'Por que o humor tem que ser politicamente correto?', questionou Jô Soares, em última entrevista

"Por que o humor tem que ser politicamente correto?", questionou Jô Soares, em sua última entrevista. O apresentador e humorista — que morreu, aos 84 anos, na madrugada desta sexta-feira (5) — acreditava que todos os personagens cômicos que ele interpretou ao longo da carreira continuariam a ser bem recebidos pelo público, inclusive aqueles considerados politicamente incorretos, como o Capitão Gay.

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"Não tem que haver essa preocupação", afirmou Jô, em entrevista a Marcelo Tas, no programa "Provoca", da TV Cultura, em 2019. "Nunca pensei que pudesse julgar de outra forma o humor: ou é engraçado ou não é. É só isso. Mau gosto é uma coisa que se aplica à moda", ressaltou.

Na ocasião, Jô Soares fez críticas ao presidente Jair Bolsonaro (PL) e reforçou a opinião acerca das relações entre humor e política: super-herói homossexual que vestia um uniforme rosa e vivia ao lado do ajudante Carlos Sueli (interpretado por Eliezer Motta), o Capitão Gay sobreviveria, muito bem, obrigado, se ainda fosse exibido na TV.

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"Por incrível que pareça, ele (Bolsonaro) não tem força para interferir na censura. Ele pode tentar o que quiser, mas a nossa Constituição salvadora tem cláusulas pétreas, e uma delas é esta: a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa...", afirmou, sobre os ataques do atual governo à Cultura.

O apresentador contou, à época, que acreditava ser impossível manter um programa de entrevistas na televisão sem ser acusado de partidarismo. "Sempre as pessoas serão acusadas de partidarismo. Nós aqui falando, e vai ter gente achando que sou do PT ou você é do PT", disse ele, para Marcelo Tas. "O fascínio pelo rótulo é incrível. Você vai na farmácia sabendo que o génerico é igual ao outro, mas você quer o outro. O rótulo tem uma força. O cara poder dizer que nós dois somos dois veados velhos, e isso dá uma alegria enorme para ele", acrescentou.

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Jô Soares lamentava profundamente a atual situação política do país. "Não tem tido debate no Brasil. Não tenho mapa de coisa nenhuma. Espero que as pessoas comecem a votar em quem querem, e não em quem acham que vai ganhar. Eleição não é casa de apostas", contou.

"Conheço pessoas que me surpreenderam ao dizer que votaram no Bolsonaro, falando: 'Ah, meu candidato preferido não ia ganhar mesmo'. E muitas dessas pessoas por serem contra o PT. Isso vira um fantasma... Hoje em dia, o PT é um fantasma doentinho, que precisa de UTI. O PT precisa reconhecer os erros que teve para ir para frente, porque nenhum partido é isento de erros. O que fez 'virar' foi o combate à corrupção que o PT simbolizava. Daí de repente se vê que o PT foi tão corrupto quanto os outros. E fica um decepção em termos de opção", explicou.

Apesar dos pesares, Jô mantinha a esperança sobre o futuro do Brasil. "Em relação ao mundo, meu país está bem. Em relação ao seu passado, ele já esteve bem melhor. Sempre. Foi havendo um desgaste e um vaivém. Mas acho que mesmo assim o país melhora. O próprio país alimenta a minha esperança. O país tem uma força vital, de energia, de ser humano que eu não vejo nos outros países. O que me desespera é a espera", explicou.

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