Por que a bandeira de Israel virou símbolo do bolsonarismo?

No último domingo, 3, bandeiras de Israel e dos Estados Unidos estiveram presentes nas manifestações antidemocráticas (Foto: AP Photo/Eraldo Peres)

No ato antidemocrático do último domingo, 3, chamou atenção de muitos a presença de duas bandeiras, que não do Brasil: dos Estados Unidos e de Israel. A relação com o país norte americano está clara: há um alinhamento ideológico e um bom relacionamento entre Donald Trump e Jair Bolsonaro – o presidente chegou a ser chamado de “Trump dos trópicos”. Mas, e com Israel?

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A bandeira do país do oriente médio aparece em diversos protestos da direita, além de estar com frequência nos nomes dos apoiadores do presidente Bolsonaro nas redes sociais. Por que isso acontece? Na avaliação do cientista social Daniel Douek, diretor-executivo do Instituto Brasil-Israel, em parte, é uma resposta à esquerda, que adotou a bandeira palestina como símbolo de luta.

“E também ao tratamento da bandeira israelense pela esquerda. Quando a bandeira de Israel aparecia em protestos da esquerda era para ser queimada ou rasgada”, avalia.

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POLÍTICA INTERNACIONAL

Douek pondera que o conflito israelo-palestino é, também, um simbolismo na área da política internacional. Durante os governos do PT, nos mandatos Lula e Dilma, o Brasil esteve alinhado à Palestina. “Assim como a Palestina tinha um valor político internacional para a esquerda, Israel e outros países, como Estados Unidos, passaram a desempenhar um papel importante para a direita”, explica.

Há pontos simbólicos dessa associação à Israel com a família Bolsonaro desde antes da eleição de 2018: os filhos do presidente saiam com camisetas do exército e do serviço secreto israelense e Bolsonaro esteve no país para se batizar no Rio Jordão, a convite do pastor Everaldo.

RELIGIÃO

Do ponto de vista religioso, Israel é importante para Bolsonaro por causa de sua base eleitoral fiel. Esse ponto não diz respeito aos judeus, que somam aproximadamente 120 mil pessoas em todo o Brasil, mas os evangélicos neopentecostais. “Muitos adeptos dessa religião confundem o estado de Israel hoje com a Israel bíblica. E já tem anos que as bandeiras de Israel estão presentes nesses cultos”, relembra o cientista social. Um exemplo dado por Daniel Douek é que, em frente ao Templo de Salomão, construído pela Igreja Universal do Reino de Deus, há uma bandeira israelense.

Em relação aos judeus, é importante dizer que, ao ser fundado, Israel nasceu com a ideia de ser “o estado judeu” e se apropriou de símbolos relevantes da religião, como a estrela de David, como marcas de um país. “Essa mistura (de judeus e Israel) está presente dentro do próprio caráter do estado”, diz.

Grande parte da diáspora judaica, ou seja, todos os judeus que vivem fora de Israel, se sentem vinculados ao estado. O sionismo, movimento nacional que apoia o estado judeu, nasceu como ideia de autodeterminação judaica, motivado pelo antissemitismo. Mas foi depois do Holocausto, quando o regime nazista matou 6 milhões de judeus, que a Organização das Nações Unidas decidiu pela criação de um estado judaico. “Em alguma medida, alguns judeus sentem que seu destino está atrelado ao estado de Israel”, explica.

JUDEU BOLSONARISTA?

Por outro lado, Douek rejeita o estereótipo do “judeu bolsonarista” e ressalta que os judeus são plurais. Para ele, essa ideia é o encontro de dois preconceitos: um vindo do campo conservador e outro do campo progressista.

“É compreensível que o Bolsonaro e os setores que o apoiam cortejem a comunidade judaica em busca de apoio, porque o Bolsonaro, desde que ele apareceu como potencial candidato, ele foi frequentemente acusado de ser nazista. Então, o apoio da comunidade judaica à candidatura de Bolsonaro funcionava como um antídoto frente a essa acusação. Ele tinha algo muito convincente pra mostrar para a opinião pública”, afirma.

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Há, na comunidade judaica, pessoas que votaram no presidente Jair Bolsonaro e as que não votaram. Há empresários que apoiaram o presidente, com o atual secretário de comunicação, Fabio Wajngarten, mas há outros empresários que o apoiaram, cuja religião pouco é citada.

Um caso comumente usado para ilustrar que o judeu é bolsonarista é a palestra do presidente Jair Bolsonaro no clube A Hebraica do Rio de Janeiro. Por outro lado, poucos lembram que havia grupos de judeus opositores na porta do local protestando contra a presença do então deputado.

Na avaliação de Daniel Douek, o judeu real pouco importa para o presidente, assim como o israelense. “Bolsonaro voltou antes de Israel pelos protestos que aconteceram lá. O judeu real precisa ser jogado para debaixo do tapete. O que interessa não é a comunidade judaica ou o estado de Israel, o que interessa é canibalizar os símbolos judaicos e do estado de Israel em nome do seu próprio projeto político”, diz.

O que impressiona o diretor-executivo do Instituto Brasil-Israel é o fato de a esquerda e os setores progressistas terem comprado o discurso da base bolsonarista. “A insistência dos setores progressistas na narrativa de que os judeus apoiam Bolsonaro interessa e favorecem só o próprio Bolsonaro. Seria muito mais estratégico se os setores progressistas desses destaques às manifestações contra o Bolsonaro na comunidade judaica”, opina.

ISRAEL

Gabriel Paciornik é brasileiro e vive em Israel há quase 20 anos. Quando consultado pela imprensa israelense sobre o uso da bandeira do país em protestos pró Bolsonaro, responde que são evangélicos neoconservadores. “Eles entendem na hora, porque é um movimento que se vê também em outros países, como nos Estados Unidos”, afirma.

Sobre a visão de Israel como símbolo conservador, de bandeiras políticas clássicas dos eleitores do presidente brasileiro, ele chama de “aberração”. “Há coisas aqui que nem seques são discutidas, não são pauta e nem nunca foram. Aborto é uma delas, por exemplo”, afirma. “Até mesmo direitos humanos é um assunto discutido com muito menos preconceito aqui, um país em conflito desde que nasceu, que no Brasil.” Gabriel avalia que, em termos de sociedade, Israel é mais aberto e liberal que o Brasil.

O aborto não é proibido em Israel, mas é um processo burocrático, porque depende da situação da mulher. “Alguns casos têm aprovação automática, outras exigem um comitê de aprovação. Mas a aprovação quase sempre acontece. O número de abortos tem diminuído ano após ano”, conta.

Outro exemplo são as armas de fogo. A lei israelense não garante o direito à propriedade privada de armas e estas são controladas e rastreadas pelo Estado.

O brasileiro acredita que o uso da bandeira de Israel não muda nada no país, mas, no Brasil, gera ataques constantes de antagonistas contra a comunidade judaica e contra Israel.