Por que Bolsonaro escolheu Juiz de Fora como ponto de largada da corrida à reeleição?

Bolsonaro levou facada em Juiz de Fora na campanha de 2018 (Raysa Leite/AFP (via Getty Images)
Bolsonaro levou facada em Juiz de Fora na campanha de 2018 (Raysa Leite/AFP (via Getty Images)

Jair Bolsonaro aparecia em segundo lugar em uma pesquisa Datafolha divulgada em agosto de 2018. Ele somava 19% das intenções de voto, contra 39% do candidato do PT.

No fim de setembro, o então deputado tomou a dianteira da disputa. Ele atingiu 28% das preferências, contra 22% do concorrente petista.

Dois grandes eventos ocorreram entre um levantamento e outro.

Veja como foram as últimas pesquisas eleitorais de 2022:

Lula, o plano A de seu partido, foi declarado inelegível em 11 de setembro e passou o bastão para Fernando Haddad, que jamais conseguiu atingir o desempenho do padrinho político.

E, cinco dias antes, Jair Bolsonaro sofreu um grave atentado a faca durante um ato de campanha em Juiz de Fora (MG). Era véspera do feriado da Independência, celebrado em 7 de setembro.

A facada, assim como a saída de cena do ex-presidente Lula, mudou a história daquela eleição.

O então candidato do PSL passaria boa parte da campanha em uma cama de hospital. A situação crítica de saúde o impediu de participar de debates na TV, um dos pontos fracos do candidato que espantava no confronto tete-a-tete de ideias.

As entrevistas passaram a ser concedidas em seu leito para emissoras escolhidas a dedo.

Por vias tortas, conseguia a exposição na TV que seu partido não oferecia sem precisar se expôr ao debate com os concorrentes. O momento de convalescência serviu também para esfriar a artilharia de adversários que já haviam percebido as chances reais do então deputado obscuro de chegar ao segundo turno.

A tentativa de homicídio deu a Bolsonaro uma aura de candidato ungido e “indestrutível” que venceu a morte e seu emissário para liderar a reconstrução do país.

A camisa amarela manchada de sangue, exposta em ampla cobertura às vésperas do Dia da Independência, conferia à sua candidatura um simbolismo que passaria a ser usado até o fim da campanha. E também durante o mandato.

Não teve crise ou acusação de incitação à violência que não foi respondida nas redes por apoiadores do presidente com a hashtag #QuemMandouMatarBolsonaro – embora a Polícia Federal tenha concluído que Adélio Bispo, autor da facada, era um perturbado que agiu sozinho.

Passados quatro anos, Bolsonaro escolheu Juiz de Fora, o cenário do atentado, para a largada oficial da campanha pela reeleição.

A escolha pode soar estranha. Afinal, quando alguém vivencia um trauma, tudo o que se quer evitar é o retorno a uma cena pontuada de gatilhos.

Mas a opção faz todo sentido para quem larga novamente atrás na disputa –dessa vez o adversário principal não é mais o candidato virtual.

A ideia, segundo apoiadores, é lembrar o momento em que Bolsonaro “nasceu de novo”.

A volta a Juiz de Fora ganha assim um caráter messiânico em uma campanha já marcada pela narrativa religiosa e baseada na oposição entre “bem” x “mal” (obviamente o “mal” está sempre do lado de lá dos adversários).

Esta não será a primeira vez que Bolsonaro volta ao local onde “renasceu”. Em julho deste ano, ele foi até o município para participar de um culto evangélico. Foi lá que ele declarou que foi salvo não por obra da sorte, mas pela “mão de Deus”.

O retorno a Juiz de Fora reforça, assim, a narrativa segundo a qual Bolsonaro é o representante que enfrenta adversidades de toda ordem desde os tempos de candidato: à facada de Adélio Bispo somariam-se, segundo a narrativa, golpes simbólicos aplicados pelo Supremo Tribunal Federal, partidos rivais, ex-aliados, traidores, adversários corruptos, países alinhado com a esquerda “globalista”, etc.

Basta um sopro para desmontar, como um castelo de cartas, essa narrativa. Parte dos que ele chamava de inimigo em 2018 hoje está cooptada, e nenhum presidente fez o que ele fez ao arrepio da lei sob tamanho beneplácito do Congresso e do procurador-geral da República escolhido a dedo.

Ainda assim o ponto de largada pretende retomar a trajetória, baseada em uma versão particular da jornada do herói, de uma campanha que teve um ponto de inflexão inegável quando Adélio Bispo entrou em cena –para nunca mais sair, mesmo sob a forma de sombra.

O trauma de 2018 certamente fará com que o agora candidato à reeleição reforce a estratégia e as equipes de segurança na versão 2022 da disputa.

Bolsonaro seguirá dizendo que só não fez o país decolar porque, a exemplo daquele ato de campanha, seu trajeto foi interrompido por forças externas: a pandemia, a guerra na Rússia, a suposta má vontade de juízes, de prefeitos, governadores, etc.

Cada promessa reciclada vem agora embalada à sombra de outros golpes. O golpe que ele promete levar a cabo caso não seja reeleito e o que daria a ele a brecha para agir fora das quatro linhas da Constituição. É como se cada ameaça de desobediência ao resultado das urnas tivesse embutido o desejo de ser golpeado –daí a presença constante da palavra “fraude” em seus discursos.

O que ele quer é chamar de contragolpe o golpe ensaiado desde seus tempos de deputado.

Esse desejo está envolto na aura de Messias recebida em Juiz de Fora, em um já distante setembro de 2018 que agora busca resgatar.