Por que "Top Gun: Maverick" é um filme muito melhor que o original

Tom Cruise e Jennifer Connelly em cenas de Top Gun: Maverick (Fotos: Divulgação/Paramount)
Tom Cruise e Jennifer Connelly em cenas de Top Gun: Maverick (Fotos: Divulgação/Paramount)

Resumo da análise:

  • "Top Gun: Maverick", um dos grandes filmes do ano, aperfeiçoa o clássico dos anos 1980

  • Novo longa se distancia da competição de ego masculina vista no primeiro filme

  • Entenda como Tom Cruise aperfeiçoou a história de um dos seus trabalhos mais icônicos

Pete "Maverick" Mitchell está de volta e muito melhor. A frase cabe tanto num anúncio de ponto de ônibus quanto em uma crítica de cinema sobre "Top Gun: Maverick", novo filme estrelado por Tom Cruise, atualmente em cartaz nos cinemas brasileiros. De muitas maneiras, o astro de 59 anos conseguiu melhorar o primeiro "Top Gun - Ases Indomáveis" (1986), um dos filmes mais icônicos dos anos 1980 e da sua carreira.

Mas seria o longa original tão bom quanto a nossa memória diz? Depois de ver os dois filmes em sequência, notamos alguns problemas da obra de Tony Scott - ainda mais vistos em comparação com outros ótimos elementos trazidos por Joseph Kosinski e Tom Cruise (afinal, o ator é sempre o chefe das produções em que atua) para a trama em 2022.

Abaixo, explicamos, em alguns tópicos, por que "Top Gun: Maverick" é um filme muito melhor que o original.

Dependência do carisma de Tom Cruise

Sequência de 'Top Gun' é adiada para 2020
Tom Cruise em cena do primeiro Top Gun (Foto: reprodução/Starplus)

Tom Cruise foi alvo de muitos comentários maldosos sobre a sua capacidade de atuação durante a sua carreira. A principal crítica contra o astro - a de que ele era incapaz de interpretar qualquer pessoa que não ele mesmo - nunca teve razão de existir. Jogando uma lupa sobre a sua carreira, percebemos que muitos dos seus filmes tiveram sucesso apoiado quase exclusivamente no carisma do ator. Podemos citar "Cocktail" (1988), "Vanilla Sky" (2001) e, claro, o primeiro "Top Gun".

Caso você pense em revisitar o longa original antes de assistir à continuação, prepare-se para algum nível de frustração. Até mesmo os fãs cheios de boas recordações da Sessão da Tarde (os mais velhos devem lembrar do filme com o título "Ases Indomáveis" nos anos 1980), deverão reconhecer que o longa de Tony Scott envelheceu (digamos com todo o eufemismo por respeito à memória afetiva coletiva) um pouco mal.

Com exceção dos óculos de sol Aviator da Ray-Ban, pouca coisa vista na história original faz sentido nos dias de hoje. Por mais que "Top Gun: Maverick" seja ainda um filme "cheio de testosterona", ele não pode, de forma alguma, ser comparado com a competição de ego masculina vista na história original. Mesmo com uma morte e um romance no roteiro, toda a tensão do antecessor era concentrada meramente nas trocas de olhares entre Tom Cruise e Val Kilmer no vestiário.

Até mesmo a trilha sonora do primeiro filme, realmente marcante, hoje soa como invasiva em diversas cenas. De forma acertada, o diretor Joseph Kosinski retirou até mesmo "Take My Breath Away", o hit romântico do longa, do remake. Assim como o velho Top Gun, trata-se de uma obra que só faz sentido em um contexto nostálgico. Felizmente, "Top Gun: Maverick" não olha para trás e nem deveria (afinal, curiosidade: nem todo avião de caça tem retrovisor).

Propaganda por propaganda

De certa forma, podemos enxergar o primeiro Top Gun como uma grande propaganda para a escola de pilotos de caça da Marinha dos Estados Unidos. Como explicitamos, o novo filme não é isento de ideologia, tal e qual toda obra de arte. A diferença que é "Maverick" se dispõe a contar uma boa história.

