Por que a inflação mundial deve cair em 2023 (e por que a notícia não é tão boa)

Um gráfico mostra aumentos de preços em vários bens e consumíveis nos Estados Unidos
Inflação pode ter atingido pico ou estar próximo dele nos próximos meses

Provavelmente o pior em termos de inflação já passou.

Pelo menos este é o consenso entre os economistas e as principais organizações econômicas como o Fundo Monetário Internacional (FMI) ou o Banco Mundial depois que a maioria dos países do mundo experimentou, em 2022, aumentos de preços não vistos em quatro décadas.

Não há dúvida de que a inflação continuará a pesar no bolso de milhões de cidadãos em 2023, mas deve registrar uma queda lenta nos próximos 12 meses.

Quando esse período terminar, o FMI espera que a inflação mundial caia para 4,7%, pouco menos da metade do nível atual.

Greve do setor de transporte no Panamá devido ao alto custo de alimentos e combustível
Medidas tomadas para conter inflação farão com que muitos países entrem em recessão, acreditam economistas

Claro, alertam os especialistas, esse indicador vai se comportar de maneira diferente em cada uma das principais economias do mundo.

O que está acontecendo na Europa não é o mesmo que nos Estados Unidos ou no restante das economias avançadas ou nos países emergentes.

No Brasil, o último boletim Focus, do Banco Central, um resumo das projeções do mercado para a economia, aponta que o IPCA, a inflação oficial, deve encerrar 2022 a 5,64%. Para este ano de 2023, deve haver uma ligeira queda, e a previsão é de 5,23%.

Fato é que a inflação global deve se manter em níveis elevados, em um contexto que muitos têm rebatizado de "novo normal".

"Tudo indica que a inflação em 2023 será moderada, embora continue mais alta do que antes da pandemia", explica Juan Carlos Martínez Lázaro, professor de Economia da Universidade IE, em Madrid, na Espanha, à BBC News Mundo, o serviço de notícias em espanhol da BBC.

"Não veremos uma queda abrupta. O preço do petróleo caiu, mas continua alto — assim como nas matérias-primas. E ainda há alguns problemas nas cadeias de abastecimento globais", lembra o especialista.

"Portanto, esperamos que em 2023 as taxas médias de inflação sejam inferiores às verificadas em 2022. Mas é claro que levará tempo e não será em 2023 que será possível voltar aos níveis de inflação pré-pandemia. Para chegar a esse cenário ainda faltarão alguns meses", acrescenta.

De fato, funcionários do Federal Reserve, o banco central dos EUA, acreditam que levará até 2025 para que a inflação volte à meta da instituição de cerca de 2%.

"Muitas das pressões do mercado em 2022, como o aumento vertiginoso dos preços da energia, a crise geral do custo de vida e a subida de impostos e taxas de juros ainda não tiveram seu impacto total", diz Álvaro Antón, da empresa de investimentos Abrdn.

Por isso, ele diz acreditar que, embora haja variações regionais e nacionais, é provável que "a inflação plena na maioria dos mercados desenvolvidos atinja o pico no final de 2022 ou início de 2023", assinala.

O outro ponto em que os economistas concordam é que a desaceleração da inflação estará ligada à desaceleração do crescimento, o que causará sofrimento para as famílias na outra ponta.

Nota de dez reais
No Brasil, projeções indicam um inflação de 5,64% em 2022, uma das menores taxas do mundo

Menos atividade, mais desemprego

No final das contas, se as famílias têm que pagar mais por tudo, o que acontece é que elas acabam comprando menos e gastam menos em viagens ou carros novos, por exemplo.

Principalmente se estamos falando de pagar mais por itens básicos como alimentação e energia, nos quais se concentram os aumentos mais fortes de preços.

Se juntarmos a isso o fato de a maioria dos bancos centrais terem apertado significativamente a sua política monetária e aumentado as taxas de juro, o resultado é um menor consumo das famílias e uma menor atividade das empresas.

Esse último ponto é o que pode desencadear o desemprego e reduzir a inflação.

