Por que o prêmio do Brasileirão Feminino não subiu e como a CBF compensa isso

Igor Siqueira
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Lucas Figueiredo/CBF

Em 2018, o Corinthians levantou a taça do Brasileiro feminino e levou um total de R$ 180 mil de premiação. Há duas semanas, a equipe repetiu o feito e embolsou valor igual, sem correção. Esse tem sido o prêmio das campeãs brasileiras desde 2017 e, provavelmente, será o da próxima edição, em 2021. A título de comparação, o vencedor no masculino, ao fim de fevereiro, vai levar R$ 31 milhões — prêmio 170 vezes maior.

Uma mudança significativa nos valores não está no horizonte próximo da CBF, mas virá à medida em que a categoria se solidificar como produto rentável para as marcas e audiências. Quando será? A coordenadora de competições femininas da CBF, Aline Pellegrino, acredita que ao fim da próxima Copa do Mundo, na Austrália e Nova Zelândia, em 2023. Ela projeta que o sucesso visto no Mundial da França, em 2019, que direcionou os holofotes ao feminino, será ampliado.

— O que vimos na França, e ainda estamos espantados, vai ser muito maior na Austrália e na Oceania. Em termos de audiência, valores. Se tivermos essa conversa de novo em 2023, estaremos em outro patamar. Se já não tivermos chegado nele há um tempo — afirma a coordenadora, que assumiu o cargo em setembro deste ano, com a competição já retomada após a paralisação pela pandemia.

Mas o que seria esse novo patamar do Brasileiro A1? O modelo existente nas principais competições masculinas, que têm contratos de direitos de transmissão e naming rights dos torneios vendidos, além de uma lista de patrocinadores.

Sem comparações

Nos contratos atuais de direitos de TV dos torneios masculinos, há previsão de reajuste anual, conforme a inflação. Na Copa do Brasil, o campeão pode faturar até R$ 72,8 milhões, mais que o dobro do prêmio ao vencedor do Campeonato Brasileiro. Além da premiação das outras colocações. Pellegrino ressalta que não cabem comparações pela distância do nível de negócios entre uma categoria e outra.

Hoje, todo o custo das Séries A1 e A2 é bancado pela CBF. Há uma cota de R$ 10 mil para o mandante e R$ 5 mil para o time visitante. Em 2018, a entidade destinou, ao todo, R$ 11,3 milhões para as competições femininas. Em 2019, foram R$ 15,2 milhões, um aumento de cerca de 25%.

Em 2020, a entidade ainda aportou auxílio emergencial aos clubes das duas divisões por causa da pandemia, além dos gastos com as medidas sanitárias.

— Desde 2018, quando a competição perdeu o patrocínio da Caixa, tudo é custeado pela CBF: transporte, hospedagem , alimentação, arbitragem, premiação. Esse ano, o VAR foi implementado na fase final e houve envelopamento dos estádios, Tudo isso é custo. Ano que vem ainda estaremos dentro do “legado da Copa”, que previu um montante para o feminino e já tem contratos definidos e discutidos para o período de três anos, que se encerra em 2021 — explica a coordenadora, acrescentando que todo esquema de organização deste ano será mantido e ampliado.

Mesmo sem um aumento previsto da premiação por parte da CBF, Pellegrino estima um 2021 promissor no quesito financeiro. A elite feminina ganhou dois patrocinadores na fase final da competição. O Guaraná Antarctica abriu as portas. E novas marcas estão em prospecção. Além de conversas com outros canais para a transmissão dos torneios.

Este ano, o Brasileiro A1 passou em TV aberta, canal por assinatura, no Twitter e a final em rádio. Além de fases decisivas de outras competições, como o Paulista. A CBF não tem contratos robustos de venda de direitos, o que tira a velocidade do aumento da premiação.

— As marcas querem visibilidade. Esses canais passando mostram que quem está propenso a investir vai aparecer. Todo mundo do futebol feminino está investindo no nosso produto e mostra que é possível atingir esse patamar de grande receita. Aí, poderemos dividir mais com os clubes. Estamos em um momento orgânico positivo, mas precisamos ter um pouco de paciência — analisa.

Protocolo mantido

A pandemia, inclusive, ainda será um desafio nas competições do feminino em 2021. O cenário atual não prevê outra paralisação. Provavelmente, um reinício de campeonato com os mesmos protocolos de segurança enquanto a doença não for controlada no país.

O calendário está previsto para começar no fim de março. Por causa das datas Fifa e Libertadores, restarão 200 dias para as competições, incluindo o torneio de base que foi suspenso este ano e terá duas edições em 2021.

— Esse ano mostrou o quanto o departamento de competições conseguiu se adaptar à pandemia e entregou os campeonatos. Se acontecer algo, a gente vai se adaptar — disse.

Aline Pellegrino, que até pouco tempo esteve à frente do departamento feminino da Federação Paulista , conhece as demandas do outro lado. Por isso, foi criado um grupo de trabalho, no qual a entidade se reuniu com os clubes para avaliar os pontos positivos e negativos e buscar soluções juntos:

— Não adianta darmos “duas moedas” sem saber se teremos mais no próximo ano. Depois , mais “duas e meia”, sem planejamento. Se amanhã acontece algo, trava tudo. Todos querem campeonato mais valorizado, mas precisamos construir algo sólido — disse Aline.