Por que Gloria Perez precisou silenciar o luto por Daniella Perez?

Gloria Perez e Daniella Perez em
Gloria Perez e Daniella Perez em "Pacto Brutal". Foto: Divulgação/HBO Max

Resumo da notícia:

  • Gloria Perez demorou anos para aceitar o luto por Daniella Perez

  • Autora precisou silenciar o sentimento para participar da investigação do assassinato

  • Psicólogas explicam ao Yahoo sobre o processo de vivência do enlutado

Três décadas após a trágica morte de Daniella Perez, assassinada brutalmente em 28 de dezembro de 1992, o documentário "Pacto Brutal" traz detalhes da história que interrompeu a vida da filha de Gloria Perez. O detalhe é que as informações sobre o processo de investigação, continuado pela própria mãe da vítima, mostram como a autora de novelas precisou silenciar seu luto até que conseguisse ver Guilherme de Pádua e Paula Thomaz como réus no tribunal.

Na produção, Gloria abre o coração sobre a experiência de lidar com a investigação da morte da herdeira diariamente por cerca de anos até saber que o julgamento aconteceria. Isso porque ela não se contentou com o trabalho da polícia e decidiu ir atrás de mais provas que agregassem ao caso.

Passei anos – que sempre imaginei que seriam maravilhosos – nessa luta que parecia que não acabava nunca. Era um crime pavoroso, cruel. Dois assassinos identificados, e você tinha que ficar a espera daquele julgamento. Você não podia viver o luto. Faz muita falta você viver o luto, mas eu não consegui viver, porque tive que me manter atenta para defender a Dani e para contribuir para que o julgamento fosse feito”Gloria Perez em depoimento no "Pacto Brutal"

O processo de luto

Embora Gloria diga que só conseguiu viver o luto após saber que o julgamento da morte de Daniella Perez seria realizado, Maria Júlia Kovacs, psicóloga e docente aposentada do Instituo de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) explica que o processo se inicia assim que se toma conhecimento da perda. "O que define o processo de luto é a perda de uma pessoa ou situação significativa da vida", afirma.

Especializada em perdas e luto, a psicóloga Juliana Sato destaca que há diferentes tipos de luto. Dentre eles, o luto atrasado, quando o enlutado não vivencia a dor da perda logo após a morte do ente querido, o que pode se enquadrar no caso de Gloria Perez e reforça que o processo já estava acontecendo, mas de forma diferente do comum. "Isso tende a ocorrer quando o enlutado passa por outras situações delicadas no mesmo momento e que acabam ocultando o processo de luto", explica.

Há ainda o luto traumático, que é associado a acidentes, homicídios e suicídios e ocorre inesperadamente, o que também se enquadra na perda da Daniella. Nesse caso, o sentimento de culpa e responsabilidade pelo ocorrido podem tornar a despedida ainda mais difícil e a psicoterapia é um dos tratamentos indicados.

 

No ponto de vista psicológico, o luto se inicia no momento em que é constatada a morte. A Gloria entrou em processo de luto. O que ela pode estar tentando dizer é que não se autorizou a viver ou expressar sua dor e elaborar o processo até que pudesse ter a investigação finalizada"Maria Júlia Kovacs, psicóloga e docente aposentada do Instituto de Psicologia da Universida de São Paulo (USP)

Maria Júlia Kovacs ainda pontua a importância de ficar atento na possível intensidade da dor da pessoa que perdeu alguém querido. Nesse sentido, pode ser um processo mais longo e que vai demandar um profissional que tenha especialização no cuidado das pessoas enlutadas.

Quando se analisa o caso de Daniella Perez, ainda se identifica que a comoção geral por se tratar de uma figura pública pode ter dificultado o processo de luto individual de Gloria além de considerar a forma violenta como Daniella morreu. A interferência da imprensa, da opinião pública, do interesse das pessoas em querer saber o que aconteceu podem ter perturbado ainda mais esse processo de luto. "Tanto que, muitas vezes as pessoas fazem o velório, enterro ou cremação só para a família para que possam ter um tempo de vivência de seu próprio processo", reflete Maria Júlia.

A investigação pela mãe da vítima

Foi na noite do enterro de Daniella que Gloria recebeu uma ligação anônima, afirmando que ela deveria ir ao posto Alvorada, que ficava ao lado do estúdio Tycoon, onde Daniella gravava a novela “De Corpo e Alma”, para ter mais detalhes do assassinato.

Com a ajuda do amigo Paulo Fernando, Gloria constatou que alguma coisa havia acontecido mesmo, já que ninguém do local quis se pronunciar sobre o assunto. No entanto, em janeiro, a autora foi procurada pelo cozinheiro Eliseu, que ficava nos arredores do posto em questão, e contou que havia testemunhado Daniella sendo agredida, desmaiando e sendo colocada dentro do carro novamente.

A partir daí, Gloria decidiu iniciar a própria investigação ao ir atrás dos frentistas que teriam visto a cena e confirmariam a versão de Eliseu embora encontrasse resistência por parte dos profissionais. “Quando chegava no posto, todos corriam, cada um para um lado. Mas eu ia todo dia. Eles fugiam, mas eu ia. Teve um que até me ameaçou”, contou.

Depois de várias idas, Gloria compareceu em um domingo à noite ao local e um vigia idoso finalmente cedeu as primeiras pistas ao direcionar que os frentistas moravam nas comunidades da Barra. Sem saber nomes, ele só disse que um era gago e outro tinha um nome parecido com Daniel ou Danielton.

Com a ajuda de amigos, como Nilson Raman, que participa do documentário, a escritora foi em busca de informações nas comunidades. Em meio a tanta procura, ela encontrou Flavio Bastos e precisou convencê-lo pela mãe, Dagmar, depois de muitas batidas na porta, ao mostrar as fotos de Daniella morta e conseguir que ele desse depoimento.

Gloria ainda conseguiu levar um segundo frentista, o Danielson, e um terceiro homem, o Antônio Clarete, que lavou o carro de Guilherme logo após o crime, para prestar depoimento e ajudar na resolução do caso. Confira o trailer de "Pacto Brutal", disponível no HBO Max:

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