos que agem dessa maneira, afinal de contas, esse é o interesse de todos nós, a paz no mundo”, declarou o presidente da República.

Bolsonaro ainda agradeceu a Putin por defender o que chamou de “soberania brasileira” em relação à Amazônia. “Muito obrigado ao presidente Putin pela acolhida, pelos temas tratados conosco e pela confiança depositada em nosso país.”

O que acontece com o Brasil se a Rússia invadir a Ucrânia

Ao Yahoo, o professor de relações internacionais da Faap, Vinícius Rodrigues Vieira, explica que o principal motivo das tensões entre os países vizinhos acontece porque a Ucrânia quer afastar a influência russa, e fazer parte da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), fundada em 1949 com o objetivo inicial de impedir a expansão da União Soviética depois da Segunda Guerra Mundial.

Esta aliança militar conta hoje com a participação de 30 países, sendo os Estados Unidos a grande liderança do grupo. A Ucrânia não faz parte da Otan, mas este é um desejo do país, o que não agrada em nada o presidente russo Vladimir Putin, que quer continuar tendo a hegemonia e a influência na região.

Pessoas tentam deixar Donbass, uma das principais regiões afetadas pelo conflito entre Rússia e Ucrânia (Erik Romanenko\TASS via Getty Images)
Pessoas tentam deixar Donbass, uma das principais regiões afetadas pelo conflito entre Rússia e Ucrânia (Erik Romanenko\TASS via Getty Images)

Vieira conta que a Ucrânia como país independente tem uma história muito breve — apenas 30 anos, tendo atingido a independência depois da queda da União Soviética, em 1991. Segundo ele, desde então a Ucrânia passa por tentativas constantes de estabelecer uma democracia de fato, e virar uma aliada do Ocidente.

“A Ucrânia teve regimes que caíram e que não eram propriamente democráticos. Para se esquivar dessa influência russa, a Ucrânia sempre buscou ter uma proximidade com o Ocidente, sinalizando que poderia aderir à União Europeia e à Otan”, diz.

“E a Rússia, sabendo que outros países do leste europeu aderiram à Otan e à União Europeia, quer ter garantia de que a Ucrânia jamais entrará para a Otan. Assim, a Rússia terá chances de manter sua influência sobre o país.”

Além disso, conta o professor, essa crise também é consequência daquilo que foi mal resolvido em 2014: a invasão e a anexação da Crimeia pela Rússia e que não foi reconhecida pela comunidade internacional.

Viagem de Bolsonaro à Rússia foi 'inoportuna'

Para o professor da Faap, a ida de Bolsonaro à Rússia pode ser considerada "inoportuna" por conta das tensões na região. Porém, do ponto de vista de marketing político, pode beneficiar o presidente. Ele também diz que a viagem tem duas explicações, sendo que a primeira se deve ao agronegócio.

“Com essa viagem, Bolsonaro tenta segurar o fornecimento de fertilizantes para o Brasil, pois a Rússia é o principal fornecedor. Então, do ponto de vista doméstico, ele procura sinalizar para o agronegócio a preocupação com o setor, que sempre esteve com o governo em sua maioria, mas sempre criticou em parte a sua política externa", esclarece.

Isso significa que, para Vieira, ao ir para Moscou, Bolsonaro faz uma espécie de "mea culpa". "Ele reconhece que talvez não tenha feito uma política externa tão robusta como poderia ter feito num setor que sempre esteve do seu lado", diz o professor.

Vieira menciona também a questão eleitoral. Na avaliação dele, o mandatário brasileiro tenta buscar uma imagem de credibilidade para a opinião pública, especialmente para a sua base mais radical, como os olavistas e evangélicos, ao conversar com um líder da envergadura de Putin.

"Putin é muito conservador em pautas comportamentais. Com isso, Bolsonaro sinaliza ao seu eleitorado que é capaz de estabelecer alianças internacionais para avançar essa agenda a nível global. Ou seja, combater o chamado globalismo que Ernesto Araújo citava inspirado pelo Olavo de Carvalho, e que hoje é uma pauta, na minha leitura, muito forte entre os cristãos mais conservadores que ainda estão com Bolsonaro", argumenta.

Brasil terá de tomar partido?

Na visão de Vieira, se houver uma escalada das tensões em proporções mundiais, o Brasil vai ser um dos países mais pressionados para tomar uma posição.

"O último evento que tivemos dessa magnitude foi a Segunda Guerra Mundial. O Brasil foi até o limite ao lidar com os dois lados, até que teve que tomar partido e acabou se aliando com os Estados Unidos e os demais aliados em troca de recursos para sua industrialização", lembra.

"O Brasil vai ser pressionado [para se posicionar], mas o histórico indica que vamos procurar ter uma postura mais independente nas nossas relações exteriores, não aderindo a um lado", avalia.

O que acontece com o Brasil se houver uma guerra?

Caso haja um conflito entre a Rússia e a Ucrânia, Vieira explica que os russos vão sofrer sanções que tendem a se dar no plano econômico, como a suspensão de importações e exportações.

