Por que não iremos “voltar ao normal” logo após a vacinação

Redação Notícias
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(AP Photo/Eraldo Peres)
(AP Photo/Eraldo Peres)

Por Juliana Faddul

Atire a primeira pedra quem não falou “quando a vacina chegar eu vou...” seguido de vários planos e ideias que envolviam aglomerações, viagens, ou qualquer outra atividade a qual estamos sendo privados por quase um ano.

A única resposta para a frase compatível à realidade, no entanto, é “... continuar tomando todas as precauções sanitárias”. Isso quer dizer que uso de máscaras, higienização das mãos, isolamento social e uso de álcool em gel ainda farão parte da nossa rotina por muito tempo. “Se a gente relaxar nessas medidas, a gente ainda tem risco dessa transmissão continuar correndo entre nós. Ela [a vacina] não vai erradicar, vai diminuir a transmissibilidade e o impacto em caso de doença grave, como internar na UTI e, consequentemente, não ter risco de morte”, fala Sergio Cimerman, médico infectologista no Instituto Emílio Ribas e coordenador científico da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

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Cimerman explica que a volta do convívio social depende unicamente da adesão à vacina. “É preciso chegar a uma imunidade coletiva ou de rebanho de, pelo menos, 70% da população vacinada –inclusive com a segunda dose- para que a gente comece a diminuir esse isolamento e consiga conviver socialmente com as pessoas”, completa. A previsão dada pelo ministro Eduardo Pazuello, da Saúde, em reunião com a Frente Nacional de Prefeitos (FNP) realizada na quinta-feira (14) é de que o Brasil estará completamente imunizado até novembro.

A ala médica, que a esta altura já está cética em relação às datas divulgadas pelos governantes, acredita que as medidas sanitárias irão além de novembro. “Ainda não sabemos o tempo de proteção, assim como se eventuais mutações do vírus SARS-COV-2 podem interferir na eficácia das vacinas”, fala Ana Freitas Ribe, médica sanitarista do Instituto de Infectologia Emílio Ribas. “É importante manter o acompanhamento da epidemia, alcançar melhores coberturas vacinais, reduzir o nível de transmissão da doença na comunidade a partir do distanciamento físico, uso de máscara e lavagem de mãos. Além disso, estudos de efetividade da vacina devem ser conduzidos, após a administração, assim como a farmacovigilância”, completa.

Uma é pouca, duas é bom

Se atualmente a ala científica e gestores de saúde pública enfrentam o desafio de incentivar a adesão da vacinação, esse problema ganhará outros contornos num futuro próximo: a segunda dose. “Esse sempre foi o maior desafio: fazer com que as pessoas se lembrem da segunda dose. Mesmo com outras vacinas tanto mães como adultos se esquecem”, explica a bióloga Natalia Pasternak, presidente do Instituto Questão de Ciência.

A maior parte das vacinas são dividas em duas doses como forma de preparar o sistema imunológico. A primeira é para “acordar” o sistema imunológico e a segunda para efetivamente imunizá-lo. “Na primeira dose você dá um prime, faz o primeiro contato do sistema imune com o patógeno. Isso muitas vezes provoca uma resposta imune inicial, mas depois de um tempo começa a decair ou não ser suficiente para proteger contra a doença”, fala Pasternak. Tanto a CoronaVac como a vacina de Oxford não fogem à regra e precisam de duas doses para que a imunização seja efetiva.

Outro ponto importante que os cientistas pregam é de que a vacina não age instantaneamente, já que o organismo humano inicia a produção de anticorpos de duas a quatro semanas após a vacinação. Mesmo assim é preciso ficar atento ao espaçamento entre as duas doses.

Embora esse hiato de tempo pode ser flexível, o ideal é que não ultrapasse seis meses. “Depende da vacina, claro, mas em geral dá para espaçar sem perder proteção. O que não pode é realmente esquecer ou deixar de tomar por muito tempo [acima de seis meses] porque pode ser que aquela primeira dose não seja capaz de proteger da doença por um tempo longo. Por isso que o desafio das campanhas é fazer as pessoas a tomarem o reforço”, fala Pasternak.

Para garantir adesão da sociedade na imunização, e assim podermos realmente concretizar os planos de viver sem isolamento social, especialistas são uníssonos quanto ao incentivo de campanhas para a vacinação. “Temos que fazer campanhas educativas e explicativas chamando a população para que tome a vacina. Tanto do ponto de vista do Butantã quanto o da Fiocruz”, alerta Cimerman.

Para evitar que as pessoas esqueçam a segunda dose, está sendo desenvolvido o aplicativo Conect SUS, que integra carteira de vacinação online e lembretes para tomar outras doses de outras vacinas também. “Nessas horas a tecnologia ajuda bastante”, diz Pasternak.