Homem compra mate na Argentina
Preços de itens básicos, como comida, subiram vertiginosamente

"É provável que ocorram recessões técnicas em várias economias durante 2023, o que fará com que o crescimento global caia abaixo de seu potencial para 2,6%, de 3,3% em 2022", diz a Scope Ratings, uma agência de rating europeia, em relatório recente.

No entanto, a agência descarta que haverá uma grave recessão no mundo ou que testemunharemos uma crise financeira global no próximo ano.

Neste contexto, com a guerra na Ucrânia e as tensões geopolíticas acirradas, a covid se espalhando pela China, o Reino Unido enfrentando um inverno de greves e uma onda de frio na Europa, a contração econômica será muito difícil de evitar.

Recessão para muitos

"Minha previsão para os EUA é de recessão. Tem que haver uma. O mercado de trabalho atual está mais tenso do que nunca no período pós-guerra e, surpreendentemente, não enfraqueceu", diz Steven Bell, economista-chefe para Europa, Oriente Médio e África da empresa Columbia Threadneedle em uma entrevista.

Sua opinião é compartilhada por outros especialistas. Para frear a inflação nos Estados Unidos, dizem eles, é preciso que o mercado de trabalho respire fundo.

"Acho que eles (EUA) precisam de uma recessão. Não acho que será profunda. Vai ser branda e a resposta será rápida, mas acho que eles precisam. E a Europa também vai ter uma por causa do incrível aumento de preços da energia", acrescenta Bell.

"E não podemos esquecer que uma recessão nos países desenvolvidos geralmente leva a uma recessão nos mercados emergentes", ressalva o economista.

Kristalina Georgieva, diretora-geral do FMI
Um terço do mundo entrará em recessão, segundo o FMI

E isso muitas vezes inclui vários países latino-americanos, como o Brasil.

Mas apesar da queda dos preços das matérias-primas, principalmente do petróleo, do acordo de exportação de grãos da Ucrânia que freou a inflação de alimentos e apesar da alta dos juros, medidas destinadas a frear a inflação, também há quem prefira permanecer mais cético em relação às previsões para 2023 sobre a escalada de preços.

"Existe o risco de que a inflação não caia como todos esperam. Na verdade, o fato de haver praticamente uma opinião unânime quanto a isso é preocupante porque o consenso dos analistas está mais errado do que certo", diz Víctor Alvargonzález, diretor de estratégia e sócio-fundador da empresa de consultoria independente Nextep Finance.

De fato, 2022 é um exemplo claro de quanto a realidade pode se desviar das previsões dos economistas.

Muito persistente

No início do ano, as principais entidades afirmaram - quase unanimemente - que a inflação de dois dígitos que já se registrava em muitas economias era "transitória".

E isso não se comprovou.

"Essa inflação pode se mostrar muito mais persistente do que as pessoas esperam", diz Bell.

Outro perigo que pode atrapalhar o consenso dos especialistas é que a guerra na Ucrânia pode sair do controle.

"Estamos em um confronto indireto entre a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, aliança militar ocidental), através do Exército ucraniano, e uma potência nuclear, a Rússia, então quanto mais tempo durar a guerra, maior o risco de acidentes ou agravamento do conflito", diz Alvargonzález.

Cartaz mostrando taxas de câmbio do euro e do dólar
Outro perigo que pode atrapalhar consenso dos especialistas é que a guerra na Ucrânia pode sair do controle

Outro risco que, por enquanto, permanece fora dos holofotes é o confronto oculto entre China e Estados Unidos pelo poder global.

"No momento, os EUA estão ocupados com a Rússia, mas mais cedo ou mais tarde perceberão que seu maior problema é a China, que, na verdade, está se aproveitando da situação criada pela invasão da Ucrânia. Basta olhar para a última visita de Xi Jinping à Arábia Saudita e como foi (bem) recebido", diz o economista da Nextep Finance.

- Texto originalmente publicado em https://www.bbc.com/portuguese/internacional-64145595