E, ainda que o Brasil não participe das sanções que venham a ser impostas pelos americanos e europeus, o professor da Faap diz que teríamos dificuldades para fazer pagamentos e receber fertilizantes do nosso maior fornecedor, que é a Rússia.

Exército da Rússia é um dos mais poderos do mundo (REUTERS/Sergey Pivovarov)
Exército da Rússia é um dos mais poderos do mundo (REUTERS/Sergey Pivovarov)

"Eu vejo o Brasil sendo afetado indiretamente. E um conflito na Europa traria uma onda de temor aos mercados mundiais e, com o mercado internacional ruim, o Brasil também tende a ter um crescimento baixo e dificuldade para se recuperar economicamente", diz.

Como a Rússia pode invadir a Ucrânia pela internet?

A Ucrânia agora teme também outro tipo de invasão: a cibernética. Afinal, os russos são conhecidos por terem alguns dos melhores hackers do mundo.

“Tenha medo e prepare-se para o pior”, dizia um aviso codificado deixado por hackers depois que eles atacaram bancos de dados do estado ucraniano no dia 14 de janeiro. Um mês depois, um poderoso ataque online paralisou serviços em dois grandes bancos e no site do Ministério da Defesa no país. Em ambas as ocasiões, a Rússia negou envolvimento. Mas a mensagem não era sutil, coincidindo com a presença de mais de 150 mil soldados nas fronteiras da Ucrânia.

Rússia é um dos países com os melhores hackers do mundo (Jakub Porzycki/NurPhoto via Getty Images)
Rússia é um dos países com os melhores hackers do mundo (Jakub Porzycki/NurPhoto via Getty Images)

Rússia já atacou a Ucrânia antes pela internet

Mas mesmo que a Rússia não faça um movimento físico, a Ucrânia está na fila para um ataque de um tipo diferente, principalmente ao se tratar de um país amplamente reconhecido como o líder mundial em guerra digital. A Ucrânia não é o 'alvo fácil' que era quando os primeiros ataques russos atingiram seus sistemas eleitorais em junho de 2014. Agora, conta com uma significativa experiência local e recebe ajuda de serviços de segurança ocidentais - incluindo o Comando Cibernético da América.

Líder mundial contra ataques cibernéticos

Os oito anos de experiência a tornaram líder mundial na detecção e correção de ameaças. Mas Victor Zhora, vice do Comando Cibernético da Ucrânia, diz que a Rússia provavelmente está mantendo suas ferramentas mais perigosas em reserva. “Eles já estão tentando uma enorme variedade de maneiras de obter controle sobre nossas redes e infraestrutura crítica [...] claro, é apenas a ponta do iceberg”.

Ataque virtual pode ser pior que guerra física

O ataque cibernético “NotPetya” em 2017, considerado o mais prejudicial da história da Ucrânia e atribuído à Rússia pela Casa Branca, desativou um sistema de monitoramento de radiação na extinta, mas ainda altamente contaminada usina de Chernobyl. Agora, a ferocidade das operações cibernéticas da Rússia dependerá de suas intenções mais amplas: se o objetivo é causar dor e talvez derrubar o governo de Volodymyr Zelensky, apoiar uma operação militar convencional ou ambos. As operações cibernéticas podem ter efeitos psicológicos devastadores na população ucraniana sem que um míssil seja disparado. “Imagine o pânico nas ruas de Kiev se as pessoas não pudessem ligar umas para as outras”, diz Volodymyr Omelyan, ministro de infraestrutura da Ucrânia de 2016 a 2019.

Proteção ainda não é suficiente

Uma preocupação maior é que o Kremlin desligue as redes elétricas, móveis e de internet para criar o caos antes de uma possível invasão. Poderia criar sustos em torno das 15 usinas nucleares do país. Dmitri Alperovitch, cuja empresa de segurança cibernética CrowdStrike descobriu a invasão russa do Comitê Nacional Democrata em 2015/2016, diz que Moscou tem capacidade para fazer tudo isso. Poderia, ele sugere, atingir fisicamente a dúzia de pontos de troca de dados que conectam a Ucrânia à internet e usar capacidades de guerra eletrônica para bloquear as ondas de rádio em alguns lugares, afetando telefones celulares e outros meios de comunicação dependentes de rádio. Ele ainda argumenta que não foi feito o suficiente para proteger as redes móveis.

Apoio dos EUA

Mas a maioria dos especialistas em segurança cibernética argumenta que uma interrupção completa das comunicações seria difícil de alcançar. A desativação das conexões de banda larga exigiria, segundo eles, uma operação física arriscada dentro da Ucrânia. A arquitetura da rede móvel do país, com mastros sobrepostos, também a torna resiliente à disrupção nacional. Pode ser mais fácil desativar partes cruciais da infraestrutura de energia, transporte e linhas de abastecimento. Em 2015 e 2016, por exemplo, a Rússia atacou a rede nacional, causando apagões em três regiões. No ano seguinte, o controle de tráfego aéreo ucraniano foi interrompido. Os Estados Unidos enviaram equipes de segurança digital a Kiev para aprender o máximo possível sobre os recursos emergentes.

