Por que o dólar está puxando para baixo a economia global?

O valor do dólar está no patamar mais alto em uma geração, desvalorizando moedas ao redor do mundo. Isso está abalando as perspectivas para a economia global, já que altera o custo de tudo, desde viagens de férias ao exterior até a lucratividade de empresas multinacionais.

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O dólar azeita a economia mundial. Representa cerca de 90% de todas as transações cambiais, representando cerca de US$ 6 trilhões em atividades diárias antes da pandemia, desde turistas usando seus cartões de crédito a companhias fazendo investimentos internacionais gigantescos.

Como a moeda mais importante do mundo, o dólar muitas vezes sobe em momentos de turbulência, em parte porque os investidores consideram que é uma opção relativamente segura e estável. A divisa tem se valorizado enquanto a inflação sobe, os juros aumentam e as preocupações com a economia global pioram.

- É uma mistura bem difícil- disse Kamakshya Trived, chefe de um grupo de pesquisa de mercado no Goldman Sachs.

A principal forma de medir a força do dólar é compará-lo a uma cesta de moedas de grandes parceiros comerciais, como Japão e a zona do euro. De acordo com essa medida, o dólar está no maior nível em 20 anos, depois de se valorizar mais de 10% este ano, um amplo movimento para um indicador que tipicamente se move em pequenas frações a cada dia.

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Na semana passada, o iene afundou para o patamar mais baixo em 24 anos frente ao dólar e o euro atingiu a paridade de um para um com o dólar pela primeira vez desde 2002. Mas escolha qualquer moeda, do peso colombiano à rúpia indiana, do zloty polonês ou o rand sul-africano, e ela provavelmente perdeu valor em relação ao dólar, especialmente nos últimos seis meses.

Política agressiva de juros

Os fatores agitando a economia global explicam parcialmente o motivo de o dólar ter se tornado subitamente tão mais forte.

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Enquanto bancos centrais ao redor do planeta tentam domar a inflação elevando taxas de juros, o Federal Reserve (Fed), o banco central dos EUA, está agindo mais rápido e mais agressivamente que a maioria.

Como resultado, os juros estão marcadamente mais altos nos EUA, atraindo investidores que buscam maior retorno mesmo em investimentos conservadores como os títulos do Tesouro americano. Enquanto o dinheiro entra, o valor da moeda sobe.

"É um dólar muito, muito forte", disse Mark Sobel, antigo funcionário do Tesouro que agora trabalha como presidente do centro de estudos Fórum Oficial de Instituições Monetárias e Financeiras nos EUA. A moeda só se valorizou mais do que o patamar atual em três ocasiões desde os anos 1960.

Analistas do Bank of America estimam que mais da metade da alta do dólar este ano pode ser explicada pela política comparativamente agressiva do Fed.

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Os analistas citam o status da moeda como porto seguro diante da piora de condições econômicas e da turbulência no mercado de ações. Eles também dizem que o dólar estava em alta por causa da disparada dos preços de energia afetando economias importadoras, incluindo a maioria da Europa. O impacto é maior do que nos EUA, que é menos dependente da compra de petróleo e gás no exterior.

"Não apenas os temores de recessão estão em alta, mas os EUA também parecem melhor do que o resto do mundo", disse Calvin Tse, um estrategista de mercado do BNP Paribas.

Efeito no caixa das empresas

Empresas sediadas fora dos EUA viram suas vendas impulsionadas pela alta do dólar. A Burberry, a grife de luxo britânica, disse na última sexta-feira que iria adicionar mais de US$ 200 milhões a suas receitas este ano por causa do movimento da moeda, que ajudou a compensar um declínio de vendas na China.

Mas companhias americanas com operações internacionais estão sentindo o impacto quando convertem vendas em outros mercados para o dólar.

Os lucros de Microsoft e Nike, por exemplo, mostraram os efeitos. A Apple gera mais de 60% de suas vendas fora dos EUA, ela e outras gigantes da tecnologia, que dominam muitos índices de ações, são mais propensas a sentir o impacto do fortalecimento do dólar quando divulgarem seus balanços nas próximas semanas.

Ben Laidler, estrategista de mercados globais da eToro, estima que a ascensão do dólar vai tirar 5% do crescimento dos lucros das empresas da S&P 500 este ano, o equivalente a US$ 100 bilhões. É um tamanho considerável dado que os ganhos destas empresas têm previsão de crescer cerca de 10% este ano, de acordo com a FactSet.

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Refletindo esse descompasso, empresas que geram a maior parte de suas receitas nos EUA tiveram performance melhor que suas rivais com maior exposição internacional.

Para países endividados, mais turbulência

Os mais afetados no momento são países onde a dívida em dólar representa uma grande parte do PIB. Pagar juros a credores em dólar se tornou particularmente difícil para países que tiveram rápida depreciação de suas moedas, como Argentina e Turquia, especialmente já que as taxas de juros sobre novos empréstimos também vão subir. Para alguns, incluindo Sri Lanka, se tornou praticamente impossível.

O dólar, entretanto, não derrubou todas as moedas este ano. O aumento nos preços de energia e alimentos, que acelerou após a invasão da Ucrânia pela Rússia, tem favorecido moedas de países como Angola, grande produtor de petróleo, Uruguai, grande exportador de alimentos, e Brasil, que vende energia e commodities agrícolas.

Enquanto a economia dos EUA está parecendo mais trêmula, a Europa enfrenta uma crise de energia, o Japão resiste a elevar taxas de juros, as políticas de lockdown contra Covid na China afetam a cadeia de suprimentos e outros países oscilam sob o peso da inflação crescente, a demanda por dólares segue robusta. Embora seja difícil dizer por quanto tempo.

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