Por que Antígona ainda é a peça de teatro mais representada do mundo 2,5 mil anos após sua estreia

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Antígona, Leighton, Frederic
Antígona: 'Eu vou enterrar o nosso irmão. E me parece bela a possibilidade de morrer por isso'

"Ismênia, minha querida irmã, companheira de meu destino, de todos os males que Édipo deixou, suspensos, sobre a sua descendência, haverá algum com que Júpiter ainda não tenha afligido nossa vida infeliz?"

Com essas palavras, há quase 2,5 mil anos, o poeta Sófocles começa a contar a história de Antígona aos gregos presentes na Acrópole de Atenas, durante a festa em homenagem a Dionísio, o deus do teatro.

O seu público sabia dos infortúnios a que se referia a protagonista, porque a conheceram em sua obra anterior Édipo Rei — ela era uma das duas filhas do mais infeliz dos reis de Tebas que, sem saber, matou seu pai e se casou com sua mãe, Jocasta.

Quando o diálogo entre Antígona e Ismênia começa, Jocasta já havia se suicidado, e Édipo tinha furado os próprios olhos, se exilado e morrido.

Mas aos infortúnios da família se soma uma guerra em que lutaram os dois filhos de Édipo, Etéocles e Polinice. Como destaca Ismênia, ela e a irmã perderam "num só dia, dois irmãos, um derramando o sangue do outro, se dando mutuamente o golpe de extermínio".

O enredo que se desenrola a partir deste ponto é tão emocionante que "a peça de teatro mais representada no mundo não é uma das adaptações de Harry Potter, de Hamlet ou qualquer outra obra de Shakespeare: é Antígona", diz o escritor irlandês Colm Tóibín.

Ismênia e Antígona
Ismênia e Antígona perderam o pai e a mãe, que foram vítimas de um destino funesto. No início desta peça, elas acabaram de perder os dois irmãos

Por que é tão popular?

"Porque é uma peça fantástica", responde o diretor teatral Olivier Py. Sem dúvida, é uma grande obra, mas isso, felizmente, pode ser dito sobre muitas outras.

Mas, apesar da passagem do tempo, essa história de desobediência civil e de uma batalha devastadora continua tocando as pessoas até hoje. Vamos relembrar seu enredo:

Após a morte de Édipo, Etéocles e Polinice herdam o reino de Tebas com a condição de que governem alternadamente. Quando chega a hora de Etéocles ceder o poder ao irmão, ele se recusa, levando Polinice a formar um exército.

Depois que os irmãos se matam, seu tio Creonte assume o poder, e sua primeira decisão é honrar a memória de Etéocles e não sepultar Polinice, para que as aves de rapina e hienas o devorem.

Antígona não aceita isso. Embora a sociedade o julgue negativamente, seu irmão merece descansar com dignidade, e ela fará de tudo para honrá-lo com um simples gesto: jogar terra sobre seu corpo.

Antígona ao lado do corpo do irmão
Antígona: 'Eu vou colocar terra sobre o corpo humilhado do meu pobre irmão'

Py montou Antígona no ano passado com detentos da prisão de Avignon-Le Pontet, na França, e os atores "entenderam profundamente esta ideia de que um homem ainda é um homem, independentemente do que ele tenha feito".

"O maravilhoso de Antígona é que ela luta pelo direito de expressão e de contar a história sob seu ponto de vista. Por isso, para mim, seu ato de desafiar o Estado ou o poder é importante, porque normalmente só ouvimos a história sob a perspectiva dos fortes, dos vitoriosos ou das autoridades", diz Py.

Enquanto estava preso, Nelson Mandela, ex-presidente da África do Sul conhecido por sua luta contra o apartheid, também atuou em uma versão de Antígona produzida na Ilha Robben, onde ficou encarcerado.

Para refugiadas sírias no campo de Shatila, no Líbano, que encenaram uma versão da peça criada por Mohammad al Attar, foi um reflexo de suas lutas diárias.

Esta versão da obra, criada pelo dramaturgo Mohammad Al Attar, mesclou as experiências das refugiadas. Sem querer, Al Attar descobriu que várias compartilhavam a mesma angústia de Antígona por não poder enterrar seus entes queridos.

"Essa ideia de honrar nossos mortos é tão fundamental", diz Tóibín, "que nenhum decreto, nenhuma lei, pode mudá-la". Ainda assim, suscita dilemas difíceis.

Creonte entre os dois irmãos
Honrar um sobrinho, desonrar o outro: o decreto de Creonte desencadeia uma verdadeira tragédia

Obedecer ou desafiar

A partir do primeiro diálogo entre as duas irmãs, Sófocles apresenta o dilema, ou melhor, um dos complicados dilemas com os quais a peça nos confronta.

Antígona havia levado Ismênia para fora do palácio para contar a ela o que Creonte decidiu fazer com o corpo de Polinice e sobre o decreto proibindo todos os cidadãos de sepultá-lo ou sequer chorar por ele.

"Sua decisão é fria, e ameaça quem a desrespeitar com a lapidação, morte a pedradas", informa Antígona à irmã, enquanto a confronta com a realidade, sob seu ponto de vista.

