Por que fazer teste de anticorpos após a vacinação não é uma boa ideia

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A pandemia da Covid-19 e sua longa duração trouxeram uma série de ineditismos em relação às vacinas. Eis alguns deles: antígenos desenvolvidos em tempo recorde, aprovação de novos imunizantes pela Anvisa acompanhadas pela televisão — guardando as devidas semelhanças com partidas de futebol — e um interesse repentino da população em conhecer sua sorologia, ou seja, sua produção de anticorpos após a inoculação.

Especialistas em saúde e entidades médicas, porém, desaconselham a prática e explicam que o sistema de imunização disparado pela vacina é muito mais complexo do que o exame de anticorpos neutralizantes pode revelar. Além disso, há ainda uma série de fatores a serem descobertos em relação aos anticorpos e a proteção da vacina em si.

— Não estimulamos ningúem a realizar esse teste. O problema é que existem perguntas que não sabemos responder. Ninguém sabe exatamente quanto que você precisa ter (de volume de anticorpos no exame) para determinar que você está protegido — explica Celso Granato, infectologista e diretor médico do Grupo Fleury.

Essa taxa de proteção necessária para atingir a imunidade tem um nome científico: correlato de proteção. Em resumo, quando se descobre esse aspecto de uma doença, sabe-se qual é o nível necessário de anticorpos para se tornar imune. Sem essa informação, saber o resultado do exame é, basicamente, infrutífero.

Celso Granato aponta que observar o laudo do exame sorológico “gera uma dúvida sem cabimento”. Para que os indicativos do exame apontem uma conclusão válida é preciso estudar, ainda mais, essa relação — o que a ciência tem se apressado em fazer. E, em última instância, os exames disponíveis no mercado não foram desenvolvidos para essa finalidade: saber se a vacina “pegou” ou não.

Ultrapassada essa questão, há um outro fator de grande importância relacionado ao tema. O sistema de proteção do organismo é também muito mais elaborado do que sugere somente a medição de anticorpos. Isso porque a proteção para Covid-19 é fruto da ação de imunidade celular, que funciona em duas frentes: lembrar ao organismo como se proteger e destruir células infectadas.

— Os linfócitos TCD4 são as células que chamamos de ‘assassinas’, elas matam as células que estão infectadas pelos vírus e também estimulam os linfócitos B a produzir mais anticorpos — explica Mônica Levi, presidente da Comissão de Revisão de Calendários de Vacinação da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

Além disso, Mônica Levi explica que essa proteção conferida pelas células conta com um importante mecanismo de reconhecimento diante da ocorrência de um novo contato com o vírus. Com uma nova infecção, essa parte da imunidade faz com que o sistema reconheça o agente causador e reative os mecanismos de defesa desenvolvidos após a vacina.

Essa segunda proteção, inclusive, é a chave para que as pessoas que realizaram dois exames sorológicos e, com o tempo decorrido, perceberam uma redução no nível de anticorpos sigam confiantes no funcionamento da vacina. Caso os anticorpos não sejam indicados no exame, há ainda essa segunda camada de proteção que, até esse momento acredita-se, mais potente diante das variantes.

Essa queda de anticorpos é um comportamento comum ao corpo humano — o ritmo de diminuição varia de pessoa para pessoa e também diante de diferentes imunizantes. A imunização por hepatite B, por exemplo, não constuma indicar anticorpos em exames de sangue, mas a proteção é muito bem feita pela imunidade celular.

A maior segurança de que a vacinas funcionam, explicam os especialistas, deve vir dos indicativos de internações e mortes em queda quando estende-se a lupa aos grupos vacinados. As evidências científicas em relação à proteção oferecidas pelas vacinas avançaram rapidamente nos últimos meses.

Há, por exemplo, uma pesquisa conduzida no estado de São Paulo pelo grupo Vebra Covid-19 que apontou que duas doses da vacina AstraZeneca tem efetividade — que é o quanto a vacina funciona no mundo real, fora de estudos clínicos — 14 dias após a segunda dose de 77,9% para casos sintomáticos, 87,6% para hospitalizações e 93,6% para mortes em pessoas com mais de 60 anos. A vacina CoronaVac, por sua vez, teve — 14 dias após a segunda dose em pessoas acima de 70 anos — 41,6% de proteção para casos sintomáticos, de 59% para hospitalizações e 71,4% para mortes.

— A gente orienta que as pessoas não façam a dosagem de anticorpos. Porque é capaz de gerar frustração em uma pessoa que pode estar protegida e tranquilidade, descuido com as medidas de proteção, naquele que teve um resultado positivo, mas não está adequadamente imunizado — conclui Mônica Levi.

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