Por que há predominância de jornalistas brancos em debates eleitorais?

Foto: Artur Igrecias/Divulgação RedeTV!

Texto / Pedro Borges
Pesquisa / Thalyta Martina

A maioria dos jornalistas que participaram dos debates presidenciáveis são brancos, de acordo com levantamento feito pelo Alma Preta sobre o perfil racial dos repórteres a participar dos diálogos dos debates organizados pela Rede Band e Rede TV!, o programa “Central das Eleições”, da Globonews, e o Roda Viva, da TV Cultura. Apenas no último, ainda que também em número pequeno, houve a presença de jornalistas negros.

O programa da Band, exibido em 9 de agosto, contou com participações de três jornalistas e um mediador, todos homens brancos. Em 17 de agosto, no debate organizado pela Rede TV!, houve a participação de um homem branco na mediação e de duas mulheres brancas enquanto entrevistadoras.

O programa “Central das Eleições”, da Globonews, tem presenças de 12 jornalistas, que já sabatinaram Álvaro Dias (Podemos), Marina Silva (Rede), Jair Bolsonaro (PSL), Geraldo Alckmin (PSDB), Ciro Gomes (PDT). Entre eles, há quatro mulheres brancas e oito homens brancos.

Mesmo sem ser citado no texto de descrição do programa, a assessoria de comunicação da Rede Globo ressalta que o jornalista Heraldo Pereira apresentou o ‘Central das Eleições’ entre os dias 13 e 17 de agosto, e que na próxima semana, a GloboNews vai entrevistar candidatos à presidência da República e Heraldo Pereira estará à frente desta série de sabatinas.

O mais tradicional entre os programas de entrevista é o “Roda Viva”, que tem um mediador fixo, também um homem branco, e tem alternância de entrevistadores. Participaram dos episódios com Guilherme Boulos, Ciro Gomes, Manuela D’Ávilla e Bolsonaro 20 jornalistas no total. Entre eles eram 14 homens brancos, três mulheres brancas, duas mulheres negras e uma mulher asiática.

A diferença está no peso de cada grupo racial na composição da sociedade brasileira. De acordo com dados do IBGE de 2016, negros são 54,9% da população e os brancos, 44,2%.

Juliana Gonçalves, jornalista do Brasil de Fato e articuladora da Marcha das Mulheres Negras de São Paulo, acredita que a ausência de negros acarreta em dois problemas: a falta de representatividade e a ausência de discussão que abarque os pilares da sociedade, amparada nos marcadores de raça, gênero e classe.

“O nível de debate dificilmente recebe também o olhar articulado com as opressões que a classe trabalhadora sofre, em especial negros e mulheres. O discurso fica muitas vezes em questões universalizantes, e não falam com a população de modo geral.”

Juarez Xavier, professor de jornalismo da UNESP, considera que a ausência de jornalistas negros gera o apagamento de temas importantes para a população negra, como o ataque às religiões de matriz africana.

“Quando você ataca uma comunidade tradicional africana ou uma comunidade de terreiro, você está atingindo o Estado democrático de direito. Esse debate não está posto e você não vê as pessoas discutirem a partir dessa magnitude. Pelo contrário: parece um ataque isolado contra uma casa de tradição africana, mas não ao conjunto da população negra, aos seus valores e a um preceito constitucional.”

A disparidade racial, porém, não é exclusividade dos programas de sabatina aos presidenciáveis.

Levantamento feito pela Revista Vaidapé, entre o segundo semestre de 2016 e o primeiro de 2017, checou 204 programas de televisão de sete emissoras (Cultura, SBT, Rede Globo, Rede Record, RedeTV!, Gazeta e Bandeirantes) e traçou os perfis de 272 apresentadores.

O resultado mostrou que apenas 3,7% dos apresentadores são negros, o que equivale ao número absoluto de 10 pessoas, contra 261 brancos. Outro dado que chamou atenção é que os negros estão distribuídos em 80% em programas de entretenimento e 20% em religiosos. Ainda, de acordo com o levantamento, nenhum negro apresentava um programa jornalístico, educativo ou infantil.

O jornalismo foi também objeto de estudo do Gemaa (Grupo de Estudos Multidisciplinares de Ações Afirmativas), da UERJ, que analisou os colunistas dos três principais jornais brasileiros (Folha de S.Paulo, Estadão e O Globo) a partir de perspectiva de raça e gênero. O material é referente ao ano de 2016.

As mulheres, maior parte da população brasileira, compõem entre 26% e 28% dos colunistas dos jornais. Do ponto de vista racial, os negros são 9% dos colunistas de O Globo, 4% da Folha de S.Paulo e 1% do Estadão.

Um dos argumentos utilizados para justificar a maior presença de brancos é o mérito e a ideia de que não há seleção a partir dos princípios de classe, raça ou gênero, mas apenas pela qualidade do sujeito. Juarez Xavier discorda dessa tese.

“É muito mais um privilégio que esses setores sociais têm na sociedade brasileira e que determina as presenças deles no debate do que propriamente o mérito. Essa é uma discussão que deve e precisa ser feita para a podermos mudar a dinâmica da participação de jornalistas apenas brancos. É [necessário] romper com essa lógica da ciranda, da conversa de interesses brancos”.

Outro lado

Questionadas pela equipe do Alma Preta, as assessorias de imprensa da Band, Rede TV! e TV Cultura não se posicionaram até o fechamento desta reportagem.