"Agora sabes tudo. Logo poderás demonstrar se tu mesma és nobre ou se és apenas filha degenerada de uma raça nobre."

Ismênia, consternada, responde: "Minha pobre irmã, se o caso é esse, que importa o que eu faça ou o que eu não faça?"

Corpo de Polinice ao lado de hiena e ave
Antígona: 'Ninguém poderá enterrá-lo, nem sequer lamentá-lo, para que, sem luto ou sepultura, seja banquete fácil dos abutres'

Para Antígona, a única opção é enterrá-lo: "Enterro meu irmão, que é também o teu. Farei a minha e a tua parte se tu te recusares. Poderão me matar, mas não dizer que eu o traí."

Ismênia, porém, é mais racional e pede a ela que reflita: "Temos que lembrar, primeiro, que nascemos mulheres, não podemos competir com os homens; segundo, que somos todos dominados pelos que detêm a força e temos que obedecer a eles, não apenas nisso, mas em coisas bem mais humilhantes."

A ideia de "desafiar" é para ela um gesto excessivo e sem sentido: "Peço perdão aos mortos que só a terra oprime: não tenho como resistir aos poderosos. Constrangida a obedecer, obedeço".

Lealdade à família x lealdade à sociedade

"Sófocles sempre usa esse tipo de dualidade: dois personagens expondo o dilema", destaca Lydia Koniordou, atriz, diretora e ex-ministra da Cultura da Grécia.

Cada irmã assume uma posição: Ismênia defende a sobrevivência; Antígona, a morte honrosa. Nenhuma delas é necessariamente boa ou má. Tudo depende do ponto de vista do público.

Essa é uma das razões pelas quais a obra de Sófocles pôde ser apresentada a qualquer momento, em qualquer lugar, até mesmo na França de 1944.

Por meio do uso inteligente da linguagem, o dramaturgo Jean Anouilh conseguiu fazer com que sua versão da obra fosse aceita pelos censores nazistas durante a ocupação alemã no país, embora permanecesse claramente uma reflexão sobre a submissão e resistência ao poder e ao controle.

E tem sido assim ao longo dos anos com esta peça, criada numa época em que o teatro tinha um papel muito especial.

Teatro para a democracia

O Teatro de Dionísio, na encosta da Acrópole, em Atenas
Como teria sido o Teatro de Dionísio, na encosta da Acrópole, em Atenas

Atenas, a cidade-estado, foi uma das primeiras democracias do mundo — e, em sua Acrópole, estava um dos primeiros teatros da história... e não foi por acaso.

"O teatro era parte integrante da democracia", explica Koniordou. "Era uma das instituições da democracia: o Parlamento era uma, o Judiciário era a segunda, e a terceira era o Teatro."

"Todos os cidadãos íam a Atenas para participar do diálogo e da discussão sobre assuntos públicos e privados da cidade. Para aqueles que não tinham dinheiro suficiente, a cidade dava ingressos grátis", completa Koniordou.

E Sófocles era um gênio fomentando essas discussões, não apenas convidando à reflexão ao criar situações complexas, mas também personagens multifacetados.

Um poder antigo

Creonte, o rei, tio de Antígona e pai de seu noivo, que poderia facilmente ser classificado como "o vilão", é o homem com a responsabilidade de unir a sociedade após uma guerra civil. "Ismênia é uma personagem poderosa e interessante, e não fraca como às vezes é retratada", diz Koniordou.

Antígona, por sua vez, é uma heroína que nem sempre é simpática — manipula e despreza a irmã, não é totalmente correta e se aproveita ao máximo da sua situação de vítima. "Antígona é tão exagerada quanto Creonte e igualmente rígida em suas decisões", afirma a Koniordou.

Mas ela questiona o poder em um aspecto fundamental: seus limites. Creonte "não tem nenhum direito de me privar dos meus", declara Antígona.

Mãos protestando
Uma verdade mais antiga que põe limite ao poder

Tóibín nos convida a lembrar "de qualquer momento em que as mulheres tenham enfrentado governos e o poder, por exemplo, no caso do movimento #MeToo (que denunciou casos de assédio e abuso sexual) ou das Mães da Praça de Maio (que tiveram filhos mortos ou desaparecidos durante a ditadura) na Argentina".

"Elas disseram: 'Representamos algo mais antigo e verdadeiro que um decreto ou uma legislação, ou o poder do Parlamento ou a ditadura'."

"Esta obra permite que a mulher fale e acuse, e permite que ela diga: 'Eu sei algo que você não sabe sobre o poder, e vou desafiá-lo, porque a forma como você o está usando é uma forma de abuso. Você pode ser o rei, mas está errado", acrescenta o escritor irlandês.

Creonte se dá conta disso. Diferentemente dos políticos modernos "que nunca admitem que cometeram um erro", diz Koniordou, Creonte tenta reparar os danos. Mas chega dolorosamente tarde demais.

Tanto ele quanto Antígona pagam o preço mais alto pelas decisões que tomaram e arrastam seus entes queridos para as profundezas do luto, não sem antes de nos levar a questionar tudo... seja no século 5 a.C., neste século ou, provavelmente, nos que virão.

Como diz Tóibín: "Esse mundo de 2,5 mil anos atrás ainda é, em certa medida, o nosso".

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