Quais são os arsenais de guerra de Rússia e Ucrânia?

O fato da Rússia possuir um arsenal e um exército muito maior que o da Ucrânia não é nenhuma novidade, mas a extensão de desvantagem do segundo país pode não ficar clara num primeiro momento.

Uma pesquisa realizada pela Global Firepower avaliou as forças militares dos dois países previstas para 2022, e os resultados indicam que a Rússia tem tudo a seu favor em todos os aspectos.

Com relação ao arsenal de pessoas, a Ucrânia fica para trás com 220 mil soldados, enquanto a nação maior contabiliza 850 mil.

Com relação a arsenal aéreo e naval, a Rússia lidera com mais de 4 mil e 605, contra 318 aeronaves e 38 navios ucranianos respectivamente.

Arsenal de guerra da Rússia é muito superior ao da Ucrânia (REUTERS/Sergey Pivovarov)
Arsenal de guerra da Rússia é muito superior ao da Ucrânia (REUTERS/Sergey Pivovarov)

Os tanques de guerra e veículos blindados da ex-União Soviética totalizam cerca de 42 mil unidades, enquanto a Ucrânia soma pouco mais de 14 mil.

Os ucranianos também saem em desvantagem do arsenal aéreo, totalizando 103 peças entre helicópteros de ataque e jatinhos, enquanto os russos possuem mais de mil unidades.

Por fim, a Ucrânia possui apenas uma fragata e nenhum navio destruidor, enquanto a Rússia possui 26 unidades totais de barcos.

Portanto, ainda não é possível medir o nível de destruição que ocorrerá caso o presidente Putin decida invadir o oeste.

Como a Ucrânia está treinando civis para o caso de a Rússia invadir?

A Ucrânia realizou treinamento militar para defesa de moradores de Kiev, capital do país. Segundo informações da agência Getty, a iniciativa do treinamento foi de membros do partido de extrema-direita, chamado Setor Direito. Civis estão sendo aprendendo a usar armas e detectar explosivos, além de praticarem exercícios de medicina tática.

Cidadãos ucranianos treinam focando em possível invasão da Rússia (REUTERS/Valentyn Ogirenko)
Cidadãos ucranianos treinam focando em possível invasão da Rússia (REUTERS/Valentyn Ogirenko)

Agências internacional de notícias mostraram imagens de mulheres, homens e até mesmo crianças segurando armamentos de grande alcance. Uma pesquisa feita pelo Instituto Internacional de Sociologia de Kiev, feita em dezembro, apontou que 58% dos ucranianos estão prontos para pegar em armas e defender o país. Entre as mulheres, o índice é de 12,8%.

Aos sábados, civis de todas as idades vão para florestas ao redor da capital Kiev para participar dos treinamentos de defesa.

Quantas pessoas a Ucrânia tem precisando de ajuda humanitária?

Desde que a Rússia anexou a Crimeia em seu território, em meados de 2014, estabeleceu-se uma tensão política entre Donetsk e Luhansh, repúblicas apoiadas pela ex-União Soviética, e a Ucrânia. O que fez com que o leste do país entrasse em crise.

Em um relatório publicado em fevereiro de 2021 pelo Escritório da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários, publicou-se que cerca de 3,4 milhões de pessoas nas "áreas de conflito" precisam de assistência humanitária, cerca de 8% da população total da Ucrânia.

Apesar da diminuição significativa comparado aos 5 milhões de necessitados de 2015, a crise parece longe de acabar.

Conflito entre Rússia e Ucrânia deixou milhões de desabrigados (REUTERS/Marko Djurica)
Conflito entre Rússia e Ucrânia deixou milhões de desabrigados (REUTERS/Marko Djurica)

Com a crescente tensão entre as nações, o risco de uma guerra eclodir nunca foi tão alto. Acredita-se ainda que a Rússia tem aumentado cada vez mais a presença militar na fronteira ucraniana. Cerca de 100.000 soldados estariam no local.

Ainda não se sabe ao certo se os países irão, de fato, atacar um ao outro, ou se uma solução diplomática vai aparecer. O presidente ucraniano Zalenskiy parece ansioso para minimizar os riscos de uma investida do país inimigo.

Ele afirmou durante uma coletiva de imprensa que a Ucrânia está ciente da situação, e que a ameaça é constante.

"Não podemos dizer se a guerra acontecerá amanhã, no fim de fevereiro, ou se ela não vai acontecer. Há o risco, infelizmente. Mas precisamos sentir o pulso do dia - a - dia", completou.

Vale ressaltar que a Rússia nega que esteja planejando uma ofensiva, mas não nega a oposição do Kremlin à expansão da OTAN para o leste.

Os esforços diplomáticos ainda não foram capazes de resolver a situação. Ao mesmo passo, os parceiros humanitários do OCHA querem ajudar cerca de 1,8 milhões de pessoas, a fim de salvar vidas e garantir o acesso a serviços básicos, e fortalecer a proteção das pessoas que estão passando por dificuldades neste período.

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