Por que Exú é tão demonizado?

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Foto: Roger Cipó / Olhar de um cipó
Foto: Roger Cipó / Olhar de um cipó
  • Em uma conjuntura nacional, onde religião e política abrem cada vez mais espaço para posturas conservadoras e fundamentalistas, o desejo dos racistas é que continuemos, sobretudo, anulando as nossas vivências, a nossa história e toda uma ancestralidade

  • Nos últimos meses, na região metropolitana do Recife, toda a comunidade de terreiro esteve e está em alerta sobre uma única figura que, em suas redes sociais, usufrui de sua audiência e do seu posto enquanto pastor neopentecostal para proferir o que chama de “verdade de Deus”

  • O reflexo do dia de Exú, nesta terça-feira, se apresenta em um entendimento para os povos de axé que o caminho contra a desinformação e injúrias contra a nossa fé não será fácil, mas temos nossas ferramentas ancestrais

Texto: Victor Lacerda

“Satanás convive em outro credo. Não o queremos entre nós”. A frase que estava estampada em letras garrafais na última Caminhada dos Povos de Terreiro, realizada um dia antes da data dedicado a Exú (24), no Recife, carrega o sentimento de cansaço de uma comunidade que vê, constantemente, uma associação arbitrária e que deslegitima a identidade sociocultural e religiosa negra. Curioso a figura mais malquista do cristianismo ser equiparada ao orixá responsável pela comunicação e ligação entre filhos de santo e suas divindades maiores, não? 

Ao que parece, a sabedoria trazida pela oralidade de anos e anos de resistência, aos olhos discriminatórios e preconceituosos, não possui - ou não tinha - força. Mais uma vez, o que se espera dos religiosos de axé é que sejam discretos, que cultuem seus orixás e suas entidades, mas que não precisem falar ou expressá-la. Em uma conjuntura nacional, onde religião e política abrem cada vez mais espaço para posturas conservadoras e fundamentalistas, o desejo dos racistas é que continuemos, sobretudo, anulando as nossas vivências, a nossa história e toda uma ancestralidade.

A intimidação não é de hoje e, como continuidade da propagação dos ideais preconceituosos conosco, se adapta. Nos últimos meses, na região metropolitana da cidade, toda a comunidade de terreiro esteve e está em alerta sobre uma única figura que, em suas redes sociais, usufrui de sua audiência e do seu posto enquanto pastor neopentecostal para proferir o que chama de “verdade de Deus”. Para ele, tão única e inquestionável: ser candomblecista ou umbandista é sinônimo de cultuar Satanás e flertar com a “feitiçaria”. 

A falta de informação, ao meu ver, em tempos atuais, não pode ser levada em consideração para justificar posturas de líderes como este. Pelo contrário, aqui, a sabedoria é usada para, cada vez mais, reforçar um estereótipo construído por anos com base no medo, por isso o uso da figura mais maléfica dentro da sua crença. A disseminação fervorosa continua acreditando que através do apontamento de teses com bases infundadas, mas que geram alvoroço por serem polêmicas, trarão ainda mais fiéis para instituições que não seguem o ensinamento básico e de conhecimento popular: o amor ao próximo.  

Enquanto isso, pedimos licença a Exú para entrar nos nossos ilês (casas de santo), batemos cabeça para os nossos orixás, saudamos as nossas Iyalorixás e Babalorixás e, sobretudo, pedimos a benção aos que estão há mais tempo na caminhada dentro do santo, os mais velhos. 

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A oralidade continua sendo a nossa principal fonte de conhecimento. Algo que, por anos, foi de difícil documentação, mas que conseguimos resguardar de geração em geração, como aprendemos com os nossos ancestrais. Para além de proteger nossa crença, essa foi a forma que encontramos (ou nos foi encaminhada) de seguirmos firmes no culto à quem nos protege e nos traz caminho.

O engraçado é que Exú, o orixá mais “demonizado” entre os desrespeitosos, é o orixá da fala. A quem nós pedimos discernimento e sabedoria para estarmos nos melhores caminhos, também abertos por ele, e também para proferirmos as melhores palavras, que contenham respeito e que sejam de fácil entendimento coletivo. E, nos últimos meses, a comunidade de terreiro, simbolicamente, se fortalece mais através do que é ensinado e resguardado por ele. 

Exú se manifesta de várias maneiras e sabe como e por quem falar. Seja pelo discurso de Vera Baroni, Yabassé do Ilê Obá Aganjú Okoloyá, Terreiro de Mãe Amara e representante de Rede de Mulheres de Terreiro de Pernambuco, que protocolou uma representação criminal junto ao Ministério Público contra as ações do mesmo pastor citado anteriormente, e que pediu alinhamento dos povos de terreiro na luta contra a intolerância e responsabilidade do estado, já que vivemos em um país que a laicidade é prevista na Constituição. Assim como pelo jogador da Seleção Brasileira de Futebol que venceu as Olimpíadas de Tóquio de 2021, Paulinho. Quando todos os olhares estavam voltados ao evento esportivo internacional, o pedido do atleta foi “Que Exú Ilumine o Brasil”. 

Com isso, o reflexo do dia de Exú, nesta terça-feira, se apresenta em um entendimento para os povos de axé que o caminho contra a desinformação e injúrias contra a nossa fé não será fácil, más temos nossas ferramentas ancestrais. O aquilombamento é uma forma de proteção e nos dá coragem para falar das nossas vivências religiosas sem ser apenas em dias que temos que lutar para seguirmos nossa fé e acreditar em quem queremos. Por isso, aos povos de axé, um pedido: Não nos calemos. A boca fala aquilo que o coração está cheio e o nosso é de respeito pelo outro.

Usando da linguagem universal, a música, convido a ouvir a canção "Quilombo Axé”, do Afoxé Oyá Alaxé. “Irmãos e irmãs assumam sua raça assumam sua cor, essa beleza negra Olorum quem criou. Vem pro quilombo axé dançar o Nagô. Todos unidos num só pensamento levando a origem desse carnaval desse toque colossal pra denunciar o racismo contra o Apartheid Brasileiro”, exclama a faixa. O sentimento, por aqui, é o mesmo. Se faz necessário externar quem somos e termos orgulho disto. Que Exú possa abrir caminhos para darmos continuidade às nossas crenças sem sermos importunados por inverdades. Não precisamos nos esconder e não vamos. Afinal, não andamos sozinhos. 

Baraô, Exú! 

Laroyê!

Viva o dia 24 de agosto! 

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