Diferentemente do primeiro filme, o novo longa se importa com os personagens. Não é difícil entender o momento da vida de Maverick, um veterano da Marinha que nunca subiu de cargo e muito menos criou laços afetivos duradouros com pessoas fora do trabalho. Bradley 'Rooster' Bradshaw, vivido por Miles Teller, por sua vez, rapidamente ganha uma história com motivações próprias e se livra da pecha fácil de roteiro de "filho do antigo parceiro de Tom Cruise". A interação entre os dois, aliás, é talvez o grande trunfo da obra que já se credencia para listas de melhores do ano.

A trama dos dois personagens é contada com ritmo, sendo intercalada por cenas de treinamento impactantes preparam o terreno para um grande desfecho com um ataque aéreo quase impossível de ser concretizado e a tentativa de Maverick de engatar um romance de meia-idade. A história é bem amarrada e cativante com tramas pessoais bem exploradas. Não é de se estranhar que o novo filme tenha um desfecho muito mais satisfatório e emocionante (com direito à trilha de Lady Gaga) que a "lição de companheirismo entre antigos rivais - ou desavenças resolvidas em prol do bem dos EUA" do antigo Top Gun.

Um casal com mais química

American actors Val Kilmer and Tom Cruise on the set of Top Gun, directed by Tony Scott. (Photo by Paramount Pictures/Sunset Boulevard/Corbis via Getty Images)
Val Kilmer e Tom Cruise se encaram em cena de "Top Gun" (Foto: Paramount Pictures/Sunset Boulevard/Corbis via Getty Images)

A ausência de Kelly McGillis, intérprete de Charlie, par romântico de Tom Cruise no primeiro filme, causou polêmica antes do lançamento de "Top Gun: Maverick". A atriz de 62 anos alega ter sido excluída por estar "velha e gorda". Além dela, Meg Ryan também teve o seu personagem excluído da sequência.

A crítica de McGillis é bastante plausível e mostra como Hollywood trata as mulheres mais velhas. No caso da atriz, o problema se torna mais complexo quando revisitamos o primeiro longa e percebemos como o seu personagem é deixado de lado na história. Apesar dos momentos sensuais ao som de "Take My Breath Away", a química de Tom Cruise na película é, convenhamos, toda com o rival Val Kilmer.

A emocionante aparição de Kilmer prega uma bonita homenagem ao primeiro filme e reforça como os dois atores se dão bem em cena. A diferença é que os anos de vestiário já se passaram e "Top Gun: Maverick", décadas depois do primeiro filme, tem ferramentas narrativas melhores para construir um novo romance para o personagem de Tom Cruise.

Penny, personagem de Jennifer Connelly, foi inserida de forma tão natural no novo filme que até confunde a nossa memória: ela realmente não estava no longa original? Na verdade, ela estava: a sua personagem é citada numa conversa do primeiro filme como "a filha do almirante que Maverick havia deixado a ver navios". A sacada dos roteiristas só atesta como "Top Gun: Maverick" aperfeiçoou até os mínimos detalhes do primeiro filme.

A defesa do cinema

(Foto: Reprodução/IMDb)
Jennifer Connelly em cena de Top Gun: Maverick (Foto: Reprodução/IMDb)

Para além de todas as qualidades do filme, Tom Cruise ainda lança "Top Gun: Maverick" em um momento extremamente oportuno. Homenageado no Festival de Cannes, o ator de 59 anos declarou no evento que nunca lançaria o longa diretamente o streaming. "Olha só, temos que ter respeito pelas pessoas que trabalham com o cinema. E com isso quero dizer todas as pessoas, incluindo o pessoal que vende pipoca. Sabe, eu vou aos cinemas até hoje. Sim, é verdade. Eu entro na sala disfarçado e assisto aos filmes como qualquer um."

Com mais de 40 anos de carreira, o astro do cinema passou de fase para a carreira. Se o primeiro "Ases Indomáveis" era visto como um dos muitos filmes ufanistas de Hollywood dos anos de Ronald Reagan, o ator agora é homenageado fora do seu país e se coloca como defensor da indústria, lançando um ótimo filme para ser consumido preferencialmente com pipoca e refrigerante numa sala de cinema. O clichê "o tempo só fez bem para Tom Cruise" soa como uma verdade inescapável diante de "Top Gun: Maverick".

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